Doomsday Ceremony – Black Heart: a persistência do metal extremo brasileiro

Persistência é a palavra que melhor sintetiza, na minha percepção, a trajetória do Doomsday Ceremony quando se observa sua história iniciada em Curitiba, em 2000, e mantida por mais de duas décadas dentro do underground. Não é um termo que a banda utilize necessariamente como autodefinição, mas essa leitura encontra eco em declarações antigas de Ciriato sobre luta, confiança no projeto e, principalmente, sobre não desistir. Atravessar mudanças de formação, transformações de linguagem e longos intervalos sem abandonar o projeto tornou-se parte dessa trajetória. O grupo nasceu mais próximo do heavy metal e do doom metal e, ao longo dos anos, incorporou uma identidade mais obscura e diretamente ligada ao black metal. Black Heart, de 2015, é resultado dessa permanência. 

Apocalyptic Celebration, apresentado inicialmente de forma independente em 2005 e lançado oficialmente pela Brazilian Attack Records em 2008, já havia estabelecido um vocabulário de escuridão, melancolia e simbolismo ocultista. Sete anos depois da edição oficial, Black Heart chega como segundo álbum completo sem apagar essa origem. A persistência, aqui, não significa repetir o primeiro disco nem proteger uma fórmula antiga. O heavy metal continua perceptível na organização dos riffs e na construção melódica; o doom metal permanece nas cadências densas e soturnas; o black metal ganha espaço na atmosfera, nos timbres e na teatralidade. O disco transforma as diferentes fases da banda em uma linguagem compartilhada.

Sob o meu olhar, o arco temático de Black Heart começa de fora para dentro. Vultures of War abre o álbum com uma imagem de violência coletiva, enquanto I Am desloca a tensão para a afirmação do sujeito. Voice of the Darkness, minha preferida, aprofunda o chamado sombrio, e as duas introduções que interrompem o repertório funcionam como passagens de rito. Depois delas, Slaves of Sin e a faixa-título conduzem o disco para um núcleo moral e psíquico mais obscuro. Valley of Shadows prolonga a descida e Fury encerra o percurso como liberação de uma energia acumulada.

Essa estrutura permite ler Black Heart como uma cerimônia de descida, e a persistência também se manifesta nessa escolha de permanecer dentro da sombra em vez de buscar uma resolução rápida. A imagem do coração negro não precisa ser reduzida a uma celebração simples do mal. Ela pode ser entendida como entrada em uma zona recusada pela ordem normativa, onde desejo, medo, culpa, violência e impulso deixam de ser projetados apenas para fora. Nesse sentido, a obra admite uma aproximação com a ideia junguiana de sombra: não como filiação declarada da banda, mas como ferramenta para compreender o interesse pelo confronto com aquilo que a consciência prefere negar.

Nesse sentido, o ocultismo funciona de maneira semelhante. Invocação, pecado, escuridão e ritual aparecem menos como doutrina e mais como linguagem estética de transgressão. Essa escolha liga o Doomsday Ceremony a uma tradição do metal extremo em que a inversão do sagrado serve tanto ao choque quanto à imaginação de espaços fora da moral dominante. No Brasil, essa tradição possui uma história própria. A trajetória da banda dentro dessa tradição é relevante porque essa combinação entre heavy metal tradicional, doom e black metal adquiriu uma forma própria no percurso do grupo e dentro da cena curitibana em que ele se desenvolveu.

A ligação de Black Heart com a Cogumelo Records amplia essa dimensão histórica. A gravadora mineira ocupa um lugar decisivo na genealogia do metal extremo brasileiro, e sua presença no percurso do Doomsday Ceremony conecta uma banda de Curitiba a uma rede mais ampla de produção independente. Não se trata de sugerir equivalência estética com a geração clássica da Cogumelo Records, mas de reconhecer continuidade de infraestrutura, circulação e memória. Persistir no metal extremo brasileiro também significa existir dentro dessas redes, muitas vezes longe dos mecanismos centrais da indústria musical.

A paisagem sonora de Black Heart privilegia atmosfera e cadência. As guitarras trabalham riffs densos e linhas melódicas que preservam a herança do heavy metal, enquanto baixo e bateria sustentam uma marcha quase cerimonial em progressão maciça. A voz de Moloch ocupa o centro dramático: mais importante do que o virtuosismo isolado é a autoridade com que conduz ameaça, proclamação e invocação. As introduções quebram a linearidade do álbum e funcionam como portas entre blocos. É um recurso simples, mas eficaz para transformar a sequência de faixas em capítulos de uma mesma liturgia.

O registro no Avant Garde Studio, em Curitiba, com produção de Maiko Thomé, reforça essa arquitetura. A sonoridade mantém definição sem retirar aspereza, permitindo que a identidade híbrida do disco permaneça audível. Há espaço para melodia, mas ela nunca dissolve a densidade; há passagens mais lentas, mas elas não funcionam como repouso. A tensão é sustentada pela repetição, pela duração dos acordes e pelo modo como a voz ocupa o primeiro plano. A técnica está menos interessada em velocidade contínua do que em criar presença.

O projeto gráfico prolonga a mesma lógica. A capa participa da teatralidade de Black Heart e dá forma visual ao vocabulário de sombra, ritual e transgressão. Ela não funciona apenas como embalagem de um álbum de temática ocultista: ajuda a construir o ambiente em que a escuta acontece. Essa coerência entre som, imagem e conceito acompanha uma banda que atravessou diferentes fases sem abandonar completamente o imaginário sombrio que sustenta sua identidade.

Black Heart se torna, assim, um documento de maturidade e permanência. O Doomsday Ceremony não abandona o heavy metal e o doom metal para se converter simplesmente em black metal, nem retorna nostalgicamente ao início. O álbum aceita as camadas acumuladas ao longo de quinze anos de trajetória e encontra personalidade justamente no encontro entre elas. Persistência, nesse caso, não é permanecer igual: é continuar existindo, absorvendo mudanças sem dissolver o próprio núcleo. Black Heart registra uma banda que chegou até ali porque insistiu em continuar e que transformou essa continuidade em parte essencial de sua música.

Depois de Black Heart, a Doomsday Ceremony manteve sua presença em circulação com os singles “Rotten World” (2018) e “I Have No Soul” (2019). Os dois lançamentos prolongam a atmosfera sombria e a identidade construída no álbum, mas também mostram uma banda que segue trabalhando sua linguagem fora do formato do disco completo, preservando a densidade, a dramaticidade e o caráter obscuro que atravessam sua trajetória.

Recentemente a banda divulgou em suas redes sociais oficiais detalhes sobre o material visual para o novo álbum “Rotten World“, com produção de lyric video assinada por Ciriato e lançamento marcado para o dia 05 de setembro de 2026.🤘🏼

Músicas:

  1. Vultures of War
  2. I Am
  3. Voice of the Darkness
  4. Intro
  5. Slaves of Sin
  6. Intro 2
  7. Black Heart
  8. Valley of Shadows
  9. Fury

Formação:

Moloch: vocais

Ciriato: guitarras

Rieche: guitarras

Shaitan: baixo

Wolff: bateria

Participações:

Fernando Nahtaivel: teclados na introdução de “Slaves of Sin”

Sucoth Benoth: backing vocals em “Vultures of War” e “Slaves of Sin”

Ficha técnica:

Lançamento: 25 de outubro de 2015

Gravadora: Cogumelo Records

Gravação: Avant Garde Studio, Curitiba

Produção: Maiko Thomé

Arte e layout: Fernando Lima Faria

Origem: Curitiba, Paraná, Brasil

Divulgação oficial:

Spotify: Black Heart

YouTube: Slaves of Sin (Official Video)

Instagram: @doomsday_ceremony

Facebook: Doomsday Ceremony