Por Sérgio “Murray” Martins

Nota: 09.0/10.0

A estreia da STRIGAH em formato full-length com Zoetia deixa claro que o quarteto paulistano não entrou em cena para simplesmente repetir fórmulas já conhecidas do Metal Moderno. Formada por Kaio Felipe (vocais), Samanta Tica (baixo), Eleonardo de Paula (bateria) e Matheus Figueredo (guitarra), a banda constrói ao longo de dez faixas e pouco mais de 47 minutos uma sonoridade que atravessa Metal Experimental, Progressivo, Industrial e vertentes modernas, sempre com uma preocupação conceitual bastante evidente. O próprio título, criado a partir da união de zoe (“vida”) e goetia (“feitiço”), resume a ideia de um “feitiço da vida”, enquanto o repertório percorre natureza, violência urbana, alienação digital, espiritualidade e a crise do modelo de sociedade contemporâneo. Em entrevista, Kaio definiu a STRIGAH como uma banda nascida do desejo de “fazer arte e de levar quem nos ouve para um lugar outro”, e Zoetia realmente funciona melhor quando encarado como uma experiência completa, e não como uma simples coleção de músicas pesadas.

“A Propriedade é Roubo” abre o disco já colocando as cartas na mesa. A guitarra de Matheus Figueredo trabalha riffs pesados e mudanças de andamento, enquanto Samanta Tica e Eleonardo de Paula formam uma cozinha que não se limita a acompanhar as guitarras, explorando grooves, quebras e variações rítmicas que dão movimento à composição. Kaio Felipe, por sua vez, alterna agressividade e interpretação de maneira bastante convincente, reforçando o caráter de confronto da letra, que aborda exploração territorial, mineração, latifúndio e violência contra defensores da floresta. “Espírito da Cidade” e “Xamanismo Urbano” ampliam essa identidade, principalmente a segunda, que nasceu, segundo Kaio, de uma experiência mais experimental e de uma tentativa da banda de registrar o som de maneira mais orgânica. É justamente nessa combinação entre peso e atmosfera que a STRIGAH começa a encontrar seu próprio caminho: há ecos de referências como Meshuggah, Fear Factory, Deftones e Northlane, mas também uma conexão assumida com nomes do underground brasileiro, como Deafkids e Última Theoria.

Se existe uma faixa que demonstra o quanto Zoetia gosta de sair da zona de conforto, “Maldito Demiurgo!” é uma forte candidata. Com mais de seis minutos, a música mergulha em referências gnósticas, trabalhando conceitos ligados ao ego, ao desejo, à divisão interior e à ideia de um falso paraíso. A estrutura mais extensa permite que baixo e bateria sustentem diferentes momentos de tensão enquanto a guitarra cria camadas e mudanças que evitam uma condução previsível. “Florestas Virtuais”, por outro lado, leva a discussão para o território da tecnologia e da alienação digital, contrapondo o ambiente natural ao universo de máquinas, redes e relações virtuais. Polirritmias, grooves, efeitos de profundidade, vozes trabalhadas e mudanças de dinâmica fazem com que a música seja uma das sínteses mais interessantes da proposta do álbum. O mérito aqui está justamente em não separar mensagem e música: a sensação de artificialidade e conflito sugerida pelo conceito aparece também na própria construção instrumental.

Outro ponto que merece atenção é a maneira como o quarteto equilibra momentos de maior brutalidade com passagens atmosféricas. “Memória do Mar” ajuda a ampliar essa dimensão, enquanto “Eu Sou Tetsuo”, com participação do UNHOLY HARAKIRI, aprofunda a faceta mais experimental do trabalho. Já “O Vôo do Simorgh”, com seus pouco mais de dois minutos, funciona quase como uma passagem de transição antes de “A Quebra dos Vasos”, composição de quase oito minutos que encerra o álbum recorrendo ao conceito cabalístico de Tikkun, relacionado à reparação e restauração. Essa diversidade é um dos grandes trunfos de Zoetia, embora também seja responsável por sua principal característica potencialmente divisiva: o disco é denso e exige atenção. Não se trata de um trabalho que entrega todas as suas ideias logo na primeira audição; há muitas mudanças, texturas e informações convivendo dentro das faixas, o que pode dificultar a assimilação imediata, mas recompensa quem se dispõe a voltar ao álbum.

No fim das contas, Zoetia apresenta uma STRIGAH consciente daquilo que pretende construir e, principalmente, disposta a não facilitar demais o caminho para o ouvinte. A produção de Yukio Hara mantém a instrumentação suficientemente definida mesmo nos momentos mais carregados, enquanto o desempenho de Kaio, Samanta, Eleonardo e Matheus sustenta uma obra que depende bastante da interação entre os quatro músicos. O resultado é um debut ambicioso, conceitual e sem medo de misturar Metal Moderno, Progressivo, Industrial e Experimental com discussões ambientais, filosóficas, sociais e espirituais. Há espaço para que a banda encontre, nos próximos trabalhos, pontos ainda mais imediatos dentro de suas estruturas complexas, mas Zoetia já demonstra personalidade e uma identidade artística muito bem delineada. Mais do que apresentar uma nova banda, a STRIGAH entrega aqui um disco que pede tempo, atenção e algumas boas audições — e é justamente quando o ouvinte aceita esse convite que as várias camadas do “feitiço da vida” começam a aparecer.