Há bandas que envelhecem com as canções que fizeram. Outras conseguem fazer com que essas canções envelheçam connosco. Os Placebo pertencem claramente ao segundo grupo.
Formados em Londres em 1994 por Brian Molko e Stefan Olsdal, os Placebo apareceram numa altura em que o Britpop dominava grande parte da música britânica. Mas pouco havia neles que encaixasse confortavelmente nesse movimento. A estética ambígua de Molko, a fragilidade assumida das letras, as guitarras abrasivas e uma certa recusa em cumprir os códigos de masculinidade e comportamento associados ao rock fizeram da banda um corpo estranho no panorama da época.
Em 1996 chegou Placebo, o álbum de estreia que deu início a tudo. Temas como “Teenage Angst”, “Bruise Pristine” e, sobretudo, “Nancy Boy” colocaram rapidamente o grupo no mapa, com o disco a atingir o quinto lugar da tabela britânica e “Nancy Boy” a chegar ao quarto lugar entre os singles.
Era um disco cru, inquieto e provocador, carregado de sexo, alienação, drogas, relações destrutivas e dúvidas identitárias. Trinta anos depois, talvez seja precisamente essa ausência de conforto que explique por que razão muitas dessas músicas continuam a soar relevantes.

Dois anos mais tarde, Without You I’m Nothing confirmou que os Placebo não eram apenas uma excentricidade momentânea da cena alternativa. “Pure Morning”, “You Don’t Care About Us” ou a faixa título ampliaram o universo emocional da banda, ao mesmo tempo que o som se tornou mais ambicioso. Foi também nesta fase que surgiu uma das ligações mais simbólicas da carreira do grupo, com David Bowie a participar numa versão de “Without You I’m Nothing”.
A partir daí, os Placebo construíram uma discografia que nunca ficou completamente parada no mesmo lugar. Black Market Music, em 2000, tornou o som mais pesado e direto. Sleeping with Ghosts, de 2003, introduziu uma dimensão eletrónica mais evidente e tornou-se um dos trabalhos mais reconhecidos internacionalmente da banda, tendo chegado ao quarto lugar da tabela portuguesa.
Seguiram-se Meds em 2006, Battle for the Sun em 2009 e Loud Like Love em 2013. Entre guitarras, eletrónica e melodias cada vez mais expansivas, os Placebo foram mudando sem abandonar aquilo que sempre os tornou reconhecíveis, a voz nasal e vulnerável de Molko, o baixo de Olsdal e uma forma muito particular de transformar ansiedade, desejo, solidão e autodestruição em canções pop envoltas em ruído.

Depois de um intervalo prolongado entre discos de originais, Never Let Me Go, editado em 2022, mostrou uma banda que ainda procurava avançar em vez de viver exclusivamente da nostalgia. Foi o oitavo álbum de estúdio dos Placebo.
Agora, porém, chegou o momento de olhar para trás.
Em 2026 cumprem-se 30 anos sobre a edição do primeiro álbum e os Placebo decidiram assinalar a data de uma forma pouco convencional. Em vez de uma simples remasterização, regressaram às gravações originais para criar Placebo RE:CREATED, uma nova interpretação do disco de 1996 que incorpora três décadas de experiência e da transformação que aquelas canções sofreram nos palcos. Brian Molko e Stefan Olsdal descrevem o projeto como uma espécie de “director’s cut”, mais próxima da forma como hoje imaginam aquelas músicas.

E é precisamente aqui que entram Portugal, Porto e Lisboa.
A Placebo 30th Anniversary Tour começa no nosso país, a 28 de setembro na Super Bock Arena, no Porto, e prossegue no dia seguinte, 29 de setembro, no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, antes de seguir para o resto da Europa. As duas datas estão confirmadas no calendário oficial da banda.
Porque é que estes concertos são imperdíveis?
Porque não se trata simplesmente de mais uma passagem dos Placebo por Portugal.
O conceito desta digressão coloca os dois primeiros álbuns no centro do espetáculo, Placebo e Without You I’m Nothing, com a promessa de recuperar músicas que não são interpretadas ao vivo há mais de 20 anos.
Para quem acompanhou a banda desde os anos 90, será uma oportunidade rara de voltar a um período fundador, mas através de músicos que carregam três décadas de palco sobre essas mesmas canções.
Para quem chegou depois, talvez seja a oportunidade de perceber por que razão os Placebo causaram tanto impacto quando apareceram.
E há ainda um detalhe difícil de ignorar, a celebração começa aqui.
Porto e Lisboa serão as primeiras cidades a receber uma digressão europeia construída especificamente para assinalar os 30 anos daquele disco. Não estaremos perante uma tour que chega a Portugal depois de dezenas de datas e de um alinhamento já completamente testado. Estaremos nos dois concertos que abrem todo o ciclo.
Há também algo particularmente apropriado nesta celebração. Durante grande parte da carreira, os Placebo recusaram a ideia de serem apenas uma banda presa ao final dos anos 90. Agora podem finalmente regressar a esse passado sem viver dele.
Trinta anos depois, “Teenage Angst” deixou de pertencer apenas aos adolescentes, “Nancy Boy” já faz parte da história do rock alternativo e Without You I’m Nothing ganhou um significado que talvez nem a própria banda pudesse prever quando o gravou.
Os concertos de setembro serão, por isso, mais do que uma coleção de êxitos.
Serão um encontro entre os Placebo que começaram e os Placebo que sobreviveram.
E há aniversários que merecem mesmo ser celebrados em frente ao palco.
Os bilhetes já se encontram à venda nos locais habituais, com preços entre os 32 e os 50 euros.
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