Porto Alegre, 14 de maio de 2025. Uma noite memorável no Teatro AMRIGS, entre sugestões visuais, potência sonora e momentos de pura conexão emocional. O evento, organizado pela Estética Torta, teve como protagonistas absolutos o icônico Fabio Lione, acompanhado por uma orquestra sinfônica, e a aguardadíssima banda de abertura, Dogma, vinda do sucesso no Bangers Open Air. Duas performances de estilo, unidas por uma intensidade artística comum que conquistou o público gaúcho.

Uma Entrada em Cena Carregada de Significado

As quatro musicistas subiram ao palco pontualmente às 19h, recebidas por um público curioso e já numeroso, ansioso por descobrir se a fama acumulada pela banda, impulsionada pelo sucesso no Bangers Open Air, era realmente merecida. E foi. Desde os primeiros instantes, a Dogma imprimiu uma direção clara à sua apresentação: potente, teatral, perfeitamente focada.

O impacto visual foi imediato: vestidas em uma original reinterpretação “metal” do hábito de freira – trajes pretos artisticamente cortados, fendas ousadas, maquiagem marcada – as musicistas declararam sem rodeios sua identidade. Mas por trás da estética havia muito mais: um set sólido, cuidadosamente pensado, executado com precisão e ardor.

Música que Impacta, Estética que Permanece

Durante os 45 minutos de show, a Dogma ofereceu um setlist coeso e direto, capaz de alternar momentos de pura agressividade sonora com fases mais melódicas e estruturadas. A banda demonstrou domínio tanto do palco quanto do espaço sonoro, com uma energia contínua e sem quedas. As guitarristas, em constante movimento e headbanging, deram ritmo visual à performance, enquanto a seção rítmica – uma bateria granítica e um baixo encorpado e definido – sustentou cada música com precisão milimétrica.

A voz da frontwoman foi um dos pontos altos do show: potente, expressiva, sempre sob controle, conseguiu interpretar cada canção com força e carisma, sem nunca ceder ao efeito de “máscara”.

O repertório proposto ofereceu um panorama abrangente do som da Dogma: entre as músicas executadas, destacam-se “Forbidden Zone”, “My First Peak”, “Made Her Mine”, “Banned”, “Carnal Liberation” e a provocativa “Father I Have Sinned”. Destaque também para o bem-sucedido cover de “Like a Prayer” de Madonna, que soube fundir o sagrado e o profano com originalidade e impacto, e a música final, “The Dark Messiah”, que encerrou o show de forma triunfal.

Cada canção foi acompanhada por uma forte presença de palco, enriquecida por uma direção não declarada, mas evidente: a interação da baixista com o público, descendo entre as poltronas para envolver diretamente a plateia, foi um dos momentos mais autênticos e apreciados da noite. Uma escolha simples, mas eficaz, para quebrar qualquer distância entre palco e espectador.

O clímax teatral veio no final: durante um solo instrumental, a vocalista saiu do palco para depois retornar com uma coroa de santa. Um gesto carregado de simbolismo, que elevou toda a performance de um simples concerto a um manifesto estético: entre religião dessacralizada, empoderamento feminino e pura espetacularidade.

Apesar do horário e do público ainda se acomodando, a Dogma soube capturar todos os olhares e ouvidos, oferecendo uma demonstração de força que as coloca, sem hesitação, entre as realidades mais interessantes e promissoras do cenário metal atual.

Fabio Lione & Orquestra: Uma Sinfonia Metal de Aplausos de Pé

Às 20h10, após a intensa abertura da Dogma, o palco se tingiu de luzes quentes e solenes. A chegada da orquestra deu início a um longo aplauso, seguido imediatamente pela entrada dos músicos de metal. Então, o momento tão esperado: Fabio Lione fez sua entrada, recebido por um verdadeiro rugido do público. A ligação entre Lione e o público brasileiro revelou-se imediatamente palpável, um abraço coletivo que atravessou todo o teatro.

Lione demonstrou mais uma vez ser um intérprete excepcional. Sua voz potente, versátil e impecável dominou as melodias com elegância e sentimento, fundindo-se perfeitamente com os arranjos orquestrais. Cada nota era uma declaração de intensidade emocional, cada agudo uma flecha direta ao coração do público. Mas não é apenas a técnica que o torna único: Fabio Lione é também um performer completo, capaz de transformar o concerto em um espetáculo vivo, dialogando com o público, brincando com ironia e guiando cada espectador por uma jornada feita de épica, nostalgia e envolvimento.

Um momento particularmente tocante foi quando ele convidou um casal de fãs da primeira fila para apresentar com ele “We Are the Champions” do Queen: um gesto simples, mas carregado de cumplicidade, que fez o teatro explodir em um único coro.

Symphony of Enchanted Lands: Uma Obra-Prima Revisitada

O coração pulsante do show foi a execução integral de “Symphony of Enchanted Lands”, obra-prima do Rhapsody, reapresentada de forma nova e magnífica graças ao suporte orquestral. De “Epicus Furor” a “Emerald Sword”, passando por “Wisdom of the Kings” e “The Dark Tower of Abyss”, cada música ganhou nova vida, exaltando a estrutura sinfônica original e conferindo um fôlego cinematográfico a cada passagem.

O arranjo destacou a extraordinária alquimia entre os mundos sonoros da música clássica e do metal sinfônico, confirmando a visão artística de Lione: derrubar as fronteiras de gênero para construir algo autêntico e grandioso.

Um Segundo Set de Arrepiar

Após a suíte principal, o segundo ato não ficou atrás. Em rápida sucessão, o público pôde vivenciar momentos intensos com “Knightrider of Doom”, “Land of Immortals”, “Rain of a Thousand Flames”, a emocionante “Lamento Eroico”, a majestosa “Holy Thunderforce” e a refinada “The Wizard’s Last Rhymes”. Cada música confirmou a extraordinária coesão entre os músicos, a orquestra e o coro, em uma sucessão de emoções capazes de fazer vibrar as paredes do teatro e a alma dos presentes.

Entre os momentos mais originais, houve também uma introdução dedicada ao cinema de horror italiano, com uma referência apaixonada a Dario Argento e à banda Goblin, testemunhando o ecletismo cultural de Lione e sua capacidade de conectar mundos aparentemente distantes.

O concerto terminou em verdadeiro triunfo com a lendária “Dawn of Victory”, recebida por um Teatro AMRIGS completamente de pé, transformado em uma catedral do metal onde cada espectador cantava, aplaudia e celebrava um momento que ficará na memória coletiva. A sinergia entre palco e plateia foi tão intensa que tornou evidente uma verdade: ninguém queria que terminasse.