Não é todos os dias que assistimos ao regresso de uma banda que marcou gerações. Os THE MIST estão de volta com The Dark Side Of The Soul, um álbum conceptual e brutal que reafirma a relevância do Thrash Metal numa estética contemporânea. Nesta entrevista exclusiva, mergulhamos no processo criativo, nas mudanças, nas raízes e no futuro.

[photo credit: Alexandre Biciati]

1. Exatamente 30 anos após Gottverlassen, lançam um novo álbum completo. O que
significa para vocês este regresso?
Um desafio gigantesco. Poderíamos tentar outros caminhos e talvez até seria mais fácil.
Preferimos fincar os pés no que nos trouxe até aqui: o Thrash Metal. Ele faz parte do
nosso DNA, é a estrutura, a espinha dorsal da nossa música. É claro que não somos as
mesmas pessoas e nem estamos na década de 90 mais, mas trazemos agora um Thrash
Metal tão novo e tão vivo quanto o que trouxemos no século passado. Estamos rápidos,
maduros e, quando pesamos, criamos a mesma sensação abismal de antes. Estamos
felizes com o resultado.

2. Quando olham para trás, em tudo o que os THE MIST viveu desde o início, há
algum momento que consideram decisivo para a história da banda?
Sempre penso que o melhor momento é o que está por vir. Foi bom conseguirmos
manter-nos unidos e manter a mesma formação no EP e agora no álbum. Estamos
sempre tentando melhorar e estamos cobrando mais de nós mesmos. Acho que nosso
momento ainda não chegou realmente e estamos nos esforçando para que, quando ele
chegar, estejamos preparados para vivê-lo em sua intensidade. Queremos mesmo é
mostrar nossa música e celebrar quando estamos juntos tocando.

3. Houve alguma música “tirada da gaveta” para este novo álbum?
Eu não diria que tiramos uma música da gaveta. Mas houve um fato inusitado.
Tínhamos acabado de compor o álbum e eu e Megale estávamos esgotados e não
tínhamos a primeira música do álbum. Não tínhamos a música que abriria o álbum. Isto
é, a música que abriria a porta para que o ouvinte se interessasse em continuar na
jornada do The Dark Side of the Soul. Eu estava procurando algo e tentando incentivar o
Megale a fazer esta música, mesmo estando em uma exaustão física e criativa
inimaginável.

4. Comparando este vosso novo trabalho com os clássicos da banda, como é que
olham para a vossa evolução?
Acredito que estamos mais técnicos. Preservamos o lado “Mist” dos primeiros álbuns, é
claro. Mas hoje temos mais guitarras afiadas. Não que estivesse faltando, não é isto. É
que, na época, tínhamos poucos recursos para isto e agora, para estarmos caminhando
no nosso tempo, acreditamos que a banda merecia mais trabalhos de guitarra e o Megale
cobriu muito bem esta parte. É importante sublinhar que aqueles trabalhos foram
compostos 95 por cento por um baixista, o Cello Dias. Mantivemos o protagonismo do
baixo, é claro. O baixo no The Mist é e sempre foi um destaque importante.

5. O nome do álbum é “The Dark Side Of The Soul (An Anatomy Of The Soul)” e
muitas faixas fazem referência a partes do corpo, como cérebro, fígado, ossos e face. Como surgiu esta ideia e que ligação cada música tem com o conceito do álbum?
Tenho dito que este álbum nasceu cercado por corpos por todos os lados. Eu estava na
Faculdade de Medicina me graduando em Radiologia e eu estava na sala de Anatomia;
de repente, um corpo de uma senhora chega na sala. Novinho em folha! Acompanhei a
abertura do corpo e vi todos os órgãos, uma das visões mais sublimes que tive.
Imediatamente a ideia do álbum veio à minha cabeça e comecei a escrevê-lo. Não
queria escrever um álbum sobre anatomia, é claro, então fiz poesias metafóricas para
cada parte do corpo. A parte da anatomia é a segunda parte do álbum, que é dividido em
três partes.

6. Podem contar um pouco sobre essa estrutura e o que cada parte representa?
A primeira parte começa com The Curse of Life e ela dá um contexto de todo o álbum.
Todo mundo morre — e o que você está fazendo com a porra da sua vida!?
A segunda parte é a parte da Anatomia da Alma. Cada música, uma parte do corpo — e
a alma sempre em conflito com este corpo. Liver – Killing My Imaginary Friend, por
exemplo, é sobre aquele lance de agir com o fígado e não usar o cérebro, e todas têm
esse tipo de relação metafórica.
A terceira parte seria o final de tudo.

7. O novo single abre o disco com brutalidade. Por que escolheram esta faixa como abertura e como ela se conecta ao conceito do álbum?
Como disse antes, ela dá a pista do que vem pela frente. A alma gritando: “Acorde!”. E
esta música é tipo dois fantasmas conversando sobre a vida. A qualquer momento você
pode ser surpreendido pelo acaso e se fuder. Por isso a música alerta para você acordar,
viver a vida e provar o que ela te oferece.

8. O que ainda define os THE MIST em 2025? O que nunca mudou e o que fizeram
questão de reinventar?
O Thrash Metal contemporâneo. Manter a proposta do Thrash Metal original, mas
buscar torná-lo atual. Não é nada de “metalcorizar” o Thrash Metal, e sim trazê-lo para
o agora, com a textura atual e essa distopia das ruas, do no future, e mostrar pelo thrash
o que estamos passando agora. Nossa preocupação maior, principalmente a minha, é
estar falando sobre o nosso agora. Acredito que a arte, em geral, pede essa urgência.

9. Têm uma base de fãs fiéis desde os anos 80/90. Como é que é ver novas gerações a descobrir os vossos sons?
É emocionante ver a geração nova cantando Over My Dead Body, por exemplo. Temos
uma população significativa de “barbas brancas”, eles trazem seus filhos e contam
histórias para nós. Estamos nos sentindo bastante animados com a repercussão da banda
desde o EP. Havia uma certa aura de que o Thrash Metal seria um estilo superado, mas
cada vez mais estamos vendo bandas com esta atitude. O mais legal é que parece haver
uma preocupação em tentar fazer o novo thrash com a alma do thrash clássico.

10. Há planos para concertos ou uma digressão de divulgação do novo trabalho?
Estamos trabalhando para isto acontecer. Estamos ansiosos para mostrar a The Dark
Side of the Soul Tour na estrada. Ver pessoas usando nossas camisas e escutando nosso
álbum e, é claro, encontrar todos em nossos shows.

Agradecemos aos THE MIST por nos terem concedido o seu tempo e por partilharem connosco esta conversa reveladora.

Mal podemos esperar para ver a banda em palco a dar vida a The Dark Side Of The Soul.
https://www.instagram.com/themistband/

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