Harakiri For The Sky, 2025.

Se há algo que o Harakiri For The Sky faz como poucos, é transformar a dor em arte: em seu oitavo álbum de estúdio, Scorched Earth, a banda nos entrega uma jornada emocional intensa, cheia de peso, mas com uma beleza que é impossível de ignorar. Com uma sonoridade que mistura a crueza do black metal com a melodia do post-metal, o som da banda é moderno, limpo e, acima de tudo, expressivo.

Formada em 2011 nas cidades de Salzburgo e Viena, pelo vocalista Michael JJ Kogler (Karg) e pelo multi-instrumentista Matthias Sollak (ex-Bifröst, ex-Karg), a banda tem conquistado cada vez mais fãs ao redor do globo com melodias bem trabalhadas, letras expressivas e envolventes, sem deixar o peso, técnica e intensidade de lado.

Vale lembrar que a Tour Heal Me (promovendo novo álbum), terá uma edição na América Latina e passará pelo Brasil no mês de novembro deste ano, nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, seguindo depois para os demais países.

Scorched Earth entrega oito faixas (para venda no perfil da banda no Bandcamp, algumas edições contém 9 faixas), com diversas participações de diversos músicos, e entre as músicas, uma ficou bastante interessante, por ser da banda Radiohead – Street Spirit (Fade Out).

E assim como demais bandas da região (karg, Ellende etc), o gênero traz a mistura do black metal atmosférico (post-black metal), porém com ar bem mais melódico e também traços do grunge com o hardcore. O que faz o Harakiri For The Sky se diferenciar das outras, além do fato das letras serem em inglês, são as linhas modernas em suas composições no que diz respeito a parte instrumental, deixando som mais orgânico, definido e limpo, sem medo de ousar e com equilíbrio perfeito entre lirismo e vocal mais “rasgado”, por exemplo (e só para iniciar, poderia ir mais além e citar uso das linhas ‘orquestradas’, bateria etc).

E no que diz respeito às letras, assim como as bandas citadas anteriormente, no caso do HFS, são sobre desespero, perdas, caos e lutas existenciais, afastamento, e também temáticas que podem gerar gatilhos, particularmente este álbum, fala sobre como mundo está totalmente perdido e “quebrado”, sem qualquer esperança de melhoria, pessoas cada vez mais focadas em si e distantes. Então, a depender do caso, isso pode vir a levar a estágios de depressão, ou pensamentos de perda ou suicídio.

::: Aviso importante :::
Em cada país/região, existem linhas de atenção a saúde mental e prevenção do suicídio. Se você está passando por problemas de ordem psicológica, ou conhece alguém que esteja nesta situação, não exite em buscar ajuda. Não é vergonha alguma: peça ajuda, divida o fardo com alguém de sua confiança, em casos mais graves, ajuda profissional qualificada. Toda vida importa!

O álbum abre com “Heal Me”, que já dá o tom da obra: é uma faixa que tem o equilibrio perfeito entre a fúria da bateria com a melancolia das melodias da guitarra, criando um som que consegue ser ao mesmo tempo, agressivo, forte e belo. O peso da bateria, com suas batidas e viradas (gravadas pelo baterista Kerim “Krimh” Lechner, Septicflesh), servem como potência, como se fosse um coração que insiste em bater mesmo em meio a tanto sofrimento.

Já em “Keep Me Longing“, que tem uma introdução de piano be-lís-si-ma (!), que constrói a melancolia; aqui a melodia foi muito bem explorada e após a introdução, camadas de guitarra que se sobrepõem e a bateria agressiva, algo mais na linha entre death e black metal, intensifica a sensação de anseio e saudade que o título sugere.

Essa dualidade se mantém em faixas como “Without You I’m Just A Sad Song” e “No Graves But The Sea“. A primeira, em particular, deixa a sensação de tradução da tristeza em uma melodia que soa praticamente como um lamento, mas com uma intensidade que só o metal consegue entregar (afinal, por isso estamos aqui, certo? Paixão pela música que nos move..): “I don’t know what I’m supposed to do/ Always haunted by the ghost of you/ Take me back to the night we have met/ Cause without you I’m just a sad song/ I’m waiting for someone and can’t remember who/ But there’s a hole in my heart shaped just like you/ You’ve drawn memories in my mind that I can never replace/ You’ve painted colors in my heart which I can never erase”; versos que fariam David Coverdale chorar e criar outro álbum pra nos fazer sofrer mais ainda. Enquanto que na segunda, a melodia parece que chama e da uma certa sensação de desolamento; como se parecesse que não há um fim, só o mergulho em algo frio e infinito. A parte instrumental, em ambas, com as linhas de bateria precisas e as guitarras melódicas, criam ao vocal um cenário perfeito para expressar esse lamento e angústia.

Em “With Autumn I’ll Surrender”, a música desacelera, soando quase como algo mais pop, moderno, porém, com a entrada das guitarras e vocal, traz uma atmosfera um pouco mais sombria. A bateria se torna mais cadenciada, e o vocal de Kogler soa como um sussurro de desespero. É a trilha sonora perfeita para um momento de reflexão e aceitação da tristeza (caro leitor, por favor, não levar ao pé da letra a ‘aceitação dessa tristeza’, passamos por altos e baixos, porém, se ‘estar por baixo’ for uma constrante, volte ao aviso no início da resenha).

O álbum segue com a energia melancólica de “I Was Just Another Promise You Couldn’t Keep” e “Too Late For Goodbyes“, que são dois socos no estômago, só que com luvas de veludo. A banda entrega uma sonoridade pesada, mas com melodias que suavizam o golpe, mostrando o talento em contar histórias através de riffs harmônicos.

E no final, a banda nos dá um presente com a cover de “Street Spirit (Fade Out)“, do Radiohead. O Harakiri For The Sky mantém a melancolia e o desespero da canção original (coisa que aliás o Radiohead faz muito bem, afinal, quem nunca teve a insanidade de ouvir Fake Plastic Trees, estando numa felicidade absurda e depois da musica, numa tristeza sem fim, que atire a primeira pedra), mas a transforma em algo épico, com o peso do metal, e deixa a música totalmente diferente. É o tipo de cover que honra a música original, mas com a personalidade da banda.

Por fim, Scorched Earth não é um álbum fácil, mas é uma verdadeira obra de arte. A banda consegue unir as complexidades de sentimentos confusos de um ser humano e a beleza do som de uma forma única. Eles transformam sentimentos difíceis em algo que pode ser ouvido e apreciado; é o tipo de álbum que te convida a refletir, e mostra a maestria do Harakiri For The Sky em transformar emoções brutais e difíceis em uma obra de arte única e impactante.

Tracklist:
1. Heal Me (Tim Yatras / Austere)
2. Keep Me Longing
3. Without You I’m Just A Sad Song
4. No Graves But The Sea
5. With Autumn I’ll Surrender
6. I Was Just Another Promise You Couldn’t Keep
7. Too Late For Goodbyes (Serena Cherry / Svalbard)
8. Street Spirit (Fade Out) (P.G. of GROZA) – Radiohead Cover

Nota: 10/10.