A Krushers of the World Tour teve início em Lisboa, na Sala Tejo (MEO Arena), na noite de 20 de março de 2026, num concerto marcado por caos, peso e emoção, diante de um público em massa que não parou de se mexer desde as 18h20.
No cartaz, verdadeiros titãs da história do metal, cada um com a sua identidade bem definida: os mestres Carcass, fundadores do goregrind; os Exodus, pioneiros do thrash metal; e os Nails, representantes da brutalidade moderna com o seu powerviolence/hardcore punk. Tudo isto pelas mãos da sempre impecável Prime Artists.
NAILS
Os Nails foram os responsáveis por dar o pontapé inicial logo cedo, às 18h20 em ponto, já com a Sala Tejo surpreendentemente bem composta. Ao contrário do que muitos, inclusive eu, poderiam esperar para este horário, o público já se fazia presente em bom número e pronto para o caos.
Representando a nova geração num cartaz dominado por verdadeiros gigantes, os Nails trouxeram o seu powerviolence/hardcore punk direto de Oxnard, Califórnia, uma cidade com raízes na cena hardcore desde os tempos do movimento Nardcore dos anos 80.
Com uma abordagem crua, direta e sem qualquer tipo de rodeio, entraram como um soco na cara com “Suffering Soul”, seguida da brutal “Lacking the Ability to Process Empathy”, e depois “Conform”, numa sequência absolutamente esmagadora, daquelas que não te dão espaço para respirar nem para ficar parado.
O concerto seguiu praticamente sem pausas, com uma agressividade constante e controlada. Tudo muito rápido, muito intenso, muito direto ao ponto. Houve ainda um pequeno contratempo técnico durante “God’s Cold Hands”, quando o PA falhou momentaneamente. Mas a reação foi quase bonita de se ver: o público rapidamente começou a sinalizar com as mãos e lanternas dos telemóveis para alertar a banda. Quando perceberam, os músicos reagiram com leveza, riram, agradeceram e retomaram o concerto sem perder o ímpeto.
E assim, a descarga final veio com “Unsilent Death”, fechando o set com uma última explosão de energia, onde o público respondeu com um two step feroz e coletivo.
Foram cerca de 30 minutos de atuação. Curtos, mas absolutamente brutais! Uma estreia intensa em solo português, que prendeu todos desde o primeiro segundo e deixou claro que os Nails vieram para marcar presença. Circle pits, crowd surfings e caos foram a assinatura desta abertura.
EXODUS

Às 19h10, os pioneiros do thrash clássico Exodus subiram ao palco, marcando um regresso há muito aguardado. E não só isso: a noite ficou também marcada pela estreia ao vivo do 13º álbum de estúdio, Goliath, e não deu outra: a sala foi abaixo!
Com Rob Dukes de volta aos vocais, após mais uma saída de Steve “Zetro” Souza, e com Gary Holt agora disponível depois do fim da sua passagem pelos Slayer, a banda apresentou-se em força total.
O alinhamento foi um equilíbrio perfeito entre o clássico e o moderno, abrindo com “3111” e entrando de imediato, sem rodeios, na clássica e icónica “Bonded by Blood”. E era exatamente o que se esperava: cabeças a rolar sem parar, circle pits a abrirem no centro da plateia e crowdsurfers a passarem constantemente por cima de nós.
O set seguiu sólido, amarrando diferentes fases da carreira com temas como “Deathamphetamine”, “Blacklist” e “Promise You This”.
Mas foi quando Rob deu a ordem para entrarmos no thrash old school que tudo explodiu ainda mais. A sequência foi absolutamente destruidora: “A Lesson in Violence”, “The Toxic Waltz” (com direito a um gostinho inicial de “Raining Blood” dos Slayer) e ainda uma verdadeira raridade com “Death Row”, retirada da demo Rehearsal (1983), não tocada ao vivo desde 1986.
O encerramento veio em grande estilo com “Strike of the Beast”, acompanhado pelo pedido de um wall of death que o público executou com muito entusiasmo, trazendo um último momento de destruição máxima.
Em cerca de 50 minutos de atuação, os Exodus entregaram um concerto irrepreensível: intenso, bem construído e carregado de clássicos, daqueles que transportam qualquer fã diretamente para a era de ouro do thrash metal. Foi gigante!
CARCASS

Pouco mais de um ano depois da sua última passagem por Lisboa, no Music Station, tivemos novamente a oportunidade de presenciar a famosa precisão técnica e cirúrgica dos Carcass.
Foi exatamente aquilo que se espera da banda: uma apresentação direta, sem artifícios, onde a música e o legado falam mais alto do que qualquer outro elemento. Apenas o peso, a técnica e um alinhamento de temas que já fazem história.
Carcass é uma presença gigantesca e não precisa de muito para dominar o palco. Como uma das bandas mais influentes e pioneiras do metal extremo, bastou entrarem para que a resposta fosse imediata: mosh pits intensos, crowd surfings constantes e headbangings sem parar, numa performance que foi sempre em alta do início ao fim.
A execução foi, como esperado, absolutamente cirúrgica e poderosa, deixando o resto nas mãos do público, que respondeu à altura. Mas, desta vez, houve um detalhe especial: uma celebração elegante do clássico Heartwork (1993), com hinos como “Buried Dreams”, “No Love Lost”, “Carnal Forge”, culminando num encerramento triunfal com a própria “Heartwork”.
Ainda assim, houve espaço para revisitar diferentes momentos da carreira. A abertura com “Unfit for Human Consumption” deu logo o tom, e ao longo do set foram surgindo temas como “Incarnated Solvent Abuse”, “Dance of Ixtab”, “Genital Grinder”, “Exhume to Consume” e “Corporal Jigsore Quandary”. E o público? Sedento e completamente entregue, atento a cada detalhe!
Foram poucas palavras entre músicas, mas também não eram necessárias. Tudo foi direto ao ponto. Os gigantes estavam ali, mais uma vez, diante de nós. E isso, por si só, já basta.
Em pouco mais de 50 minutos, o que tivemos foi aquilo que eu chamo de uma verdadeira aula. Daquelas que poucas bandas conseguem dar com tantos anos de carreira, mantendo esse nível de consistência, peso e precisão. É sempre uma honra poder revê-los!
KREATOR

Após o concerto de dezembro de 2024, não tivemos de esperar muito para receber novamente em Lisboa os gigantes Kreator, e QUE SORTE A NOSSA! Confesso que até pensei que veria algo semelhante à última passagem… mas não. Superou todas e quaisquer expectativas. E não sou só eu: já ouvi relatos de que, de longe, esta foi uma das melhores apresentações da banda.
Às 21h30, a espera já apertava depois de horas em pé. Mas então começa aquele momento que quem conhece, sabe: “Run to the Hills” dos Iron Maiden ecoa no som mecânico, e toda a sala canta em coro. A ansiedade já estava no limite.
De repente, silêncio. As luzes se apagam. Começa “Eve of Destruction”, de Barry McGuire. Um contraste interessante, quase calmo, que prepara o terreno para o caos que viria a seguir. As luzes começam a acender lentamente sobre uma cortina branca… até ouvirmos o riff de “Seven Serpents”.
As sombras dos integrantes surgem por trás. E ali… naquele exato momento… era impossível conter minhas lágrimas. Quando a cortina cai, o que se instala é puro caos, emoção, e o público já em coro, completamente entregue!
A primeira coisa que preciso destacar é o palco. Simplesmente impecável. Uma produção digna de grandes arenas: os demónios laterais da Hate Über Alles Tour regressam, acompanhados pelos corpos pendurados. Mas tiveram novos elementos, com um gigantesco demónio ao fundo envolvendo a bateria, tudo remetendo ao novo álbum Krushers of the World, lançado a 16 de janeiro. Tudo maior. Tudo mais pesado. Tudo mais intenso!
E não era só visual: pirotecnia constante, calor subindo, e uma sala lotada a ferver. É absurdo. É daquelas experiências que se sente no corpo inteiro. É maravilhoso!
Mille Petrozza surge com um visual mais trabalhado, mais sombrio, completamente dentro da estética desta nova fase. E estava radiante. Disse, por vezes, que estava feliz por começar esta tour ali, conosco, e era fácil de sentir isso. E isso refletiu completamente na entrega da banda, que estava em altíssimo nível. Energia, presença, entrega total. E estamos falando de uma banda com mais de 40 anos de estrada… então isso é impressionante.
O setlist deu destaque ao novo álbum, mas sempre muito bem equilibrado com clássicos. Seguiram com “Hail to the Hordes”, e numa pausa, Petrozza agradeceu com emoção, reforçando o quanto aquela primeira noite significava. Ele então pede ao público para “mostrar o estilo português”, e assim nasce o caos com “Enemy of God” (com intro de “Coma of Souls”), seguida de “Satanic Anarchy”.
A banda sai momentaneamente, e entram os dois mascotes “Violent Mind”, com tochas, encarando o público. Um momento teatral forte. Logo depois, regressam com “Hate Über Alles”, cantada com força total por toda a sala.
Então, era hora de viajar no tempo. Vieram dois clássicos em sequência: “People of the Lie” (Coma of Souls, 1990) e “Betrayer”. O setlist estava impecável, costurando fases diferentes. Seguimos com “Krushers of the World”, com o palco literalmente em chamas. Depois “Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)”, com pedido de wall of death, e o que se viu foi um verdadeiro campo de batalha.
Já em “Satan Is Real”, o ambiente era de culto total, com fogo e todos a cantar juntos. Em “Loyal to the Grave”, Petrozza surge com asas negras, sem guitarra, numa performance mais emocional e visceral, em um momento diferente, intenso, fechando a presença do novo álbum no set.
Mais uma saída de palco, e os mascotes regressam com tochas e dois “corpos empalados”, ao som de “Mars Mantra”. Ateiam fogo… e o som explode com “Phantom Antichrist”.
Mas a essa altura já sabíamos que o fim estava próximo… mas ninguém queria aceitar. Seguem com “Endless Pain”, “666 – World Divided”, “Violent Revolution”… e claro, o encerramento obrigatório com o hino “Pleasure to Kill”.
E aí… já não há muito mais a dizer. Caos total. Circle pits, crowd surfings, cabeças a rodar sem parar. Aquela energia coletiva que só o thrash consegue criar. Foi emocionante. Foi bonito. Foi brutal!
É impressionante o que estes caras fazem ao vivo, e mais impressionante ainda como conseguiram superar o que já tinham feito em 2024 na mesma sala. E por volta das 23h, despedem-se brevemente, prometendo regressar. E eu? Já estou à espera disso, ansiosa, assim como todos os fãs que estiveram presentes.
Mais uma vez, como na última review, só posso terminar com o coração cheio: THIS IS KREATOR!


