Nascida no fervor underground do Espírito Santo (BRA), a Ass Flavour construiu sua trajetória na cena extrema com uma identidade calcada na brutalidade sonora sem concessões, fincando pé como um dos nomes mais viscerais do underground capixaba. Impulsionada pela urgência do Death Metal, Grindcore e Thrash Metal, a banda consolidou ao longo dos anos uma reputação embasada em apresentações caóticas e letras que não se furtam a encarar o lado mais podre da existência humana. O trajeto até aqui reflete a perseverança clássica do metal pesado independente: um compromisso inabalável com a agressividade auditiva e a denúncia da podridão social, elementos que moldaram o DNA do grupo e pavimentaram o caminho para a concepção do seu material mais ambicioso até então
A formação no disco entrega o que a galera espera de um som roots: zero frescura e porrada reta na orelha. A cozinha bate com fúria descarregando o ódio do expediente, o vocal rasga a garganta sem dó e as guitarras entram feito serra cega cortando osso. É o puro entrosamento de quem se conhece no olhar, no palco minúsculo e na poeira do mosh, sem firula técnica pra impressionar acadêmico.
"Lixo Político e Horror Biológico"
Um detalhe crucial que pega o ouvinte de surpresa e abre o álbum é a introdução com um cântico de trabalho tradicional das mondine as trabalhadoras rurais dos arrozais italianos que cantavam em protesto contra a exploração, o cansaço e a miséria. Esse contraste entre o canto histórico de dor e resistência com a porrada sonora que vem em seguida cria uma tensão absurda. É um elemento que eleva o conceito do disco, ancorando a raiva da banda em uma ancestralidade de luta do povo trabalhador antes mesmo de a primeira distorção estourar nos falantes. Na parte de estúdio, a produção assinada pela LSCProds somada à mixagem e masterização nas mãos do Rodolfo Simor conseguiu capturar com precisão a raiva do show ao vivo sem deixar o som virar maçaroca. Existe um cuidado cirúrgico no equilíbrio técnico aqui: as frequências graves pesam o peito com o bumbo e o baixo bem definidos, enquanto a distorção rasgada das guitarras preserva aquele punch orgânico e agressivo do underground. Esquece aquela polidez artificial ou timbres pasteurizados por software que tiram a alma do som extremo; o disco soa alto, sujo, encorpado e com dinâmica suficiente pra sentir a vibração do amplificador fritando na sala.
As músicas são um reflexo desgraçado do que a gente vê no noticiário e nas ruas. Em “Wipe The Asshole Out” e “Aberrant Messiah”, o alvo é a raça de político fdp e falso líder que manipula o povo ignorante enquanto lava as mãos na guerra. Aí o disco desce pro esgoto de vez em “An Exotic Flavour” e “Overwhelming the Scumbags”, narrando mendigo sumindo em Paris pra virar churrasco e sádico torturando desgraçado com as próprias mãos. Pra fechar o caixão, “War lab subject”, “S.A.R.S.” e “Parasites Path” jogam na nossa cara o horror de tanque em trincheira, armas biológicas e bactéria comendo a carne humana viva. É um banho de sangue e podridão do início ao fim.
No fim das contas, Social Anasarca se firma como um manifesto definitivo sobre a decadência humana e uma demonstração impecável da força do metal extremo capixaba. A Ass Flavour não entrega apenas barulho, mas sim uma obra coesa, pesada e profundamente sincera em sua proposta de escancarar o inchaço social e moral que consome a sociedade contemporânea. É um registro essencial para quem busca som extremo feito com alma, técnica e a quantidade exata de fúria necessária para desgraçar os ouvidos e provocar a mente.
FAIXAS:
- Wipe The Asshole Out
- An Exotic Flavour
- Aberrant Messiah
- War lab subject
- Overwhelming the Scumbags
- S.A.R.S.
- Parasites Path
- Parasites Path
NOTA: 8/10


