Por Sérgio “Murray” Martins

Nota: 08.5/10.0

A SINDROME K chega a “Jogo Sujo” mostrando que a reformulação iniciada nos últimos anos não significou apenas uma troca de integrantes, mas também uma oportunidade para ampliar as possibilidades de seu Thrash Metal. Formada atualmente por Lula Souto (vocais e baixo), Miguel Matos (guitarra) e Márcio Dantas (bateria), a banda baiana mantém a agressividade que acompanha sua trajetória, mas acrescenta ao single uma abordagem mais moderna e cadenciada. A escolha de cantar em português, uma característica defendida por Lula desde os primeiros trabalhos, continua funcionando muito bem: em entrevista à Chaoszine, o músico explicou que a intenção era tornar a mensagem mais direta e aproximar o Metal de um público maior.

“Jogo Sujo” começa a ganhar força justamente quando se percebe que a SINDROME K não está interessada em simplesmente repetir fórmulas já utilizadas em “Aqui Se Paga” e “Sobreviventes do Mal”. Miguel Matos assume a guitarra com riffs encorpados, enquanto Márcio Dantas demonstra precisão na condução da bateria, alternando a pegada mais veloz do Thrash com momentos de maior cadência. É uma combinação que deixa a faixa pesada sem torná-la hermética. A própria banda destaca que esta é a primeira vez que utiliza uma guitarra de sete cordas, recurso empregado para acrescentar peso à sonoridade. Dantas, que entrou oficialmente no grupo em 2024, já havia definido a SINDROME K como uma banda “muito técnica, com músicas bem criadas e executadas tecnicamente”, e “Jogo Sujo” oferece bons argumentos musicais para essa descrição.

A temática também merece atenção. Em vez de recorrer a uma narrativa distante, a letra nasce de situações bastante reconhecíveis: falsidade, relações tóxicas, gente que oferece amizade enquanto age nos bastidores para prejudicar o outro e aquela velha prática de transformar parceria em interesse. A própria banda resume a inspiração em situações nas quais pessoas próximas “fingem amizade enquanto sugam nossa energia” e fazem acordos já planejando agir de maneira desleal. O resultado é uma composição direta, com refrão fácil de assimilar e versos que preservam a contundência característica do grupo. Mais interessante ainda é perceber que a opção pelo português, tão importante na identidade da SINDROME K desde o início, não funciona aqui apenas como recurso de comunicação: ela dá à faixa um caráter bastante cotidiano, quase de conversa de rua, sem diminuir sua força metálica.

O grande diferencial aparece na participação de Caio MacBeserra, do Project46. Sua entrada não soa como aquela colaboração colocada artificialmente no meio da música apenas para acrescentar um nome conhecido aos créditos. A banda identificou durante a composição uma passagem mais cadenciada, próxima da métrica do Rap, apresentou a base ao vocalista e deixou que ele escrevesse a letra daquele trecho. O resultado é um contraste interessante com a interpretação de Lula Souto: quando MacBeserra surge com seus vocais guturais, a faixa muda de temperatura e ganha uma explosão de agressividade. Essa escolha também ajuda a quebrar a estrutura tradicional do Thrash, criando uma passagem que conversa com outras vertentes sem fazer a música perder sua identidade.

No conjunto, “Jogo Sujo” representa uma evolução coerente para a SINDROME K. A produção de Heros Trench, responsável pela mixagem e masterização, mantém baixo, guitarra, bateria e vozes bem definidos, enquanto a gravação no Estúdio Kaverna, em Salvador, preserva o caráter independente que acompanha a banda. A faixa talvez pudesse explorar um pouco mais algumas de suas mudanças de dinâmica, especialmente para transformar determinados trechos em momentos ainda mais marcantes, mas a composição funciona justamente por não complicar aquilo que pretende dizer. Depois de dois álbuns — Aqui Se Paga” e Sobreviventes do Mal” — e de “7.000 Giros”, que contou com Marcello Pompeu, a SINDROME K apresenta aqui uma formação entrosada e uma proposta mais aberta, sem abandonar o peso, as letras em português e a comunicação direta que ajudaram a construir sua identidade.