Anika Nilles com Rush. Foto Cindy Ord/Getty Images.

Quando Geddy Lee e Alex Lifeson anunciaram o retorno do Rush aos palcos para uma celebração histórica, que inclui a aguardada passagem pelo Brasil (leia matéria sobre a tour brasileira aqui), o mundo do Rock Progressivo prendeu a respiração. A questão que pairava sobre a cabeça de dez entre dez fãs do trio canadense era simples e quase dolorosa: “quem teria a audácia, a capacidade técnica e a sensibilidade de se sentar na bancada que pertenceu ao saudoso Neil Peart?”

A resposta não veio na forma de um grande nome do Mainstream (vários apostavam em nomes como Mike Portnoy, por exemplo) ou de um cover idêntico, mas sim da precisão cirúrgica, da musicalidade moderna e do groove impecável da alemã Anika Nilles.

Anika Nilles, 2015. Foto: Richard Ecclestone/Redferns. Fonte: Today

Nascida na Alemanha, Anika Nilles construiu sua trajetória longe dos atalhos das redes sociais, fundamentando sua carreira em estudo rigoroso, pesquisa de linguagem e uma paixão incrível pela percussão. Formada em música e pedagogia musical, Nilles ganhou projeção global não apenas por seus solos surpreendentes e o feeling demonstrado enquanto toca, mas pela criação de um conceito próprio de estudo de subdivisões rítmicas e métricas ímpares (odd meters), compilado em métodos aclamados por educadores do mundo inteiro.

Diferente de “bateristas virtuoses” que priorizam a velocidade pura e simples, Anika foca na fluidez do deslocamento de acentos e na polirritmia. A forma como ela manipula métricas complexas — como 5/8, 7/8 ou 11/8 — sem perder o “swing” e o peso fundamental do bumbo e da caixa, chamou a atenção da crítica especializada internacional e da indústria, tornando-a figurinha carimbada nas capas da conhecida revista Modern Drummer e também requisitada em festivais globais de percussão, além de tocar em canais voltados para bateristas como Drumeo.

Anika também construiu uma carreira solo sólida como compositora e bandleader frente ao seu projeto, o Nevell, lançando álbuns autorais que transitam com maestria entre o Jazz Fusion, o Progressive Rock e o Modern Pop, evidenciando uma visão musical, poderia dizer, “holística” que transcende o instrumento.

Substituir o músico de qualquer banda nunca é uma tarefa fácil, porém, quando se trata de alguém como Neil Peart, não é um trabalho de execução simples; é uma tarefa de verdadeira arqueologia musical! Peart não apenas tocava bateria; ele arquitetava arranjos que basicamente funcionavam como melodias paralelas dentro das canções do Rush. Músicas como Tom Sawyer, La Villa Strangiato e YYZ possuem viradas que são tão icônicas e cantáveis (e para muitos, “magicamente impossíveis” de reproduzir até pela mística envolvida), quanto os vocais de Geddy Lee ou os solos de Alex Lifeson.

Talvez por isso, o nome de Mike Portnoy tenha sido exaustivamente especulado e mencionado pelos fãs. Porém, mesmo esta redatora sendo uma discípula fiel do baterista do Dream Theater, cabe aqui um apontamento oportuno: todos sabem o quanto ele é fã e o quanto Peart o inspirou ao longo de sua trajetória, mas qualquer fã de Portnoy também sabe do seu estilo altamente emotivo e de seu poder de improvisação e criatividade únicos quando está ao vivo. No Rush, contudo, a banda toca em um formato diferente: mais cirúrgico, estruturado e, pode-se dizer, “quadrado“. Toda a energia expansiva e o ímpeto de improviso de Portnoy talvez não fossem tão bem assimilados ou aproveitados na arquitetura do repertório do trio canadense neste momento.

Em entrevistas recentes (como para a revista Classic Rock), os próprios membros do Rush admitiram a hesitação inicial diante da escolha. Alex Lifeson e Geddy Lee buscaram alguém que não tentasse ser uma “cópia carbono” de Peart, mas que respeitasse a arquitetura sagrada de suas composições. E foi exatamente aí que Anika Nilles se destacou.

Anika Nilles, 2024. Fonte: Official Website

Nilles trouxe para os ensaios uma combinação rara: a exatidão metronômica exigida pela complexidade do repertório do Rush aliada a um feeling dinâmico e orgânico, deixando de lado o tom um tanto “robótico” nas baquetas.

Em vez de apenas decorar e executar mecanicamente cada compasso como manda o figurino, Anika estudou a intenção por trás de cada virada de Peart, compreendendo o “porquê” de cada escolha rítmica. O resultado não poderia ser outro: uma execução que honra a memória e o arranjo original de Peart, mas com um toque sutil de frescor técnico carregado de emoção, controle de dinâmicas e uma afinação de caixa e pratos que dialoga perfeitamente com o som proposto da banda.

A confirmação de Anika Nilles no Rush carrega também um significado histórico imensurável para a música pesada. O Rock Progressivo e o circuito de virtuosismo na bateria sempre foram ambientes hegemonicamente masculinos e rígidos. Ter uma mulher ocupando o posto de maior prestígio na história do estilo, na banda que é considerada o Santo Graal dos músicos, quebra barreiras e reescreve a narrativa da percussão mundial!

Anika não está no Rush por uma “cota” ou ação de marketing; ela ocupa aquele posto por ser uma das instrumentistas mais talentosas, preparadas e intelectualmente brilhantes da sua geração! Sua presença no palco serve de inspiração direta e indireta para uma nova safra de musicistas e prova que a excelência técnica, instrumento e o feeling não possuem gênero.

Ao se sentar atrás do colossal kit de bateria que acompanhará Lee e Lifeson nesta nova era, Anika Nilles não apenas carrega a responsabilidade de manter vivo o legado de Neil Peart, mas escreve seu próprio nome a ferro e fogo na história do Rock ‘n’ Roll. O Brasil e o mundo estão prontos para testemunhar essa verdadeira aula de música e superação.