
Lançado em maio deste ano pela Metal Blade Records, Bellum Regiis é o 13º álbum de estúdio da banda de blackened death metal Hate. Fundada em 1990 em Varsóvia pelo vocalista Adam Buszko, a banda passou por diversas formações e reformulações, mas com o passar dos anos, não apenas a temática, mas a extrema qualidade técnica se firmou como um de seus pontos mais fortes.
A primeira impressão ao ouvir este álbum não foi a de um resgate, mas de uma evolução consciente da banda como um todo. É como se estivesse apresentando um “novo Hate” (se deixar o antigo de lado): sem medo de ousar, com uma brutalidade e precisão impecáveis, mas também trazendo pinceladas passadas de sua identidade, como o lirismo dos vocais femininos.
A sonoridade de Bellum Regiis é a fusão perfeita entre a agressividade do death metal e a atmosfera sombria do paganismo e do próprio black metal. A precisão das guitarras é simplesmente visceral. O vocal de Adam continua impecável, cada vez mais limpo e potente, variando entre o gutural e o rasgado com uma técnica que eleva a narrativa do álbum a outro nível dentro do próprio gênero.
Porém, são nas faixas que a história se aprofunda: a faixa “Iphigenia“, por exemplo, com sua brutalidade implacável, e traz (para os fãs antigos), uma sensação de familiaridade, remetendo a riffs que transportam para momentos de álbuns como Erebos e Auric Gates of Veles. Ousaria dizer até, que há uma sonoridade que traz à mente a sequência de riffs iniciais de “Alchemy Ov Blood” (do album Solarflesh), e “Sovereign Sanctity”, mas de forma tão breve que parece um lembrete sutil da trajetória da banda (“ouçam este álbum, mas não esqueçam do nosso passado”, ou algo assim, mas apenas uso aqui percepção de alguém que está a anos-luz de conhecedora profunda, seja da banda ou do estilo).
Ao avançar, a faixa “The Vanguard” segue com um ritmo avassalador, com a bateria ditando um avanço como uma força que não pode ser parada.

O conceito pagão é a alma do álbum. Faixas como “Rite of Triglav” (um antigo deus eslavo de três cabeças) e “Perun Rising” (em homenagem a um dos deuses mais importantes do panteão eslavo) acredito ser o coração da narrativa, o que torna o álbum único: Perun, segundo a mitologia eslava, é o deus do trovão, o mais poderoso do panteão. E ao fazer a ligação do vocal adotando esse nome para seu novo codinome, não é absurdo concluir que a música “Perun Rising” se torna uma declaração pessoal; uma ascensão, uma jornada de transformação espiritual que é traduzida em som! A fúria da música não é apenas instrumental, é como se fosse o som de uma divindade se reerguendo e reafirmando.
Em meio a tanta agressividade, há um respiro com “A Ghost of Lost Delight“, uma música que traz de volta o lirismo e os vocais femininos, criando uma atmosfera sombria e melancólica, quase como uma assombração.
Já em “Alfa Inferi Goddess of War”, a letra traz a temática de guerra e divindade, com um ritmo marcial e riffs que soam como um verdadeiro chamado ao combate. Ideia de poder e destruição, com vocal entregando a fúria de “uma deusa em batalha”. E assim permanece quando passamos para “Prophet of Arkhen“, retoma a brutalidade com uma urgência que é quase profética, que soa quase que como um anúncio de caos.
Por fim, temos “Ageless Harp of Devilry“, que ao meu ‘ouvir’, foi a mais intrigante do álbum: o título por si só já cria uma imagem grandiosa: a de um instrumento místico, uma harpa, que emana uma melodia diabólica e atemporal, com os riffs de guitarra que parecem ser os “acordes” dessa figura mística. Elas se harmonizam de uma forma que criam uma melodia hipnotizante, quase como se o intuito fosse realmente ser atraído por uma canção de ninar demoníaca. É uma música que, apesar de pesada, é totalmente envolvente e mística, funcionando como um final sombrio e épico para o álbum; uma melodia que gruda na mente e ali fica por um tempo.
No fim, Bellum Regiis é um testemunho da longevidade e da evolução do próprio Hate. É um álbum que, apesar de sua brutalidade, nos faz refletir sobre a história, a mitologia eslava com outro olhar (e não apenas lembrando do país e o contexto no século XX); e também até a jornada pessoal, e o quanto tudo isso se encaixa e tendo uma única direção: o futuro. É uma obra autêntica e totalmente diferente, porém, a identidade da banda é tão distinta que, se fosse apenas instrumental, seria possível identificá-la facilmente (sem erro).
Hate:
Adam Buszko – vocal e guitarra
Dominik “Domin” Prykiel – guitarra
Tomasz “Tiermes” Sadlak – Baixo
Daniel Rutkowski – bateria
Tracklist:
1.Bellum Regiis
2.Iphigenia
3.The Vanguard
4.A Ghost of Lost Delight
5.Rite of Triglav
6.Perun Rising
7.Alfa Inferi Goddess of War
8.Prophet of Arkhen
9.Ageless Harp of Devilry
Nota: 10/10.

