Contra Todas as Adversidades marca a estreia das Queimada, um trio feminino moldado nas entranhas do underground e movido por uma experiência que se sente em cada segundo do álbum. Este registo impõe-se como uma declaração de intenções: crua, feroz e absolutamente intransigente. Lançado a 22 de janeiro de 2026 pela Larvae Records, chega como um incêndio descontrolado, daqueles que consomem tudo na sua passagem.

Num underground que raramente pede licença para existir, as Queimada, formadas por Bea Cruz (bateria), Maria Pereira (guitarra e baixo) e Pepper (vocalista), chegam como um incêndio impossível de ignorar. Contra Todas as Adversidades, o disco de estreia do trio, é um manifesto visceral, forjado na urgência de gritar, resistir e sobreviver. Com raízes fincadas no punk mais abrasivo, enriquecido com outros elementos, e com uma energia que oscila entre a autodestruição e o renascimento, o álbum é um verdadeiro murro direto ao estômago, sem filtros nem concessões.
Vindas de diferentes frentes do circuito underground, as três integrantes trazem consigo bagagem, identidade e cicatrizes que se entrelaçam neste registo incendiário. O resultado é um som cru, carregado de tensão e propósito, onde cada batida, riff e grito parece empurrado por uma necessidade quase física de existir. Contra Todas as Adversidades afirma desde o primeiro momento que as Queimada vieram para consumir todo o espaço à sua volta!
O álbum abre com uma Intro falada, envolta num eco cavernoso que arrasta cada palavra para um vazio inquietante. É um início desconfortável, quase claustrofóbico, que instala de imediato uma tensão densa no ouvinte. A frase “Sempre me recusei a arder como os outros“, que surge no seu núcleo, soa quase como um manifesto não só da identidade das Queimada, mas da urgência que atravessa todo o disco. E mostram ainda que não há espaço para romantizações quando ecoa “E no fim são todos cinza…“. A constatação crua da inevitabilidade de que tudo é finito. E é precisamente daí que nasce o impulso de viver, agir, fazer antes que tudo termine. Não é um convite suave, é um empurrão. As Queimada arrastam-nos aqui para dentro de um universo onde a urgência de existir se sobrepõe a tudo o resto.
Sem dar espaço para respirar, Catharsis surge como uma explosão inevitável. Funciona como uma libertação de uma tensão acumulada, não no sentido reconfortante, mas sim como uma descarga violenta, crua, quase desesperada. Aquilo que poderia ser interpretado como punk rapidamente se revela algo muito mais denso e imprevisível. Há aqui percussões que roçam territórios de black metal, guitarras carregadas de dissonância que parecem rasgar a própria estrutura das músicas, e uma voz que implode, sufoca, arrasta consigo uma carga emocional brutal. Limitar Catharsis a punk seria ignorar a complexidade que as Queimada introduzem logo neste primeiro impacto real do álbum. O que aqui se ouve é um híbrido abrasivo, onde géneros se contaminam e se expandem, criando uma identidade própria que não pede rótulos fáceis. É neste momento que Contra Todas as Adversidades começa verdadeiramente a mostrar ao que vem, e não é nada contido.
O terceiro tema do álbum, Sections of My Identity, prende o ouvinte desde o primeiro instante, muito graças à entrada intensa de Pepper, que aqui revela uma impressionante prestação vocal, carregada de emoção, raiva e confiança. O tema arranca num registo de punk cru e direto, mas no final abre espaço para uma atmosfera mais lenta, densa e envolvente. Este contraste mostra bem a identidade das Queimada: um punk que não se limita às suas raízes, mas que se expande com naturalidade e personalidade.
Drowned começa por … nos enganar. Dá a sensação de que vai seguir um caminho que rapidamente abandona. Há um acorde inicial de Guns N’ Roses, mas essa ilusão desaparece num instante, dando lugar às verdadeiras Queimada. Este quarto tema mergulha fundo na falta de esperança e no sentimento de não pertencermos a lado nenhum, e o instrumental acompanha essa descida de forma intensa e sufocante. Mais uma vez, fica claro: as Queimada sabem exatamente o que estão aqui a fazer e o que querem transmitir !
À medida que o disco se aproxima do fim, a rebeldia e a raiva mantêm-se intactas em Absurd. Aqui, as Queimada parecem responder de forma direta e sem rodeios a qualquer questão sobre o propósito da vida com um murro sonoro que não dá espaço para respirar do primeiro ao último segundo. É uma faixa assumidamente punk, mas longe de ser básica, cheia de identidade, intenção e uma urgência quase física em cada momento. Daquelas músicas que, ao ouvi-las em disco, fazem imediatamente imaginar o caos ao vivo. Tudo nela aponta para uma descarga crua de energia, dor e brutalidade, pensada para ser sentida no corpo, no meio do público, e não apenas ouvida à distância.
Chegamos ao fim com um tema que deixa uma marca daquelas que não desaparecem depois da música acabar. Southbound arrepia pela forma como atinge, mas também pelo que representa, especialmente enquanto mulher. É um verdadeiro hino feminista, sem concessões nem suavizações, direto, incómodo e necessário. Um grito de revolta contra um sistema que insiste em proclamar igualdade enquanto continua a falhar, e as Queimada expõem isso com uma clareza desarmante. Em pouco mais de três minutos, o trio condensa uma carga emocional e política impressionante, apoiada por um instrumental tenso e incendiário que amplifica cada palavra. É daquelas faixas sobre as quais se poderia escrever muito, mas que ganham outra dimensão quando sentidas, porque aqui, mais do que explicar, importa ouvir.
Depois de várias audições, torna-se evidente que não poderia haver melhor forma de fechar o álbum. Contra Todas as Adversidades percorre temas como a agonia, a luta, a urgência de existir e a revolta contra um sistema corrompido, e termina exatamente onde essas ideias se tornam mais claras e inevitáveis. O punk sempre foi isto, mas as Queimada conseguem aqui algo mais: dar-lhe uma identidade própria, urgente e impossível de ignorar.

Contra Todas as Adversidades é uma afirmação, um confronto e, acima de tudo, uma prova de vida! Num género por vezes dado como gasto, repetido ou até morto, as Queimada surgem para o reanimar à força, sem pedir permissão e sem olhar para trás. Há aqui verdade, há urgência e há uma capacidade rara de transformar dor, revolta e identidade em algo que não só se ouve, mas que se sente profundamente. Este é um álbum que fica e permanece, não apenas pelos riffs, pela intensidade ou pela entrega, mas pelas mensagens que carrega e pela forma como nos obriga a encará-las. As Queimada não reinventam o punk, fazem algo mais difícil: devolvem-lhe propósito, significado e fogo.
Alinhamento:
1- Intro
2- Catharsis
3- Sections of My Identity
4- Drowned
5- Absurd
6- Southbound
Banda: Queimada
Álbum: Contra Todas as Adversidades
Data de Lançamento: 22 de janeiro de 2026
Label: Larvae Records
Estilo: Punk
Larvae Records:
Website: https://larvae.pt/
Facebook: https://www.facebook.com/larvaerecords
Instagram: https://www.instagram.com/larvaerecords/
Queimada:
Youtube: https://www.youtube.com/@QUEIMADA-Punk
Instagram: https://www.instagram.com/queimada.band/
Bandcamp: https://queimada-punk.bandcamp.com/album/contra-todas-as-adversidades

