Atrocitus transforma resistência em fio condutor de uma trajetória em construção | Brasil, 2026.
Resistência é a palavra que o próprio Atrocitus apontou como a mais próxima de sua trajetória, e ela continua sendo a melhor chave para entrar no álbum homônimo de 2022. Formada no Paraná em 2016, a banda foi construindo sua identidade sem se prender a uma única forma de fazer metal. Os primeiros registros já mostravam essa disposição: “Epitaph”, “Salvação” clipe ao vivo, “Repulsa”, “Self-Destruction” e “Just Accept” apresentavam um grupo ainda procurando o ponto de encontro entre agressividade, crítica e inquietação; Man(un)Kind, de 2020, tornou mais nítidos os temas ligados à autodestruição, ao bloqueio mental, à repulsa e ao desgaste de existir dentro de uma sociedade adoecida. O que permanece de uma fase para outra não é uma fórmula, mas a necessidade de reagir.
Em 2021, essa reação ganhou uma voz ainda mais direta. “Alienado” e “Martírio”, lançadas primeiro como singles, anteciparam parte do universo de O Que Será de Nós?. Com destaque, o uso do português aproxima o conflito do cotidiano e retira qualquer distância confortável entre quem escuta e aquilo que está sendo dito. “Alienado” mira a indiferença e a incapacidade de perceber a própria inserção numa realidade em colapso. “Martírio” leva o sofrimento para uma região mais escura, em que horror, violência e imaginário cinematográfico se encontram. As duas músicas já mostravam que o Atrocitus não estava interessado em agressividade como simples acabamento sonoro. O peso precisava carregar alguma coisa.
O EP O Que Será de Nós?, lançado ainda em 2021, reúne seis faixas e organiza esse incômodo quase como uma sequência de estados. “Alerta de Gatilho” prepara a entrada; “Mordaça” trabalha o silenciamento; “Martírio” mergulha no sofrimento; “Mãos Atadas” encara a violência e a perda de agência; “Alienado” amplia o foco para a passividade diante do desastre; e “Tenebris”, ligada à trilha do curta-metragem Martírio, fecha o trabalho deslocando a tensão para uma linguagem mais atmosférica. O arco vai da advertência à impossibilidade de falar ou agir, até chegar ao sujeito que corre o risco de já não reconhecer a urgência da própria reação.
Há um detalhe em “Martírio” que sempre me pareceu especialmente interessante: a presença de Mater Suspiriorum, Mater Lacrimarum e Mater Tenebrarum. As três mães remetem à tradição literária de Thomas de Quincey e à releitura cinematográfica de Dario Argento. No contexto do Atrocitus, essa referência não soa como citação colocada ali apenas para sofisticar a letra. Ela oferece uma forma mítica ao sofrimento que o restante do EP apresenta de maneira política, física e cotidiana. O horror deixa de ser fuga e se aproxima da experiência concreta. Quando a banda conecta essa música a um curta-metragem, esse movimento fica ainda mais evidente: som e imagem passam a trabalhar a mesma sensação de aprisionamento.
É justamente por isso que o primeiro álbum completo, Atrocitus, lançado em 28 de outubro de 2022, funciona melhor quando ouvido como continuação e ampliação desse caminho. Ele não é O Que Será de Nós? esticado para caber num full length. As oito faixas abrem outras frentes e deslocam o eixo da pergunta coletiva do EP para uma espécie de diagnóstico mais amplo. “Epidemia”, “Responsa”, “Peste”, “Tempestade”, “Ansiedade”, “Existência”, “Estátua” e “Ascensão” formam um vocabulário de contágio, responsabilidade, desordem, sofrimento psíquico, imobilidade e tentativa de movimento. A impressão que ficou é que o disco parece perguntar menos o que será de nós e mais o que já nos tornamos.
A abertura com “Epidemia” é difícil de separar do tempo em que o álbum foi criado. Em 2022, o Brasil ainda carregava no corpo social a experiência recente da pandemia, o acúmulo de mortes, o isolamento, o esgotamento e uma disputa política que contaminava até as relações mais banais. Mas reduzir a faixa a uma leitura literal seria pouco. Dentro do disco, epidemia e peste também funcionam como imagens de comportamentos que se espalham, de violências naturalizadas e de estruturas que adoecem coletivamente. “Responsa”, colocada entre as duas, introduz uma palavra cotidiana e quase seca para algo que atravessa todo o trabalho: quem responde pelo que acontece quando a deterioração deixa de parecer exceção e vira ambiente?
A partir de “Tempestade”, a minha preferida, o álbum começa a mudar de escala. A crise que vinha sendo observada de fora se aproxima do corpo e da mente, e “Ansiedade”, com participação de Tati Klingel, torna esse deslocamento explícito. Gosto dessa passagem porque ela evita uma separação artificial entre o político e o íntimo. Ansiedade não aparece num mundo vazio; ela existe dentro do mesmo espaço de pressão, medo, violência e instabilidade apresentado pelas faixas anteriores. “Existência” leva essa tensão para uma pergunta ainda mais funda, enquanto “Estátua” sugere imobilidade, paralisia e endurecimento. Quando “Ascensão” encerra o disco, o título parece prometer saída, mas não necessariamente uma resolução fácil. Depois de tudo o que veio antes, ascender também pode significar simplesmente conseguir voltar a se mover.
Percebo que essa sequência aproxima o disco de questões que já estavam presentes no EP. Mordaça, mãos atadas, alienação, responsabilidade, ansiedade e existência são imagens de agência: falar, agir, responder, perceber e continuar existindo sob pressão. É possível aproximar essa escrita de discussões sobre alienação, disciplina e biopolítica sem filiar a banda a uma ilustração acadêmica e sem ser pedante. O mais interessante é justamente o contrário. O Atrocitus pega problemas abstratos e devolve tudo ao corpo, à linguagem diária e à violência de situações reconhecíveis.
Musicalmente, o álbum também trabalha essa ideia de permanência sem imobilidade. O thrash continua fornecendo muito do corte e da urgência com abertura em ré menor, riff-thrash com palm-mute e segunda menor, BPM 160 e bateria em d-beat, mas há momentos interessantes em que os riffs engrossam em direção ao death metal (dale tremolo, rs), enquanto outras passagens usam groove e estruturas rítmicas mais contemporâneas para criar tensão. A bateria sustenta mudanças de impulso sem transformar o disco numa demonstração técnica, e baixo e guitarras mantêm uma massa sonora bastante física. Os vocais precisam competir com essa fúria, porque as palavras são parte da agressão. No Atrocitus, a técnica funciona melhor quando parece empurrar a letra para a frente, não quando tenta substituí-la.
A capa acompanha essa sensação de excesso e fragmentação. O logo quase invade a parte superior da imagem e, abaixo dele, o corpo humano aparece misturado a recortes, anatomia, manchas, traços e camadas que não se entregam de imediato. Não há uma figura limpa no centro para organizar o olhar. É preciso procurar. Essa dificuldade combina com um disco em que indivíduo e ambiente parecem continuamente contaminados um pelo outro. A arte tem algo de prontuário, colagem e ruína ao mesmo tempo, como se o corpo tivesse sido aberto não para explicar o que há dentro, mas para mostrar que já não existe uma fronteira clara entre interior e exterior.
O que muda do EP para o álbum é principalmente a escala. O Que Será de Nós? concentra o ataque em situações muito definidas de silenciamento, abuso, martírio e alienação. Atrocitus espalha essa inquietação por um campo mais amplo e deixa que a crise passe pela sociedade, pelo corpo e pela mente. Os singles “Alienado” e “Martírio” funcionam, retrospectivamente, como uma ponte importante entre esses dois momentos: ali já estavam a crítica social, o horror e o interesse pelo sujeito esmagado por forças maiores do que ele, mas ainda faltava o espaço de um álbum inteiro para que essas tensões chocassem entre si.
Por isso, resistência continua me parecendo a palavra mais precisa para ler a trajetória da banda e, especialmente, este disco. Ela não significa permanecer igual. Significa continuar criando sem perder a capacidade de se incomodar. Do EP aos dois singles e do EP ao álbum de 2022, o Atrocitus muda o enquadramento, amplia os temas e rearranja a própria linguagem, mas conserva uma coisa essencial: a recusa da indiferença. Se O Que Será de Nós? terminava deixando uma pergunta no ar, Atrocitus responde da maneira que uma banda consegue responder melhor: continuando a produzir, ocupar palco, transformar desconforto em música e fazer do peso uma forma de dizer que ainda há reação, que ainda estamos aqui.
Músicas:
- Epidemia
- Responsa
- Peste
- Tempestade
- Ansiedade (feat. Tati Klingel)
- Existência
- Estátua
- Ascensão
Formação na fase do álbum:
Huan (Weverson Huan): baixo e vocais
Pettrus (Petherson Trudes): guitarra e vocais
Ideraldo Ferreira: guitarra
Ian Schmoeller: bateria
Participação:
Tati Klingel: participação em “Ansiedade”
Ficha técnica:
Lançamento: 28 de outubro de 2022
Formato: álbum completo, 8 faixas
Duração: 36:42
Lançamento independente / ATRX Records
Composições: Petherson Trudes de Freitas, Weverson Huan da Cruz e Ideraldo Luiz Ferreira da Silva
“Ansiedade”: composição também creditada a Tatiane Klingelfus
Origem: Paraná, Brasil
Divulgação oficial:
Bandcamp: Atrocitus
Spotify: Atrocitus (2022)
YouTube: Atrocitus
Instagram: @atrocitus_cwb
Facebook: Atrocitus


