A história do Fen começou em 2006, direto do litoral leste da Inglaterra, carregando no próprio nome a atmosfera fria e pantanosa da região dos Fens. De lá para cá, o trio construiu uma discografia sólida e respeitada dentro do black metal atmosférico, misturando a agressividade crua do gênero com passagens contemplativas e melancólicas de post-rock. Registros como a estreia The Malediction Fields (2009), a densidade de Winter (2017) e o peso direto de Monuments to Absence (2023) mostram uma banda que sempre soube usar a natureza e a desolação como combustível criativo.
Com o novo álbum Elemental Part One: Mourning Earth, lançado no dia 21 de agosto deste ano a banda dá o pontapé inicial em uma jornada conceitual focada nas forças da terra, marcando exatamente duas décadas de estrada. Lançado sob o catálogo da Prophecy Productions gravadora alemã que é referência histórica no metal vanguardista e atmosférico, o disco se destaca logo de cara pela escolha de som. A produção fugiu do padrão moderno “supercomprimido” e entregou uma sonoridade viva, crua e espaçosa, onde dá para sentir o peso real da bateria e o timbre orgânico das guitarras em cada transição.
O grande triunfo deste trabalho está na precisão técnica combinada a uma carga emotiva palpável. O trio consegue alternar entre a fúria dos blast beats e momentos de calmaria melancólica sem que as faixas pareçam colagens desconexas. Há uma atenção visível à dinâmica de cada composição, permitindo que as linhas de baixo ganhem espaço próprio e interajam de forma quase hipnótica com os dedilhados limpos e as vocalizações rasgadas, criando camadas de som que exigem fones de ouvido atentos para serem totalmente absorvidas. Uma das maiores curiosidades deste projeto é a sua postura enxuta: com pouco mais de 45 minutos e poucas faixas, é o álbum mais direto e sem enrolação que o Fen já lançou. A banda optou por cortar o excesso de “gordura” instrumental para focar em estruturas mais memoráveis. Esse tiro certeiro fica evidente no single mais impactante do trabalho, “Glacier”, uma música que traduz com perfeição a proposta do disco ao começar com dedilhados extremamente soturnos antes de explodir em uma avalanche de peso e velocidade.
"O equilíbrio perfeito entre a brutalidade e a contemplação sonora"
Nas demais faixas, o ouvinte encontra um grupo no topo de sua maturidade musical, sabendo exatamente quando acelerar o ritmo e quando deixar o silêncio e as ressonâncias trabalharem a seu favor. O contraste entre os riffs cortantes e os momentos de pura contemplação cria um fluxo narrativo contínuo, fazendo com que o álbum funcione melhor quando escutado de ponta a ponta, sem interrupções.
No fim das contas, Elemental Part One: Mourning Earth soa como um reencontro da banda com suas origens, mas com o refinamento de quem tem 20 anos de bagagem nas costas. É um disco honesto, visceral e que entrega exatamente o que os fãs de música extrema esperam quando buscam imersão e sentimento. A expectativa para a segunda parte desse projeto fica alta, consolidando o Fen como uma das forças mais autênticas e constantes do metal atmosférico atual.
FAIXAS:
- Glacier
- Tectonic
- Massif
- Abyssal Plain
- Barrow
- Moor
NOTA: 9/10



