No passado fim de semana, entre os dias 21 e 23 de agosto, decorreu a XVII edição do icónico MILAGRE METALEIRO OPEN AIR. Como já é habitual, milhares de metaleiros rumaram à pacata aldeia de Pindelo dos Milagres para celebrar o metal, a união e, acima de tudo, a diversão, e, mais uma vez, o festival superou as expectativas. Com uma nova localização, no Parque de Lazer das Cruzinhas, que tudo indica reunir as condições para se tornar a casa definitiva do festival, viveram-se três dias inesquecíveis, num ambiente de verdadeira comunhão entre público, bandas, organização e voluntários.

A décima sétima edição do Milagre Metaleiro Open Air voltou a conquistar todos os presentes, com um cartaz de luxo, super variado e todas as condições necessárias para só termos uma tarefa: divertir-nos! Com 21 bandas distribuídas por três dias e um cartaz brilhante encabeçado por nomes como Paradise Lost, Destruction e Insomnium, acompanhados por grandes nomes como Belphegor, Blaze Bayley, Crematory, The Haunted, e muitos mais, o Milagre Metaleiro voltou a afirmar Pindelo dos Milagres como a verdadeira aldeia do metal !
A verdade é que o festival começou muito antes do primeiro dia oficial. Logo a 19 de agosto, muitos festivaleiros começaram a chegar à zona de campismo, montando tendas e preparando aquela que seria a sua casa durante os dias seguintes. E rapidamente se percebeu que o espírito do Milagre Metaleiro já estava bem presente: entre reencontros, novas amizades e muitas histórias partilhadas, o ambiente no campismo era de pura comunhão, ainda antes de as primeiras bandas subirem ao palco. Já no chamado Dia 0, houve ainda direito a uma calorosa receção no campismo, conduzida pelo DJ Rocha “The Rock”, que ajudou a aquecer os motores e a criar o ambiente perfeito para aquilo que aí vinha.
Quando finalmente chegou o primeiro dia de festival, tínhamos diante de nós um alinhamento capaz de percorrer vários dos territórios da música extrema. Do black metal ao power metal, passando pelo melodic death metal e pelo gothic metal, havia propostas para todos os gostos e, sobretudo, nomes de grande peso preparados para tomar conta do palco. Com um cartaz desta dimensão, a expectativa era naturalmente elevada, e a ansiedade para que as primeiras notas ecoassem pelo recinto era já mais do que muita.
GNOSIS
Abrir um festival desta dimensão é, por si só, uma responsabilidade enorme. Mas, para os Gnosis, essa parece ter sido uma tarefa simples. Perante um público que começava ainda a ocupar o recinto, coube à banda de Setúbal a difícil missão de dar o pontapé de saída no XVII Milagre Metaleiro e estabelecer, desde os primeiros minutos, o ambiente para os três dias que se seguiriam. Em Pindelo dos Milagres, os Gnosis trouxeram consigo o universo de WITHIN//WITHOUT, o seu álbum de estreia, lançado em fevereiro deste ano, e deram início à edição de 2026 com uma verdadeira imersão na sua sonoridade negra e pesada, e criaram o primeiro grande momento de todo o festival.
A proposta da banda assenta numa combinação particularmente interessante entre a crueza e a escuridão do black metal e a rebeldia do metalcore, mas sem que estas duas vertentes pareçam viver em conflito. Pelo contrário, os Gnosis conseguem fazê-las coexistir de forma bastante natural, alternando entre momentos atmosféricos e contemplativos e explosões de peso, com riffs densos, vocais rasgados que transpiram desespero e dor, melodias melancólicas, spoken words, e mudanças de intensidade que dão à música uma dimensão quase cinematográfica. WITHIN//WITHOUT é, aliás, construído precisamente sobre este contraste: várias das suas composições começam de forma contida e atmosférica antes de crescerem progressivamente até desembocarem em momentos de grande intensidade.
Mas os Gnosis não se distinguem apenas pelo som. A componente visual é uma extensão perfeita da música: robes negros, maquilhagem sinistra e uma presença cénica deliberadamente ameaçadora ajudam a construir uma imagem quase ritualística e tornam a experiência ainda mais imersiva. Quem já teve oportunidade de os ver ao vivo destaca precisamente a teatralidade e o dramatismo da presença em palco, sem que estes elementos caiam no exagero ou no cliché.
Em Pindelo dos Milagres, porém, houve um pequeno “inimigo” a combater: a luz do dia. Uma atuação desta natureza parece pedir sombras, escuridão e um palco mergulhado numa atmosfera mais negra, condições estas que certamente teriam tornado a prestação dos Gnosis ainda mais assombrosa. Mas nada os condicionou ! O resultado foi, sem dúvidas, uma atuação intensa, pesada e visualmente marcante, deixando desde logo bem claro (se é que ainda não estava) que os Gnosis são uma banda a ter debaixo de olho.

SETLIST:
1- E se mais mundo houvera…
2- Stareater
3- Noite
4- Demiurge
5- Lighbringer
6- Ode to the Void
DEATH & LEGACY
Depois de uma abertura tão negra e atmosférica protagonizada pelos portugueses Gnosis, era altura de os espanhóis Death & Legacy tomarem conta do palco. Vindos de Zamora, Castela e León, o quinteto trouxe consigo a sua mistura de Heavy e Melodic Death Metal, uma combinação onde riffs pesados e orelhudos e melodias de inspiração clássica convivem com uma vertente mais extrema. A sonoridade dos Death & Legacy levou-nos por universos que fazem lembrar Arch Enemy, sobretudo pela combinação entre melodia e agressividade, mas também por passagens que nos remetem para Trivium e Metallica. Uma mistura que resulta de forma bastante natural e que acaba por ser uma das bases da identidade da banda.
No centro de tudo esteve Hynphernia, uma vocalista absolutamente impossível de ignorar. Carismática e dona de uma presença de palco marcante, impressionou sobretudo pela potência dos seus vocais e por um alcance verdadeiramente notável, alternando entre momentos de enorme agressividade e rasgados de uma intensidade impressionante. Ao seu lado, Jesús e Manu mostraram-se igualmente dominantes, irrepreensíveis no domínio das cordas e responsáveis pelas melodias que rapidamente se instalaram nos nossos ouvidos. Na secção rítmica, Carlos foi a sólida base sobre a qual tudo assentou, acompanhado pelo baixo de Hugo Rodríguez, responsável por dar corpo e pulsação aos temas. Os cinco elementos pareceram tocar como um só, com uma união e coordenação que transmitiam a sensação de uma banda com muitos mais anos de estrada juntos.
O concerto teve ainda o interesse de apresentar não só alguns dos temas mais conhecidos da banda, mas também material mais recente, incluindo Infernal Tragedy, single lançado já em 2026. A nova música, de ambiente mais sombrio e uma secção melódica incrível, encaixou perfeitamente ao vivo, ao lado de temas que já se tornaram hinos da banda.
Apesar das pausas para comunicar com o público não terem sido muitas, não houve qualquer sensação de frieza. Muito pelo contrário: a minha leitura foi a de uma banda completamente absorvida pelo próprio concerto, deixando que fosse a música a falar por si. E funcionou na perfeição. Com uma sonoridade pesada, melódica e agressiva, uma vocalista super carismática e uma energia constante em palco, os Death & Legacy entregaram uma atuação extremamente sólida e convincente, deixando uma grande marca e provando que eram muito mais do que apenas a banda que se seguia no alinhamento.

SETLIST:
1- Pray
2- Dying Life
3 – Start to Fall
4- Salvation
5- I Am Pain
6- Infernal Tragedy
8- Damned
9- The Devourer of Light
10 – Hellfire
GWYDION
Depois dos Death & Legacy, chegou a vez de uma das bandas mais importantes e incontornáveis do metal nacional subir ao palco: os lisboetas Gwydion. Com uma longa história e um papel de enorme relevância na afirmação do folk/viking metal português, a responsabilidade de escrever sobre uma atuação desta dimensão é naturalmente grande. Em Pindelo dos Milagres, a banda entregou uma generosa dose de espírito viking, transportando para o recinto todo o imaginário nórdico que, há décadas, é uma das marcas mais fortes da identidade dos Gwydion.
E foi precisamente essa identidade que esteve em grande destaque. Quem já conhecia os Gwydion fez questão de estar presente, mas quem ainda não os conhecia dificilmente terá ficado indiferente. Há festa, há alegria, há melodias folk e viking absolutamente únicas e, acima de tudo, há hinos que parecem feitos para serem cantados em uníssono. A música dos Gwydion tem essa capacidade rara de transformar um concerto numa verdadeira celebração coletiva, onde o público rapidamente deixa de ser apenas espectador para passar a fazer parte do espetáculo. É o verdadeiro espírito viking levado para o palco e para o público.
Com uma carreira tão longa e um catálogo tão rico, escolher um alinhamento capaz de fazer justiça aos Gwydion nunca será uma tarefa fácil. Ainda assim, a setlist esteve claramente à altura das expectativas, percorrendo alguns dos temas mais emblemáticos da carreira dos Gwydion, desde os mais antigos aos mais recentes, desde os mais festivos até aos mais “sérios”. Desde o incontornável From Hell to Asgard, passando por Thirteen Days, Fara i Viking e The Bards, até ao inevitável Brewed to Taste Like Glory, houve espaço para vários dos grandes hinos da banda e para momentos que rapidamente colocaram o público a cantar em uníssono.
No final deste concerto, houve uma coisa que ficou clara para todos: tínhamos acabado de assistir a uma das atuações mais marcantes deste primeiro dia. Os Gwydion não se limitaram a tocar, mas criaram todo um ambiente indescritível, envolveram o público e transformaram o recinto numa verdadeira celebração do folk metal. Com tantos anos de história, continuam a demonstrar uma identidade muito própria e uma capacidade impressionante de transformar as suas músicas em momentos de festa, união e comunhão. Foi uma atuação à altura do grande nome dos Gwydion e uma enorme demonstração de força do metal português, daquelas que nos fazem perceber porque é que certas bandas se tornam verdadeiramente icónicas.

SETLIST:
1- From Hell To Asgard
2- Hostille Alliance
3- Thirteen Days
4- Cad Goddeu
5- Eldric Stormbringer
6- Fara I Viking
7- The Bards
8- Mead Of Poetry
9- Strenght Remains
10- Brewed To Taste
ENFORCER
Depois dos Gwydion, era altura de mudar de registo e mergulhar de cabeça no Heavy/Speed Metal com os suecos Enforcer. Apesar de serem uma banda relativamente recente, a sua música e, sobretudo, a sua imagem parecem ter sido resgatadas diretamente da década de 1980. Riffs velozes, solos incendiários, couro, atitude e uma energia contagiante: os Enforcer não se limitam a tocar Heavy Metal, vivem-no em cada detalhe da sua presença em palco, e sentem-no genuinamente.
E energia foi precisamente aquilo que não faltou. Desde os primeiros minutos, a banda sueca mostrou uma entrega impressionante, com uma performance frenética e sem quaisquer momentos mortos. Entre temas como Midnight Vice e From Beyond, houve espaço para tudo aquilo que se espera de uma verdadeira celebração do Heavy Metal clássico: riffs rápidos, refrões orelhudos, solos de guitarra de cortar a respiração e uma atitude que nunca deixou o público esquecer que estava perante uma banda profundamente apaixonada pelo género.
From Beyond foi, aliás, um dos grandes destaques da atuação. Tecnicamente irrepreensível, o tema permitiu aos Enforcer mostrar uma faceta particularmente virtuosa, com solos de guitarra impressionantes e passagens que pareciam nascer espontaneamente em palco. Havia momentos em que a fronteira entre o que estava escrito e o puro improviso parecia desaparecer, numa demonstração de que técnica e espontaneidade podem perfeitamente andar de mãos dadas. Alma e qualidade técnica? Nos Enforcer, temos as duas com fartura.
Num mundo em que tantas vezes parece existir uma tendência para olhar para as raízes do metal como algo ultrapassado, os Enforcer vieram provar exatamente o contrário: o Heavy Metal old school está vivo, e está muito bem vivo. Ao longo do concerto, houve ainda espaço para momentos mais melódicos, como a balada Nostalgia, mostrando que a banda sabe explorar diferentes facetas dentro da sua sonoridade sem nunca perder a sua identidade. E, na despedida, fizeram-no à boa maneira Heavy Metal, com o clássico grito digno do estilo e um mar de aplausos a acompanhar a sua saída gloriosa.

THE HAUNTED
Com a noite já instalada sobre Pindelo dos Milagres, era a hora de um dos maiores nomes deste primeiro dia dominar o palco: The Haunted. A histórica banda sueca, formada em Gotemburgo em 1996, trouxe ao Milagre Metaleiro a sua característica fusão de Melodic Death, Thrash e Groove Metal, numa atuação que encontrou na escuridão da noite o cenário perfeito. Desde os primeiros acordes de Warhead, tornou-se evidente que estávamos perante uma descarga de energia visceral, marcada pela agressividade, pela rebeldia e por uma intensidade que se manteve praticamente inalterada ao longo de todo o concerto.
E se a noite começava a ficar fresca, ninguém pareceu dar por isso. As chamas que irromperam no palco ajudaram a aquecer ainda mais um público que já estava completamente rendido, enquanto os riffs pesados e marcantes dos The Haunted faziam do headbanging, do circle pit e do crowdsurfing uma consequência inevitável. A banda mostrou-se extremamente coesa e, do ponto de vista sonoro, tudo pareceu estar no sítio certo: as guitarras, responsáveis pelas melodias e por alguns dos riffs mais reconhecíveis da banda, ouviam-se com enorme clareza, enquanto a bateria e toda a secção rítmica conduziam os temas com uma precisão irrepreensível. E por cima de tudo isto, os vocais de Marco Aro acrescentavam a dose certa de agressividade e irreverência.
Ao longo do set, os The Haunted foram navegando entre diferentes momentos da sua carreira, alternando temas mais recentes com alguns dos grandes clássicos do seu catálogo. 99, The Medication, D.O.A., All Against All e Hate Song, entre muitos outros, foram recebidos com enorme entusiasmo, mostrando que havia naquele recinto muita gente que acompanha a banda há muitos anos, mas também uma nova geração preparada para abraçar o seu legado. Esse contraste entre diferentes fases da carreira funcionou particularmente bem, mantendo o concerto sempre envolvente e demonstrando a consistência de uma banda que continua a saber exatamente aquilo que quer fazer.
Um dos momentos mais interessantes surgiu com To Bleed Out, que poderia inicialmente parecer um abrandamento na intensidade do concerto, mas apenas em termos de velocidade pois agressividade continuava presente, simplesmente assumindo uma forma mais lenta e pesada, quase como uma pausa para respirar antes de voltar a acelerar. E quando o ritmo voltou a disparar, ficou imediatamente claro que o público estava sedento por mais: o circle pit abriu-se praticamente de imediato e, a partir daí, deixou de haver espaço para descanso.
Quando o concerto chegou ao fim, e após muito suor derramado, ficou claro que os The Haunted continuam a ser uma máquina de palco. Entre riffs demolidores, uma secção rítmica irrepreensível, vocais agressivos e uma energia contagiante, a banda sueca entregou uma atuação à altura do seu estatuto. Mais do que revisitar uma carreira com quase três décadas, os The Haunted mostraram que continuam perfeitamente capazes de fazer um recinto inteiro perder a cabeça. Foi uma verdadeira tempestade de Thrash, Death e Groove Metal, e uma das grandes atuações deste primeiro dia de Milagre Metaleiro.

SETLIST:
1- Warhead
2- In Fire Reborn
3- 99
4- Trespass
5- The Flood
6- The Medication
7- D.O.A.
8- To Bleed Out
9- No Compromise
10- All Against All
11- In Vein
12- Death to the Crown
13- Hollow Ground
14- Dark Intentions
15- Bury Your Dead
16- Hate Song
PARADISE LOST
E com a noite já completamente instalada e a temperatura a descer, chegou finalmente o momento de um dos maiores nomes desta edição (se não mesmo o maior) subir ao palco. Os britânicos Paradise Lost, gigantes do Doom/Death e Gothic Metal, tinham sido um dos primeiros nomes anunciados para o Milagre Metaleiro 2026 e a expectativa era enorme. E o público respondeu à altura: o recinto encheu mais do que nunca, numa demonstração clara da dimensão e do peso que esta banda tem dentro do metal mundial. A noite era deles!
Desde os primeiros acordes de Serpent on the Cross, tema que abre o mais recente Ascension, tornou-se evidente que a escolha para iniciar o concerto não podia ter sido melhor. A atmosfera densa, sombria e melancólica do tema encaixou na perfeição na noite fria de Pindelo dos Milagres, funcionando como uma verdadeira porta de entrada para o universo dos Paradise Lost. A partir daí, o concerto foi construindo uma atmosfera quase hipnótica, assente na combinação entre peso, melodia, melancolia e escuridão que há décadas define a identidade da banda. Não era apenas o som que preenchia o recinto: era toda a atmosfera criada em palco.
Ao longo da atuação, os Paradise Lost mostraram precisamente porque continuam a ser uma referência incontornável dentro do Doom/Death e Gothic Metal. As guitarras foram absolutamente fundamentais, alternando entre riffs pesados e melodias profundas e carregadas de emoção, enquanto a secção rítmica dava corpo e consistência a cada passagem. A banda conseguiu explorar diferentes intensidades sem nunca perder o fio condutor do concerto, passando de momentos mais pesados e agressivos para outros onde a melancolia e a componente gótica assumiam o protagonismo. Tudo pareceu ter o peso certo, no momento certo.
E se instrumentalmente a prestação foi de enorme qualidade, vocalmente não ficou atrás. Nick Holmes, verdadeiro ícone do metal mundial e voz dos Paradise Lost desde a fundação da banda, mostrou uma vez mais porque é uma das figuras que melhor personifica a identidade do grupo. Percorrendo com enorme segurança os diferentes registos que a música dos Paradise Lost exige, Holmes trouxe à atuação não só a experiência de décadas de carreira, mas também aquela personalidade vocal que se tornou indissociável do som da banda. O mais impressionante, porém, foi a forma como todos estes elementos funcionaram em conjunto: não estávamos simplesmente perante músicos experientes a tocar músicas, mas perante uma banda completamente consciente do ambiente que queria criar. A experiência estava lá, mas nunca à custa da emoção, da intensidade ou da espontaneidade.
Há também algo particularmente difícil de conseguir quando se fala de uma banda com uma carreira tão longa: continuar a soar relevante sem perder aquilo que a tornou especial. Os Paradise Lost conseguiram fazê-lo de forma absolutamente convincente. O seu som pode ter atravessado diferentes fases ao longo dos anos, mas continua a existir uma identidade perfeitamente reconhecível, aquela capacidade de transformar riffs em atmosferas, peso em melancolia e escuridão em algo belo. Em Pindelo dos Milagres, essa identidade esteve presente do primeiro ao último momento.
No final, ficou muito pouco por dizer: os Paradise Lost foram gigantes! Subiram ao palco como headliners e saíram dele com a dimensão de uma verdadeira lenda do metal, oferecendo uma atuação segura, poderosa, atmosférica e tecnicamente irrepreensível. Num recinto cheio, perante milhares de fãs que esperavam há muito por este momento, os britânicos fizeram aquilo que as grandes bandas sabem fazer: não precisaram de provar nada a ninguém, bastou-lhes tocar e tocar na alma do público. E quando uma banda consegue criar uma atmosfera daquela dimensão e manter um recinto inteiro completamente rendido, percebe-se que estamos perante algo especial. Uma atuação monumental e, sem qualquer dúvida, um dos grandes momentos de toda a história do Milagre Metaleiro.

SETLIST:
1- Serpent on the Cross
2- One Second
3- The Last Time
4- Faith Divides Us Death Unites Us
5- The Enemy
6- As I Die
7- Salvation
8- Requiem
9- Say Just Words
10- Hallowed Land
11- Tyrants Serenade
12- Smalltown Boy
13- Embers Fire
14- Ghosts
15- Silence Like the Grave
ETHEREAL
Para fechar o primeiro dia, já depois da enorme atuação dos Paradise Lost, os Ethereal tinham pela frente uma missão particularmente difícil: manter o público no recinto depois de o grande nome da noite já ter passado pelo palco. E, se para alguns a tentação de ir descansar já começava a surgir, a introdução grandiosa e cuidadosamente construída dos Ethereal tratou rapidamente de a dissipar. Desde os primeiros segundos, aquela atmosfera cinematográfica prendeu a atenção de todos e funcionou como o primeiro capítulo de uma viagem pelo universo da banda. Ficou imediatamente claro que os Ethereal não estavam ali apenas para encerrar o dia: estavam ali para nos conquistar.
Musicalmente, o grupo vindo de Setúbal navega entre universos onde o Melodic Heavy Metal e Gótico se cruzam e complementam. Em palco, os dois vocalistas criaram uma combinação particularmente interessante. De um lado, a voz masculina, de timbre poderoso e carregado, que em determinados momentos fez lembrar Jørn Lande ou até mesmo o icónico Blaze Bayley. Do outro, a voz feminina, de natureza operática, que acrescentava uma dimensão mais dramática e etérea à sonoridade. Este contraste vocal funcionou particularmente bem, criando uma espécie de diálogo entre força e delicadeza que encaixou na perfeição nas atmosferas densas e progressivas da banda.
A viagem passou por Our Dying Hope, The Allure of Daryah, Turmoil e Darkest Room, antes de avançar para Transcendence Envenomed e The Last Peaceful Journey. Ao longo de toda a atuação, os Ethereal foram construindo uma sonoridade pesada mas simultaneamente melódica, onde as guitarras assumiam um papel central na criação das diferentes camadas que compunham cada tema, mas os teclados acrescentavam uma camada única e profundamente atmosférica a cada tema, conferindo-lhes uma identidade muito própria e tornando-os verdadeiramente distintos. Não era uma música feita apenas para ouvir: havia toda uma atmosfera para absorver, algo particularmente adequado para encerrar um dia tão longo e intenso.
E assim, com Betrayal, uma faixa com uma dose extra de teatralidade, chegou ao fim o primeiro dia do Milagre Metaleiro. Depois de uma sucessão de bandas tão distintas, os Ethereal conseguiram fechar a noite com uma proposta diferente, mais contemplativa e teatral, deixando no ar aquela sensação de que a viagem ainda não tinha terminado. Uma excelente forma de fechar o Dia 1: depois de tantas horas de peso, velocidade e intensidade, os Ethereal ofereceram-nos uma última imersão na escuridão antes de deixar o palco.

SETLIST:
1- Our Dying Hope
2- The Allure of Daryah
3- Turmoil
4- The Darkest Room
5- Transcendence Envenomed
6- The Last Peaceful Journey
7- Betrayal
E assim chegava ao fim o primeiro dia do Milagre Metaleiro Open Air 2026, depois de uma verdadeira viagem por diferentes universos do metal: do black/metalcore dos Gnosis, ao heavy/melodic death de Death & Legacy, ao folk/viking dos Gwydion, passando pelo Heavy/Speed dos Enforcer, pela intensidade cheia de groove dos The Haunted e, claro, pela atmosfera sombria dos Paradise Lost e dos Ethereal. Uma diversidade estilística que funcionou na perfeição, e que já se tornou imagem de marca do festival, sempre acompanhada por um ambiente de enorme comunhão entre público e bandas.
Dois aspetos merecem um destaque especial neste primeiro dia: a pontualidade absolutamente exemplar das atuações e a qualidade do som. Com apenas um palco, seria fácil imaginar alguns atrasos, mas a verdade é que o horário foi cumprido com uma precisão impressionante, permitindo que o festival fluísse de forma extremamente natural. E, se a pontualidade merece elogios, o som merece ainda mais: banda após banda, o equilíbrio foi muito bom entre as vozes e os vários instrumentos, sem que o volume ou a intensidade prejudicassem a clareza. Num festival desta dimensão, conseguir manter este nível de qualidade sonora ao longo de todo o dia é um feito que não pode passar despercebido.

Por fim, para quem ainda tinha forças, a noite continuava ao som do DJ set de Chaotic Therapy. Para os restantes, era altura de regressar ao campismo e repor energias. Afinal, ainda havia muito Milagre Metaleiro pela frente.
Agradecimentos finais ao Caminhos Metálicos e ao Milagre Metaleiro pela cedência das fotografias.

