Zambrotta narra dilemas do fazer artístico no álbum de estreia “Ensaio Sobre a Noite e o Dia”

Foto: Severino Silva | @oiseverinosilva

O jovem trio pernambucano Zambrotta, por meio do selo Downstage, disponibiliza o primeiro álbum da carreira “Ensaio Sobre a Noite e o Dia” com canções cheias de guitarras virtuosas sob roupagem experimental do rock noventista. São nove faixas em que a banda explora terrenos do post-rock, shoegaze, dreampop, emo, lo-fi e noise com sutileza e bom gosto.

Capa do álbum

A Zambrotta nasceu da amizade e da busca de três amigos por seu lugar no mundo através da música. Com o EP “Zambrotta Não Morreu” (2017), a banda conquistou destaque na cena local, alcançando mais de 12 mil visualizações e realizando mais de 20 shows, incluindo uma mini turnê no Rio de Janeiro e aberturas para nomes como gorduratrans e Vitor Brauer.

Após um hiato de amadurecimento entre 2019 e 2025, o grupo retorna com seu primeiro álbum cheio, produzido por Mathias Severien no estúdio Pólvora. A obra, que levou seis anos para ser concluída, funciona como um manifesto sobre o fazer artístico e a persistência em existir como banda independente, mesclando influências de rock alternativo, emo, indie e ritmos regionais.

Formada por Adner Andrade (voz), Lucas Emanuel (guitarra/voz) e Renan (bateria/voz), a Zambrotta revisita seu passado e enfrenta os fantasmas do longo hiato em “Ensaio Sobre a Noite e o Dia”. O álbum é um retrato intenso, violento e sincero do afeto entre três amigos de infância que, após anos de silêncio, compartilham com o mundo canções-manifesto de suas ambições criativas.

As influências da banda são tão diversas quanto seus integrantes. Inspiram-se fortemente nas produções artísticas underground dos anos 1990, especialmente no que emergiu do post-hardcore e da música indie daquele período — não apenas enquanto gêneros, mas como um verdadeiro momento histórico de efervescência criativa. A banda dialoga com sonoridades que orbitam o movimento pós-Revolution Summer de 1985, transitando entre skramz, shoegaze, post-punk, dream pop, math rock, midwest emo, post-rock e art-rock. Referências como Fugazi, American Football, Toe, Delta Sleep, Godspeed You! Black Emperor, Alex G, Sigur Rós, Ludovic, At the Drive In, Hurtmold, Portishead, gorduratrans, El Cómodo Silencio de los que Hablan Poco, Radiohead, Swans, Tricot e The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die marcam o universo sonoro da Zambrotta.

Foto: Severino Silva | @oiseverinosilva

Como artistas nascidos e criados em Pernambuco, a banda também carrega de forma orgânica as referências da cultura popular e dos ritmos regionais. Elementos do brega, maracatu e forró atravessam o trabalho, refletindo a musicalidade das ruas e das manifestações folclóricas locais. Essa fusão se materializa em algumas faixas do álbum, com a presença marcante da percussão — resultado da colaboração com Gilú, percussionista da Orquestra Contemporânea de Olinda, que trouxe uma camada rítmica e identitária à sonoridade do grupo.

A obra, auto-contida em seu próprio fazer artístico, retrata as fases do “sonho médio” do artista independente: a ingenuidade inicial, o medo de não ser suficiente, os pesadelos materiais e a esperança da redenção. As faixas narram o processo de criação do próprio álbum — um percurso marcado por crises, ansiedade, choro, abraços, brigas e reconciliações.

“E isso fez total diferença, porque não estávamos mais representando sentimentos do começo da vida adulta, mas da nossa fase atual. Estávamos retratando a nossa própria dificuldade em continuar existindo, de fazer e sonhar com arte. Desde a ansiedade do começo, passando pela dificuldade de conciliar a produção com uma vida de trabalho precarizado, até a insegurança de investir em algo sem retorno financeiro”, enfatiza a banda.

Atualmente, a Zambrotta está em turnê de divulgação do álbum, com apresentações já realizadas em Maceió, Recife e João Pessoa.

Foto: Severino Silva | @oiseverinosilva

A sonoridade a estética do álbum

Apesar de algumas tracks terem referências muito características de subgêneros mencionados, a obra como um todo, em termos sonoros e estéticos, experimenta em cima da narrativa que cada canção exige, com nuances distintas de arranjos e timbres, isto é, do introspectivo ao efusivo (com moderação), da sutileza ao ruído.

Em músicas mais solares, por exemplo, a banda traz uma roupagem mais vibrante, ingênua e enérgica, enquanto nas mais noturnas exploram um repertório e momentos mais densos, crus e soturnos.

É a latente dicotomia que já é escancarada no título do álbum, como se este registro fosse um ‘ensaio’ contínuo em busca de experimentos, de respostas, de um sorriso ou de um timbre novo.

“Em cada canção estaríamos ‘ensaiando’ experimentalmente sobre como lidamos com os sentimentos que cada música nos trazia no decorrer do tempo. Isso nos deu liberdade também de profanar as nossas próprias referências musicais, subvertendo muitos padrões de cada gênero e fazendo algo que acreditamos ser puramente nosso”, comenta o vocalista Adner.

Agora é a hora de cair na estrada para divulgar e compartilhar “Ensaio Sobre a Noite e o Dia” com novos públicos.

“Acredito que antes de tudo queremos devolver à arte e à música tudo que ela nos proporcionou – como ato de gratidão, mesmo. Com ela aprendemos que o mundo é vasto e que é possível sentir-se parte, ao mesmo tempo. Queremos retornar isso as pessoas; que elas se sintam compreendidas. Queremos ser relevantes na vida de quem nos escuta, ajudar pessoas a encarar os próprios sentimentos, a realidade que o cerca, a própria solidão”, finaliza Adner.

Foto: Severino Silva | @oiseverinosilva

“Em cada canção estaríamos ‘ensaiando’ experimentalmente sobre como lidamos com os sentimentos que cada música nos trazia no decorrer do tempo.

Ouça o álbum Ensaio Sobre a Noite e o Dia na íntegra aqui: https://lnk.fuga.com/zambrotta_ensaiosobreanoiteeodia.

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