Do Underground ao Palco Principal: Phornax Incendeia a Noite com Metal Gaúcho de Peso

Abrindo a noite com a força do metal gaúcho, a Phornax mostrou por que é um dos nomes mais promissores da cena local. A banda entregou um show enérgico, com riffs pesados, vocais intensos e uma presença de palco que capturou a atenção de todos desde os primeiros acordes. Mais do que um simples aquecimento, a apresentação da Phornax foi um verdadeiro manifesto de potência sonora, firmando seu nome entre os destaques do underground nacional.

Com entrosamento afiado e uma sonoridade que equilibra técnica e agressividade, o grupo soube como se conectar com o público e criar um clima de empolgação coletiva. Cada música parecia aumentar ainda mais a temperatura da casa, preparando o terreno de forma brilhante para o que viria a seguir. A Phornax provou que não apenas representa o metal do sul com orgulho, mas que está pronta para alçar voos ainda maiores no cenário nacional.
Técnica, Luzes e Emoção: Andy Addams Transforma Som em Espetáculo Visual

Logo em seguida, foi a vez de Andy Addams, artista instrumental que surpreendeu com sua performance técnica impressionante. Usando um colete com LEDs pulsando ao ritmo da música, Addams trouxe não só som de altíssimo nível, mas também um espetáculo visual.

Com solos afiados, grooves intensos e domínio absoluto do instrumento, o guitarrista conquistou o público que já preenchia a parte inferior do Opinião. O destaque também foi para o baixista, com linhas bem definidas e muito presentes, além da bateria precisa que sustentava tudo com firmeza. E a cereja do bolo foi um cover instrumental de Dragon Ball, que arrancou sorrisos e aplausos.
Kiko Loureiro: precisão, emoção e identidade

Às 21h00 mais ou menos, após uma introdução com sintetizadores e delay, Kiko Loureiro entra em cena, rompendo o clima etéreo com uma explosão sonora perfeitamente executada. Em instantes, o público é transportado para uma viagem musical entre o passado e o presente do artista, numa performance instrumental sem vocais, mas repleta de expressão.

A fluidez com que Kiko toca transforma técnica em arte. É possível ver claramente que sua guitarra é uma “extensão do seu corpo”. O repertório passeia entre suas composições solo, clássicos do Megadeth como “Dystopia”, e homenagens às raízes brasileiras com “Pau-de-Arara”.
Momento acústico e conexão emocional
Após uma sequência eletrizante, Kiko assume o violão e entra num momento mais íntimo, de grande sensibilidade artística. Ao lado de Alírio Netto, dividem o microfone e as emoções em versões acústicas de clássicos, incluindo uma poderosa interpretação de “Heaven and Hell” (Black Sabbath) misturada com “Late Redemption”.
A voz de Netto, precisa e forte nos agudos, encontra o equilíbrio perfeito com o toque de Kiko. É um respiro sonoro que antecede a tempestade.
Marty Friedman: a tempestade perfeita
O palco escurece. Uma trilha litúrgica ecoa. Relâmpagos sonoros anunciam a entrada de Marty Friedman, que chega com tudo, elevando os BPM e incendiando o palco.
Juntos, Kiko e Marty criam uma sinergia que vai além da técnica. Trocam fraseados como quem conversa com as mãos, uma verdadeira conversa musical entre titãs. É difícil saber se o público vibra mais com a velocidade dos solos ou com a elegância da composição.

Destaque para a versão da explosiva “Hyper Doom”, a energética “Tornado of Souls” (Megadeth), e uma ousada releitura de “Asa Branca / Brasileirinho” em formato metal, com direito a execução de samba com métrica perfeita na bateria. Sim, samba em metal, e funciona brilhantemente.
Kiko, em tom emocional, presta homenagem ao Rio Grande do Sul, tocando um trecho do hino estadual. Em seguida, embala o público com o hino nacional brasileiro em guitarra elétrica, momento que arrancou aplausos emocionados da plateia.

Logo após, o setlist mergulha nos clássicos do Angra, incluindo um poderoso medley com “Carry On”, “Spread Your Fire”, “Nova Era”, entre outros. Alírio retorna ao palco para “Nothing to Say”, “Angels and Demons” e, junto com a banda completa, executam uma magistral “Rebirth”, agora com Friedman somando sua guitarra ao espetáculo.
Tocar guitarra nesse nível não é só técnica, é poesia em movimento.
Kiko Loureiro e Marty Friedman não entregaram apenas um show: ofereceram uma aula de musicalidade, uma masterclass viva, embalada por emoção, respeito às raízes e paixão pelo som.
Em tempos de playlists descartáveis e shows superficiais, o que aconteceu hoje no Opinião foi uma afirmação poderosa: a música ainda tem alma, e ela fala alto quando tocada por mestres.
Texto Alessandro Siciliano e Giovanni Maglia
Fotos Giovanni Maglia


