O segundo dia do festival iniciou muito antes, ainda durante a madrugada fria deste 22 de agosto. Mesmo após ao som do DJ set de Chaotic Therapy, muitos festivaleiros se recusavam a ir dormir e continuaram a animação no parque de campismo com muita confraternização após a festa. Entre risos, convívio, brindes e muita alegria, os campistas se entregaram ao cansaço e foram dormir sob o céu estrelado de Pindelo dos Milagres.

Enfim, o sol raiou e com ele veio o calor esperado para verão de agosto e toda energia no camping, onde os festivaleiros acordaram já se aquecendo para os concertos que veriam ao fim daquele. Ouvia-se por todo lado muita música, conversas entusiasmadas sobre as bandas, partilhas em grupos sobre o festival e as suas expectativas. O espírito de comunidade estava presente em todos os dias do evento e ainda mais vivo no campismo, onde todos celebravam uma mesma paixão: o metal.

Ainda sobre recinto do festival, é importante partilharmos que essa nova localização, no Parque de Lazer das Cruzinhas, conta com uma infraestrutura notável, com acessos curtos à área dos concertos, uma larga zona de campismo bastante arborizada, muitas mesas de apoio e WCs e duches de grande capacidade, esses últimos que estavam sempre muito limpos e organizados, um triunfo garantido não só pela organização, mas também pelos seus voluntários muito proativos e dedicados. Também foi possível notar um alinhamento organizacional impecável por parte da produção do festival juntamente com os Bombeiros Voluntários de São Pedro do Sul, que não só garantiam uma melhor condição à estrada de acesso ao recinto, jogando água para abaixar a poeira todas as manhãs, mas também oferecendo apoio emergencial de forma estratégica ao evento.

Também é importante frisar a postura solícita da equipa de segurança que asseguraram o suporte necessário para que os metaleiros se preocupassem apenas com os moshpits e a diversão. E foi nesse ambiente que foi dada a largada do primeiro concerto do segundo dia.

WAROUT

Com a responsabilidade de abrir os concertos deste dia nas mãos, os Warout não se sentiram nem um pouco intimidados ao subir ao palco, pontualmente às 16h50, e descarregar toda presença cénica agressiva e coesa, capturando de imediato a atenção dos festivaleiros mais ansiosos que não tardaram a adentrar à área do festival. Abriram os trabalhos com a acelerada Slaves of Creation, que estabeleceu o nível de energia que teria todo o concerto. Ouso dizer que foi um grande acerto dar à eles o espaço de abertura do evento, pois foram impecáveis na missão de aquecer os festivaleiros.

A engenharia de som do festival também esteve à altura, permitindo que a muralha sónica dos Warout fosse ouvida com total definição, transpassando toda a área circundante do festival até à área de campismo, despertando os mais preguiçosos e convidando-os para o recinto. A cada música, mais pessoas se aproximavam do palco e entregavam-se ao trash metal demolidor da banda. Em Addicted to Violence, o moshpit já estava bem consolidado no meio da pista, acompanhando freneticamente os riffs cortantes e as batidas rítmicas da bateria que marcava as batidas de cabeça dos metaleiros no local.

A banda portuguesa demonstrou uma maturidade ímpar, evidenciando a excelente forma técnica do grupo, que soube comunicar com eficácia toda a agressividade e crueza necessária no thrash, arrancando reações entusiásticas de uma plateia onde muitos já os conheciam e outros se impressionavam com o som pesado, nítido e expressivo que estavam ouvindo. O clímax da atuação confirmou que os Warout não foram meros figurantes, mas sim protagonistas de um arranque memorável. E, à medida que o concerto se aproximava do fim, a simbiose entre o grupo e o público atingiu o seu ápice, transformando a frente de palco numa autêntica celebração do metal.

No saldo final, escolheram encerrar com a faixa Warout (hino da banda) e Attack Thrash, músicas de peso que carimbam em definitivo o que foi a atuação dos portugueses: uma verdadeira afirmação da grandeza e força do metal nacional. Foi muito mais do que um aquecimento para o dia, mas um combustível energizante para tudo que estava por vir. E depois de uma apresentação assim, obviamente a banda recebeu fortes aplausos e gritos de um público satisfeito e animado com o que o Milagre Metaleiro Open Air proporcionou logo naquele prelúdio.

Warout, por @photo_rev1
Warout, por @photo_rev1

SETLIST:
1- Slaves of Creation
2- Blind Society
3- Thoughts of the Wicked
4- Addicted to Violence
5- Where is God?
6- Warout
7- Thrash Attack

DALLIAN

Com o Parque de Lazer das Cruzinhas devidamente aquecido pelos Warout e o público com os níveis de adrenalina no topo, o palco principal foi tomado por uma das propostas mais singulares e audazes do cartaz: os Dallian. O power trio português de death metal sinfônico criaram inicialmente uma ambiência curiosa com um sample de texturas de matriz ibérica, que logo deu lugar a um som de agressividade extrema, sem decepcionar o público que ansiava por mais ação no moshpit.

Os Dallian iniciaram o seu trabalho com a inédita Heist, mas o grande cartão de visita foi a magnética Caixa Pensatória, canção que une guturais profundos e os riffs cortantes em uma amálgama inusitada com a melancolia do Fado e harmonias árabes. A complexidade dos arranjos que desafia o convencional death metal, atiçou logo a curiosidade e o respeito de toda a plateia que se aglomerava em frente ao palco. Logo a pista foi incendiada com os guturais profundos do vocalista que não tardou em convocar a audiência a abrir um grande wall of death em The Swine Dialectic. O público estava rendido, tanto que uma roda lenta acompanhava os momentos menos intensos e implodia quando o som chegava ao seu ápice.

Ressalto também outro ponto alto da apresentação, quando a intensidade cénica e conceitual do grupo foi evidenciado com a execução do título The Nun From Azrael. Surgiram no palco as convidadas especiais Ana e Savita, cuja performance de dança do ventre trouxe uma dimensão visual deslumbrante ao espetáculo, captando totalmente a atenção do público. Surpreenderam ao utilizar adereços nos dedos e adagas, quando pensávamos que já não havia mais como sermos surpreendidos. E os movimentos sinuosos e expressivos das dançarinas contrastavam de forma magnética com o instrumental pesado, técnico e implacável do conjunto, criando uma fusão de linguagens artísticas — o sagrado e o profano, a delicadeza oriental e a brutalidade extrema do death metal — que hipnotizou por completo o recinto, elevando o concerto a uma experiência imersiva e multicultural raramente vista em concertos do gênero.

O conjunto de Leiria provocava a cada título um momento de tensão inicial com samples que ambientavam a atmosfera enigmática que queriam propor. Souberam entregar peso, caos e curiosidade na mesma proporção, por vezes nos levando a questionar se era mesmo necessária tanta ambientação. Mas era na audácia de surpreender com essa jornada transcultural que os Dallian carimbavam a sua assinatura. Com três canções novas no seu setlist, o público teve a honra de conhecer ainda mais desse grande brilhantismo nacional, sedento pelas próximas descargas sonoras que se avizinhavam no cartaz.

Dallian, por @madness_by_nuno_reis
Dallian, por @madness_by_nuno_reis

SETLIST:
1- Heist
2- Caixa Pensatória
3- Prima Materia
4- The Nun From Azrael
5- The Swine Dialectic
6- Corrupt Demiurge
7- Ceremonial Experiment

SERIOUS BLACK

Depois da intensidade do Warout e da atmosfera mais extrema do Dallian, o Milagre Metaleiro mudou de tom sem perder peso: era hora de deixar as melodias falarem mais alto. Às 19h00 em ponto, subiam ao palco os Serious Black, um supergrupo alemão com ex-integrantes experientes de bandas como Helloween, Blind Guardian e Visions of Atlantis. Dito isso, a expectativa era de um concerto espetacular. E realmente foi, talvez para alguns, um dos melhores concertos daquele dia. Os veteranos do power metal melódico trouxeram ao Parque de Lazer das Cruzinhas aquela carga indispensável de melodia, técnica refinada e refrões grandiosos que não permitem que o público fique indiferente, arrancando reações imediatas através de um constante bater de cabeças e pés em movimento.

O conjunto demonstrou um carisma transbordante e uma gratidão genuína por pisar o palco do festival, evidenciando uma paixão contagiante pelo que fazem. Na linha de frente, o vocalista não apenas exibia uma potência vocal imperial, mas também uma presença de palco magnética, dominando a arena ao ponto de colocar todo o recinto a aplaudir em uníssono e a ecoar os refrões de temas iniciais como Akhenaton e Mr. Nightmist. Esse magnetismo não era apenas por parte do vocalista, mas de todos os integrantes que sabiam muito bem como cativar e envolver os presentes, sendo impossível ficar alheio ao que acontecia naquele palco.

O concerto dos Serious Black ficou também marcado por um dos momentos mais emotivos e humanos desta edição do Milagre Metaleiro Open Air. O baixista Mario Lochert, um dos pilares e fundadores da banda, subiu ao palco para tocar em apenas três temas, revelando ao público ter sofrido um ataque cardíaco há poucas semanas e precisava seguir as orientações médicas. O músico, que nas demais músicas iria auxiliar na mesa de som, partilhou também o gesto de solidariedade dos Crematory, que lhe emprestaram o instrumento para que esta atuação fosse possível, demonstrando que a decisão de subir ao palco havia sido espontânea naquele mesmo dia. A resiliência de Lochert foi recebida com uma grande ovação de gritos de “Mario! Mario! Mario!” por parte dos festivaleiros, elevando a comunhão entre o público e a banda a um patamar superior. Sem dúvidas, os momentos mais altos da banda foram as três canções em que Lochert esteve no palco, pois o seu carisma é ímpar. Deixamos aqui os nossos votos de pronta melhora ao baixista para que ele continue nos entregando mais do seu talento e disposição no palco.

Já na segunda metade do concerto, o grande ponto de virada e hino incontestável da tarde pertenceu a Serious Black Magic, composição que levantou por completo o coro da plateia que completava a frase “We’re making serious black…” com gritos de “magic!” em um momento quase a capella que rendeu uma simbiose perfeita entre palco e público. Outro ponto alto foi a belíssima interpretação da balada The Story, já bem conhecida por muitos que cantaram a plenos pulmões. Para concluir, a banda demonstrou uma técnica soberba e puro heavy metal melódico nos títulos Take Your Life e a clássica High and Low, despedindo-se sob aplausos ensurdecedores, deixando fortemente a sua marca no festival.

Serious Black, por @edgar_silva_fotografia
Serious Black, por @edgar_silva_fotografia

SETLIST:
1- Akhenaton
2- Mr. Nightmist
3- Metalized
4- Senso Della Vita
5- Serious Black Magic
6- The Story
7- United
8- Tonight I’m Ready to Fight
9- Last Man Standing
10- Take Your Life
11- High and Low

CREMATORY

Uma das atrações mais aguardadas da noite, os alemães do Crematory, subiram ao palco pontualmente às 20h15, precisamente no momento em que o crepúsculo trazia a moldura ideal para o seu gothic/death metal industrial. O grupo germânico inaugurou as hostilidades com o peso e a atmosfera sombria que se esperavam após a introdução de Destination, que compunha um setlist repleto de clássicos. Um dos primeiros grandes momentos de harmonia mútua deu-se com a obrigatória Ravens Calling, composição que funcionou como um verdadeiro hino, erguendo uma muralha de braços estendidos e vozes em uníssono. Ao contrário das atuações anteriores, o concerto dos Crematory não abriu espaço para os habituais moshpits furiosos, mas sim para uma profunda e atenta admiração por parte do público, que respondia aos estímulos da banda com palmas rítmicas e um constante headbangings.

Ao fim da performance de Born, a banda quebrou momentaneamente a densidade do espetáculo para interagir diretamente com a plateia do Milagre Metaleiro Open Air. Ao questionar quem ali já os tinha visto ao vivo anteriormente, os músicos depararam-se com poucas mãos levantadas na plateia. O cenário motivou uma promessa imediata por parte dos alemães, que garantiram um regresso o mais breve possível a solo português. Essa honestidade e proximidade estreitaram de imediato os laços com um público que aguardava ansiosamente por muito mais já na segunda metade de concerto que seria ainda mais intensa e atmosférica.

O inigualável e sombrio gutural do vocalista Felix Stass parecia romper a escuridão, criando um contraste fascinante com a visível energia do público que cantava e sacudia no embalo ritmico das bateria pesada e do teclado tão intenso de Shadowmaker que elevou a aura de trevas, perfeitamente emoldurada por um desenho de luzes imersivas. A carga emocional subiu ainda mais com a icónica Tears of Time, do álbum Awake de 1997, um clássico absoluto que gerou uma onda de nostalgia coletiva, pondo o recinto a agitar-se freneticamente e motivando um mar de telemóveis erguidos. A canção provou a sua força atemporal ao arrebatar até mesmo os festivaleiros menos devotos ao género gótico, que se confessaram visivelmente emocionados e nostálgicos pelo marco causado por ela na cena do metal de toda uma geração.

E ainda provando que o legado dos Crematory atravessa gerações, o que mais se destacava na pista era a presença de várias crianças, empoleiradas aos ombros dos pais, que cantavam as letras com entusiasmo e participavam ativamente na celebração coletiva, inclusive nas dinâmicas de crowdsurfing onde a diversão se fazia mais evidente. O culminar dessa grande atuação chegava com a explosiva Tick Tack, que funcionou como uma autêntica descarga de adrenalina pura e fez o público entrar em absoluto delírio ao cantar em uníssono, antes do encerramento com Rise and Fall. Os Crematory despediram-se sob uma grande ovação, deixando o Milagre Metaleiro Open Air imerso numa noite gótica inesquecível.

Crematory, por @photo_rev1
Crematory, por @photo_rev1

SETLIST:
1- Destination
2- Höllenbrand
3- Ravens Calling
4- Born
5- Shadowmaker
6- Tears of Time
7- The Future is a Lonely Place
8- Blind
9- Tick Tack
10- Rise and Fall

SAUROM

O folk voltou ao festival pelas mãos dos espanhóis Saurom, que, já com a noite instalada, trouxeram consigo uma energia festiva e contagiante, sucedendo ao universo mais gótico de Crematory. Com uma abordagem assente no heavy/folk metal, a banda revelou desde os primeiros instantes uma enorme versatilidade, muito graças à conjugação de vocais masculinos e femininos e a melodias que rapidamente se apoderaram do recinto. O tema de abertura foi, desde logo, um claro aviso do que aí vinha: ritmos alegres, refrões envolventes e uma atmosfera que tornava praticamente impossível ficar indiferente.

Essa envolvência não se ficou, contudo, pela música. Todo o cenário foi pensado para nos transportar ainda mais para o universo de Saurom, desde o guarda-roupa da banda ao fundo de palco, que foi variando ao longo da atuação e contribuindo para uma experiência visual tão cuidada quanto a componente sonora. Também as melodias de teclado assumiram um papel de destaque, funcionando muito mais do que como simples adornos. A sua presença revelou-se estrutural em vários dos temas e conferiu à banda uma identidade muito própria, algo que ficou particularmente evidente ao vivo.

Do outro lado da barricada, o público respondeu à altura. Extremamente energético e recetivo, acompanhou as melodias festivas de Saurom ao longo de todo o concerto, cantando, saltando e deixando-se levar pelo espírito celebratório da banda. E, se ainda restassem alguns resistentes por conquistar, bastou um hino que em Portugal facilmente associamos aos estádios de futebol – o histórico “Olé, olé, olé, olé” – para colocar o recinto inteiro a berrar em uníssono. A partir daí, já não havia dúvidas: Saurom tinha o público completamente na mão.

Quando chegou o momento do último tema, a ligação entre banda e público estava mais do que consolidada. Ao som das últimas notas, um verdadeiro mar de aplausos acompanhou Saurom na despedida, num reconhecimento claro de uma atuação que conseguiu trazer uma dose generosa de festa e cor a uma noite dominada pelo metal. Entre melodias contagiantes, uma forte componente visual e uma plateia completamente rendida, os espanhóis deixaram uma marca bem vincada neste segundo dia de festival.

Saurom, por @madness_by_nuno_reis
Saurom, por @madness_by_nuno_reis

SETLIST:
1- El pájaro fantasma
2- Irae Dei
3- No seré yo
4- Reina de mis sueños
5- La batalla con los cueros de vino
6- Baobabs
7- El mordisco de la serpiente
8- El carnaval del diablo
9- El círculo juglar
10- Fuego
11- La taberna

DESTRUCTION

Se Saurom tinha trazido uma energia festiva ao recinto, Destruction chegaram para levar essa energia ao limite. Como headliners do segundo dia, os alemães tinham sobre os ombros a responsabilidade de protagonizar um dos grandes momentos do festival, e perante o que se viu em palco, a verdade é que estiveram mais do que à altura do desafio. O thrash metal old school dos germânicos surgiu em toda a sua crueza, velocidade e pujança, mergulhando o recinto numa descarga de adrenalina que atingiu, muito provavelmente, o ponto mais alto de todo o festival até então. Desde Curse the Gods, que abriu as hostilidades, até Destruction, que encerrou uma setlist, a banda apresentou uma atuação absolutamente demolidora, construída à base de riffs pesados e marcantes, músicas rápidas e uma secção rítmica irrepreensível. Não houve tempo para respirar, nem tão-pouco necessidade de o público pedir mais: Destruction estava ali para entregar thrash metal no seu estado mais puro, e foi precisamente isso que fez.

A nível vocal, Schmier esteve simplesmente irrepreensível. Os seus vocais rasgados oscilaram entre registos mais graves e agudos particularmente exigentes, mostrando que, mesmo depois de tantos anos de estrada, continua a possuir uma voz perfeitamente capaz de acompanhar a brutalidade dos temas. E há que destacar especialmente os agudos: não são apenas uma característica da sonoridade da banda, mas uma daquelas marcas vocais que imediatamente nos remetem para um dos grandes nomes da história metal. Tudo isto encaixou na perfeição com uma setlist que percorreu várias fases da já longa carreira dos alemães. Temas como Nailed to the Cross, No Kings No Masters e The Ritual foram algumas das paragens de uma viagem que mostrou diferentes rostos de Destruction, desde a vertente mais rápida e brutal a momentos onde a componente melódica assumiu maior protagonismo. E pouco importou a fase ou o tema: tudo foi recebido com uma euforia gigantesca por parte de um público completamente rendido.

Se há algo que não faltou durante o concerto foram circle pits, que uns atrás dos outros foram surgindo no meio do público, numa demonstração física da intensidade que se vivia diante do palco. Mas, numa atuação marcada por tamanha crueza e brutalidade, houve também espaço para momentos de interação entre banda e público. Não através de longos discursos, e, honestamente, também não eram necessários, mas através de pequenos gestos, olhares, movimentos e incentivos que iam reforçando a ligação entre os músicos e quem estava do outro lado da barricada. A verdade é que o público pouco precisava de ser puxado: estava completamente entregue desde os primeiros minutos. Ainda assim, Destruction fez questão de retribuir toda essa energia, respondendo ao entusiasmo da plateia não apenas através da música, mas também através desses pequenos momentos que tornam um concerto mais próximo e íntimo. Era uma troca constante: a banda dava, o público devolvia, e o resultado era uma atmosfera cada vez mais elétrica. E, numa noite em que o recinto já tinha recebido diferentes propostas dentro do metal, os alemães conseguiram criar uma identidade própria e elevar a intensidade a um patamar completamente diferente.

E se houve um momento em que essa união atingiu uma dimensão particularmente forte, foi em No Kings No Masters. O tema, apresentado como uma mensagem de revolta e união dirigida aos políticos, tanto na Alemanha como em Portugal, ganhou no recinto uma força especial. Rápido, cru e brutal, foi daqueles temas que simplesmente não permitem ficar parado, muito menos pensar em respirar. Mas foi o refrão que acabou por transformar a música num dos grandes momentos da noite. Quem ainda não o conhecia dificilmente conseguiu escapar-lhe: à segunda passagem, já o público o entoava em uníssono, porque há refrões que simplesmente se aprendem sem esforço. E foi precisamente esse espírito de união, acompanhado por uma descarga de thrash metal sem concessões, que definiu uma atuação que passou ainda por Total Desaster, Thrash ‘Til Death e, finalmente, pelo tema homónimo Destruction. Quando as últimas notas soaram, os alemães tinham deixado bem vincada a sua passagem pelo festival. Não precisaram de ser a última banda do dia para protagonizar um dos seus grandes momentos: Destruction entregou uma atuação intensa, violenta, tecnicamente sólida e absolutamente contagiante, confirmando em palco, perante um público completamente rendido, porque continua a ser um dos nomes fundamentais do thrash metal europeu.

Destruction, por @edgar_silva_fotografia
Destruction, por @edgar_silva_fotografia

SETLIST:
1- Curse the Gods
2- Death Trap
3- Nailed to the Cross
4- Scumbag Human Race
5- Mad Butcher
6- Diabolical
7- No Kings No Masters
8- The Butcher Strikes BacK
9- Eternal Ban
10- The Ritual
11- Bestial Invasion
12- Total Desaster
13- Thrash ‘Til Death
14- Destruction

ERZSÉBET

Mesmo com a hora já avançada da noite e com a responsabilidade de serem a última banda do segundo dia, Erzsébet conseguiram reunir um público muito cheio e envolvido diante do palco. A banda espanhola apresentou uma proposta de Symphonic Black Metal profundamente marcada pela componente visual, teatral e chocante, construindo uma experiência que ia muito além da música. Tudo parece cuidadosamente pensado e executado: da sonoridade à imagem, passando pela encenação e pela própria postura em palco, cada elemento contribui para uma identidade extremamente vincada. O resultado é uma proposta verdadeiramente distintiva e muito bem construída, colocando Erzsébet num patamar altíssimo e, arriscamos dizer, entre o que de mais interessante e completo se faz atualmente dentro do metal extremo na Península Ibérica.

Vocalmente, a atuação foi irrepreensível e é difícil apontar apenas um ponto forte na prestação da vocalista. Os vocais rasgados e agudos eram assustadoramente penetrantes, enquanto os registos mais graves surgiam extremamente coesos e carregados de peso. A isto juntavam-se as spoken words, verdadeiramente aterrorizantes, que acrescentavam uma dimensão quase ritualística à atuação. Também instrumentalmente, todos os elementos tiveram espaço para se destacar: das melodias firmes e marcantes das cordas ao pulsar constante do baixo, passando por uma bateria sólida e precisa, tudo se conjugou para criar uma parede sonora negra, densa e envolvente. Temas como Daughters of Zèmans, Wraiths Behind the Mirror, Mater Ignota e Lunar Liturgy mostraram precisamente essa capacidade de equilibrar peso, sinfonia e melodia sem que nenhum dos elementos perdesse importância.

Mas era impossível falar de Erzsébet sem destacar a componente visual (como já foi mencionado), que assumiu um papel praticamente tão importante como a própria música. No início do concerto, as roupas vitorianas e extremamente negras dos elementos da banda, conjugadas com a escuridão da noite, criavam desde logo um ambiente carregado e desconfortável. Mais tarde, a vocalista surgiu com um longo manto branco, numa transformação que parecia sugerir uma espécie de possessão ou metamorfose, antes de voltar a surgir num terceiro visual, desta vez com um vestido preto. Cada mudança parecia acompanhar a própria narrativa da atuação, enquanto os seus movimentos corporais, os gestos particularmente expressivos das mãos e as expressões faciais macabras tornavam a personagem ainda mais credível e perturbadora. Não era simplesmente uma banda a tocar em palco: havia uma verdadeira interpretação em curso, uma performance pensada para envolver todos os sentidos.

E talvez tenha sido precisamente essa capacidade de juntar música, teatralidade, imagem e interpretação que tornou a prestação tão especial. Quando The Blasphemous Lady colocou um ponto final no concerto, estavam reunidas todas as condições para um encerramento digno do segundo dia: sombrio, teatral, intenso e absolutamente memorável. Erzsébet não se limitaram a tocar, mas criaram a experiência completa e deixaram no palco uma das imagens mais fortes de toda a noite.

Erzsébet, por @photo_rev1
Erzsébet, por @photo_rev1

SETLIST:
1- The Cage, The Torch…
2- Daughters of Zèmans
3- Wraiths Behind the Mirror
4- Mater Ignota
5- Lunar Liturgy
6- Redemption of Evil + The Chest
7- Somewhere in Csejte
8- Darvulia’s Eye
9- Wherefore
10- Spectral Cortège + Domina Vestra
11- Erzsébet
12- Crystaline Sparkles on Bluish Skin
13- The Blasphemous Lady

O segundo dia do festival confirmou, uma vez mais, a enorme diversidade do cartaz e a capacidade de cruzar diferentes vertentes do metal sem nunca perder coerência. De Warout e Dallian, que deram início às hostilidades, passando pelo power metal de Serious Black, pela atmosfera gótica de Crematory e pela energia festiva de Saurom, até à descarga de thrash metal de Destruction e ao universo sombrio e teatral de Erzsébet, houve espaço para diferentes sensibilidades e abordagens ao género.

Público, por @photo_rev1
Público, por @photo_rev1

Foi um dia marcado por constantes mudanças de ambiente, intensidade e sonoridade, mantendo o público envolvido desde as primeiras atuações até às horas mais tardias da noite. Com atuações particularmente fortes nas posições de maior destaque, o segundo dia deixou uma fasquia elevada para o que ainda estaria por vir, reforçando a sensação de que este festival tinha ainda muito para oferecer.

Agradecimentos finais ao Caminhos Metálicos e ao Milagre Metaleiro pela cedência das fotografias.