Karg, 2025. Foto: Aleksandar Kos.

Em Abril deste ano, a banda austríaca Karg lançou Marodeur, o oitavo álbum de estúdio pela AOP Records.

Com oito músicas, todas em alemão, o estilo da banda é o que atualmente “classificam” como post-black metal: uma mistura de black metal atmosférico, com doses (na medida certa), de melodias e lirismo, e com pitadas que lembram grunge e também o post punk. Particularmente eu chamaria de “black metal experimental”, pois apesar de ter riffs mais fortes, bateria “dentro do estilo”, a qualidade técnica, som preciso, melodias bem trabalhadas, destoam um pouco do que conhecemos como black metal.

No que diz respeito às letras, podemos dizer que são basicamente sobre melancolia, rompimentos de relacionamento, amores perdidos, afastamento, e também temáticas que podem gerar gatilhos, mas que nos levam à reflexão como abuso de drogas, depressão, ou pensamentos de perda ou suicídio.

::: Aviso importante :::
Em cada país/região, existem linhas de atenção a saúde mental e prevenção do suicídio. Se você está passando por problemas de ordem psicológica, ou conhece alguém que esteja nesta situação, não exite em buscar ajuda. Não é vergonha alguma: peça ajuda, divida o fardo com alguém de sua confiança, em casos mais graves, ajuda profissional qualificada. Não apenas em relação às questões psicológicas e/ou psiquiatricas, em caso de abuso de drogas, lícitas ou não, também procure ajuda! Toda vida importa!

Uma curiosidade sobre a banda é que além das letras serem em alemão, são escritas no dialeto falado perto das montanhas Tennen, local onde o vocalista (Michael J.J. Kogler) cresceu.

Com um som que se move entre a brutalidade e a melancolia, Marodeur é uma viagem intensa. A faixa de abertura, “Schnee ist das Blut der Geister” (A Neve é o Sangue dos Fantasmas), já nos lança em um cenário gélido e introspectivo. O som é grandioso e atmosférico, com riffs que nos levam a vastidão de paisagens cobertas por neve. Em seguida, “Findling” (Encontrado) mantém esse ar melancólico, mas com uma dose (na medida certa) de uma agressividade crescente, refletindo a luta e o peso dos sentimentos que carregamos.

A próxima faixa, espero que a impressão e significado possam bater. Por não ser meu idioma nativo, traduzi as letras e tentei associar a complexidade das mensagens, com o “sentimento” ao ouvir o álbum. Dito isso, a profundidade de “Yūgen” (que é um termo/conceito chinês, mas totalmente adotado pelo japonês para profundidade misteriosa, ou em outras palavras, uma beleza sutil e intangível que não pode ser totalmente expressa ou vista de forma direta, mas que é sentida), é uma música que respira, com momentos mais calmos e introspectivos, mas que se fundem com a intensidade do black metal, criando uma atmosfera que transborda emoção.

Capa Marodeur, Karg 2025.

A transição para “Verbrannte Brücken” (Pontes Queimadas) é praticamente um desabafo. A música é pura melancolia e até um certo desespero, traduzindo em som a dor dos rompimentos e a dificuldade de seguir em frente.

O álbum continua com a melancolia em “Annapurna” (e aqui um agradecimento aos meus professores de geografia, pois este é o nome da montanha mais mortal do mundo e fica no Nepal, Cordilheira do Himalaia; também é o nome de uma deusa da mitologia hindu, associada à comida, nutrição e equilíbrio, sendo uma forma de Parvati, esposa de Shiva), que soa como se fosse uma escalada emocional, e “Reminiszenzen einer Jugend” (Lembranças de uma Juventude), uma reflexão sobre o passado e as memórias que nos assombram. Ambas as faixas são um prato cheio para quem aprecia a combinação de peso e lirismo, além de gerar reflexões, pois afinal, quem não passa por estas situações?!

O encerramento com “Kimm” (e se as pesquisas estão corretas, é um outro dialeto para “borda” ou “limite”) e “Anemoia” (Nostalgia por um tempo que você nunca viveu) é poderoso. Enquanto Kimm nos leva a um limite, seja emocional ou físico, Anemoia, basicamente é a famosa “saudade do que nunca vivi”, ou seja, um passado que nunca tivemos.

Marodeur é um álbum para ser ouvido com atenção, um verdadeiro deleite para quem busca mais do que peso em uma banda de metal. É uma obra de arte que explora as profundezas da alma humana, e o Karg prova, mais uma vez, sua maestria em traduzir sentimentos complexos em música.

Karg:
V. Wahntraum: Vocal
Paul Färber: Bateria
Daniel Lang: Guitarra
Georg Traschwandtner: Guitarra
Christopher Pucher: Guitarra e Backing Vocal

Tracklist:
1.
Schnee ist das Blut der Geister
2.Findling
3.Yūgen
4.Verbrannte Brücken
5.Annapurna
6.Reminiszenzen einer Jugend
7.Kimm
8.Anemoia

Nota:10/10