Embora “Heretic” seja o centro desta resenha, a música ganha outra dimensão quando colocada diante do último álbum completo da Human Plague e dos lançamentos que vieram depois dele. Neste caso, o objetivo é falar do destino sem perder a beleza do caminho. Assim, Harvest of Hate funciona aqui como ponto de referência, não para deslocar o foco do single, mas para perceber de onde vem a violência que “Heretic” concentra em pouco mais de dois minutos e como a banda foi estreitando seus temas até chegar a essa nova fase.

Para essa empreitada, dedicação foi a palavra que escolhi para ler a trajetória da Human Plague. Não foi uma definição sugerida pela própria banda, mas uma chave que se impôs ao observar uma história atravessada por quinze anos de underground, mudanças de formação, intervalos entre lançamentos e uma fidelidade bastante clara ao death metal. Em um circuito independente, permanecer não depende apenas de continuidade formal, ao contrário, exige tempo, insistência, disponibilidade para reorganizar a banda e vontade de produzir mesmo quando a estrutura ao redor quase nunca facilita o caminho.

Formada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2011, a Human Plague nasceu forjada no espírito do death metal extremo dos anos 1990. O início da banda reuniu André Corrêa nos vocais, Marcelo Martins na guitarra, Cássio F. Lemos no baixo e nas letras e Carlos Armani na bateria. A formação mudou ao longo dos anos, mas dois fios permaneceram especialmente importantes: Cássio, que passou do baixo para os vocais e manteve participação constante na escrita, e Armani, baterista e letrista desde a fundação. Mais tarde, a entrada de músicos como Ricardo Gehling, Emiliano Cassol, Rafael Léguas e Bruno Portela redesenhou o corpo instrumental sem deslocar a identidade central do grupo.

Human Plague – Heretic: dedicação, ruptura e death metal no underground brasileiro

A primeira fase foi registrada em 2013 com o single Below the Nothingness e o EP Marching Through the Fields of Desolation. Logo depois veio a participação no split World Damnation, seguida pelo single The Last Hours, em 2015, e por Black Death, em 2018. Essa sequência mostra uma banda que não chegou ao primeiro álbum completo por atalho. Harvest of Hate, lançado em 2019, apareceu depois de anos de composição, circulação local e mudanças internas. A palavra dedicação ganha peso justamente nesse intervalo: o disco não é ponto de partida, mas condensação de uma trajetória já testada pelo tempo.

Harvest of Hate tem treze músicas e cerca de cinquenta minutos e se organiza em torno de guerra, destruição, morte, intolerância religiosa e uma percepção bastante sombria da condição humana. A abertura, In the Name of War, Amen, prepara um campo quase cinematográfico para 1944, enquanto músicas como No Mercy, Napalm Rain, Eternal Abyss e Silent War alternam velocidade, peso e atmosferas mais opressivas. A presença de uma versão de The Antichrist, do Slayer, não funciona apenas como homenagem. Ela explicita uma genealogia estética que aproxima a Human Plague da tradição do metal extremo que transformou violência sonora, guerra e crítica religiosa em linguagem.

Nesse contexto é importante olhar para Harvest of Hate como um corpo inteiro porque ali a Human Plague ainda trabalha a brutalidade em escala ampla. Guerra, fanatismo, morte e devastação aparecem por diferentes ângulos, e o disco pode se permitir mudanças de duração, andamento e atmosfera que um single não comporta. Essa amplitude ajuda a entender o contraste com o que viria depois: quando a banda volta em lançamentos isolados, a mesma linguagem parece cada vez mais condensada, como se certas imagens fossem sendo retiradas daquele panorama maior e colocadas em outra escala e sob uma lente mais próxima.

Também é em Harvest of Hate que a história dos integrantes se torna especialmente visível. Ricardo Gehling participou das guitarras e teve papel importante na gravação, mixagem e masterização do material daquela fase. Emiliano Cassol assumiu o baixo em 2019. Cássio já aparece como vocalista, depois de ter sido baixista no início da banda, e Carlos Armani permanece na bateria. Armani, além da atividade musical, atua como professor de História na Universidade Federal de Santa Maria. Não é necessário transformar sua vida acadêmica em uma explicação automática para as letras, mas essa dimensão biográfica torna ainda mais interessante uma banda que volta repetidamente a uma constelação formada por guerra, religião, morte e colapso como matéria de criação.

Depois de Harvest of Hate, a Human Plague não desapareceu dentro do próprio álbum. Convoy of the Damned, em 2021, e Uncreation, em 2023, mantiveram a produção ativa enquanto a formação atual se consolidava. Rafael Léguas, também ligado ao Ethereal Embrace e com passagem pelo Scarpast, assumiu uma das guitarras; Bruno Portela voltou a integrar o grupo e também atua na Finita; Emiliano permaneceu no baixo; Cássio, nos vocais; e Armani, na bateria. É uma formação construída por músicos que carregam outras experiências da cena gaúcha, algo que ajuda a entender a Human Plague menos como uma unidade isolada e mais como parte de uma rede de metal extremo que se mantém por circulação, colaboração, trabalho continuado e muita dedicação.

Convoy of the Damned é a primeira dessas pontes. O título ainda carrega o vocabulário de guerra e condenação que atravessava Harvest of Hate, de modo que a passagem não soa como ruptura. O que muda é a escala. Em vez de um álbum inteiro capaz de construir diferentes cenários de violência, o single concentra uma imagem e a sustenta sozinho. Há continuidade temática, mas também uma forma mais direta de apresentar o conflito, algo que ajuda a preparar o terreno para o deslocamento simbólico que aparece com mais força em Uncreation.

A própria arte de Uncreation ajuda a perceber essa continuidade. A figura esquelética vestida como uma presença religiosa, cercada por velas, correntes e tons escuros, transforma iconografia devocional em imagem de decomposição. Não há ali apenas gosto pelo macabro. Existe uma inversão visual do sagrado que dialoga com a temática antirreligiosa já presente na banda e prepara de maneira quase natural o terreno para Heretic. A passagem de Uncreation para Heretic parece menos uma mudança brusca e mais um estreitamento do foco: da destruição de uma ordem para a figura daquele que se coloca fora dela.

O single Heretic abre o ciclo de Tombs of Thought. Apresentado inicialmente pela banda em 2025, acompanhado de videoclipe, chegou aos serviços de streaming em 30 de janeiro de 2026. É também a faixa mais curta que o grupo afirma ter produzido, e essa concisão muda a arquitetura da agressão e a paisagem sonora. Em vez de desenvolver longamente a atmosfera, a composição concentra impacto, velocidade e ataque. A formação atual participa coletivamente da composição, enquanto os vocais de Cássio ocupam o centro de uma faixa construída para não oferecer alívio ou redenção.

O título permite uma leitura cultural e histórica particularmente fértil. “Herege” nunca foi apenas uma palavra religiosa: ao longo da história cristã, ela funcionou como categoria de exclusão, instrumento para demarcar a fronteira entre ortodoxia e desvio. Sob o meu olhar, a Human Plague inverte essa posição. A heresia deixa de ser acusação recebida e passa a ser identidade assumida, uma força que retorna contra o dogma que tentou classificá-la como desvio. Essa inversão conversa com a tradição antirreligiosa do death metal, mas também com algo mais amplo: a recusa de sistemas que reivindicam uma verdade absoluta e o uso da destruição como metáfora para romper estruturas de autoridade.

Heretic aponta para uma Human Plague mais concentrada musicalmente, mas essa concisão não significa uniformidade. As duas guitarras abrem a faixa estabelecendo uma textura densa sobre um riff repetido que produz uma sensação imediata de angústia e urgência, provavelmente com afinação em D ou C# standard, comum no death gaúcho. A entrada do vocal aumenta essa pressão. Em seguida, o baixo ganha um espaço particularmente claro na mixagem, enquanto a bateria altera sua intensidade e modifica a dinâmica da composição sem retirar dela a agressividade. Mais adiante, os solos de guitarra abrem outra frente dentro desse movimento; depois deles, a bateria retorna com nova intensidade e os riffs se transformam novamente até o encerramento. A faixa é curta, mas está em movimento constante, reorganizando continuamente a própria violência.

Sob o meu olhar, essa continuidade produz uma sensação de fuga, mas de uma fuga sem saída. A música avança com urgência enquanto a letra constrói imagens de fogo, decapitação, corpos destruídos, cinzas e ritual. A primeira frase, “The time has come”, já anuncia que alguma coisa está prestes a acontecer; depois disso, não existe propriamente possibilidade de escapar. A música corre, mas a morte parece já estar esperando no fim.

O resultado funciona como declaração de intenção para Tombs of Thought. Se Harvest of Hate construía sua violência em cinquenta minutos e permitia diferentes graus de tensão, Heretic trabalha como um corte rápido e cirúrgico, quase uma miniatura daquilo que a banda pretende levar para o próximo álbum. A gravação foi realizada no Fantom Group, em Santa Maria, e a mixagem é creditada a Mauricio Torres.

Tombs of Thought, anunciado pela própria Human Plague como o próximo álbum, previsto para 2026, carrega um título que desloca a violência para dentro. A própria banda já esclareceu que não se trata de um disco conceitual no sentido de desenvolver uma narrativa contínua, mas de um trabalho atravessado por pessimismo, niilismo, misantropia, ceticismo, desesperança e pela imagem de uma mente atormentada diante da insignificância humana. Sob o meu olhar, “tumbas do pensamento” torna-se, então, uma imagem particularmente poderosa para essa paisagem interior. Se Harvest of Hate olhava com frequência para guerra, morte e devastação histórica, “tumbas do pensamento” sugere um espaço mental: ideias enterradas, dogmas, memória, crença e formas de pensamento que sobrevivem mesmo depois de perderem vitalidade. Heretic é uma porta coerente para esse universo porque coloca a ruptura com o dogma antes da entrada nesse cemitério simbólico. A dimensão histórica e filosófica assumida pela banda ao longo de sua trajetória, já atravessada por niilismo e pela insignificância humana diante de um universo indiferente, encontra aí uma possibilidade de aprofundamento. Foi justamente isso que me motivou a resenhar o single, mas sem perder de vista o caminho trilhado pela banda.

Por isso, dedicação me parece uma palavra adequada para a Human Plague. Não porque a trajetória seja linear, nem porque quinze anos de atividade tenham produzido uma discografia excessivamente extensa. É justamente o contrário. A dedicação aparece na capacidade de continuar entre períodos de silêncio, alterações de formação e condições próprias do underground, preservando uma linguagem reconhecível sem transformar fidelidade em imobilidade. De Marching Through the Fields of Desolation a Harvest of Hate, de Uncreation a Heretic, a banda permanece porque ainda encontra algo a dizer dentro do death metal. E talvez essa seja uma das formas mais concretas de dedicação: continuar construindo quando permanecer exige trabalho árduo.

Música:

  1. Heretic

Formação:

Cássio F. Lemos: vocais e letras

Bruno Portela: guitarra

Rafael Léguas: guitarra

Emiliano Cassol: baixo

Carlos Armani: bateria e letras

Ficha técnica:

Lançamento nas plataformas: 30 de janeiro de 2026

Formato: single digital

Origem: Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil

Gravação: Fantom Group, Santa Maria

Mixagem: Mauricio Torres

Relação com o próximo trabalho: primeiro single de Tombs of Thought

Divulgação oficial:

Spotify: Heretic

YouTube: Heretic (Official Music Video)

Instagram: @human_plague

Facebook: Human Plague

Site oficial: Human Plague