Disidente: 25 anos de resistência no rock nacional — México
Quando a lealdade histórica fala mais alto que o cansaço
Mesmo com o cansaço acumulado dos últimos eventos do ano — aquele que já não passa com uma cerveja nem com a promessa de “só fico um pouco” — ainda faltava um último show para fechar o ciclo: Disidente. Porque há concertos aos quais se vai pela novidade, outros por compromisso profissional… e alguns por lealdade histórica. Este foi claramente o caso.
Vinte e cinco anos não se celebram todos os dias. E muito menos numa cena como a do rock nacional mexicano, onde tantas bandas ficam pelo caminho — na promessa, no demo, na anedota. Disidente não. Disidente sobreviveu.
A noite vinha bem acompanhada: a velha e a nova escola dividindo o cartaz como um gesto claro de respeito geracional. Silent Noir, Ray Coyote, Thermo e No Tiene La Vaca como bandas de abertura desenhavam uma linha nítida entre passado, presente e futuro do rock feito em casa. Infelizmente, acabei perdendo praticamente todas.
Foi a primeira vez em seis anos que não vi Ray Coyote, o que por si só já diz muito sobre o desgaste com que cheguei a este encerramento de ano. Às vezes, o corpo e as responsabilidades não colaboram, mesmo quando a vontade está intacta.
Mas quando Disidente subiu ao palco, tudo isso ficou em segundo plano.
De “Y Si Tuviera Disquera…” a lendas — México
Disidente é uma daquelas bandas com uma origem muito clara: o início do novo milênio, quando o rock mexicano ainda sonhava em tocar no rádio sem pedir permissão — e sem pedir desculpas. Y Si Tuviera Disquera… não apenas os colocou no mapa, como se tornou um manifesto involuntário para toda uma geração que queria viver de música, mesmo sem saber exatamente como.
Vinte e cinco anos depois, esse espírito continua presente. Não como nostalgia vazia, mas como ofício. A banda soou sólida, segura, consciente da própria história, sem ficar aprisionada a ela. Não houve necessidade de discursos grandiloquentes nem de poses forçadas: as músicas falaram por si.
E é isso que diferencia as lendas reais das autoproclamadas: elas não precisam lembrar quem são, porque o catálogo já fez isso por elas.
O peso do tempo (bem levado) — México
O mais interessante do show não foi apenas o setlist, mas a postura. Disidente não se comporta como uma banda tentando competir com a nova geração, nem como um ato preso à nostalgia. Eles se apresentam como o que realmente são: uma banda madura, experiente, que entende o palco e entende o público.
Ali estava o rock and roll, sem disfarces, sem ironias desnecessárias. Canções executadas com a segurança de quem já passou por todas as fases: a fome, o hype, o silêncio, a resistência e a permanência.
O encerramento que o ano precisava — México
Saí do Parque Agua Azul com a sensação de ter fechado um ciclo. Não apenas o da agenda de shows, mas o do ano inteiro. Depois de festivais exaustivos, misturas de gêneros, noites sem dormir e resistência física, Disidente foi um lembrete simples e poderoso: o rock não precisa ser grandioso o tempo todo — às vezes, basta aguentar 25 anos sem se trair.
E por isso, apesar do cansaço, valeu a pena estar ali.
Obrigado pelo barulho.
Obrigado pela constância.
Obrigado por 25 anos de rock n roll.
Evento: Show comemorativo de 25 anos de Disidente
Local: Parque Agua Azul
Cidade: Guadalajara, México
Formato: Concerto ao vivo
Duração: Set especial comemorativo
CTA: Já assistiu a um show que te fez sentir que tudo valeu a pena no final do ano? Conta pra gente e acompanha mais coberturas no Cultura em Peso.

