O Hardmetalfest 2026 aconteceu no passado sábado, dia 10 de Janeiro de 2026, e não foi apenas mais um festival. Foi uma verdadeira declaração de guerra ao tédio, ao frio de janeiro e à rotina! Durante doze horas intensas, Mangualde transformou-se no epicentro do metal extremo, provando mais uma vez que este evento é sagrado para qualquer fã do género.

Realizado no passado dia 10 de janeiro de 2026, o Hardmetalfest, o festival de metal mais antigo da Península Ibérica, teve também o privilégio de ser o primeiro grande festival do ano, mantendo viva a tradição sob a organização irrepreensível de Rocha Produções.
Com um cartaz composto por 11 bandas, incluindo várias estreias em Portugal, o evento apresentou um alinhamento de enorme peso e diversidade. Destroyer 666, The Crown e Asagraum surgiram como nomes de maior destaque, mas todas as restantes propostas demonstraram um nível artístico à altura da reputação do festival. Ao longo de doze horas ininterruptas de música extrema, Mangualde voltou a afirmar-se como território sagrado para a cultura underground.
WAROUT
A responsabilidade de abrir um festival como o Hardmetalfest nunca é leve, mas os WAROUT trataram de a transformar numa oportunidade para deixar uma marca profunda logo nos primeiros minutos. A banda portuguesa trouxe para Mangualde aquela energia interminável à qual já nos habituou ao longo dos anos, e fê-lo sem qualquer cerimónia: com a verdadeira metralhadora humana na bateria, Luís Moreira, não houve espaço para aquecimentos nem complacência. O que era suposto ser apenas o arranque de mais de onze horas de música tornou-se, desde logo, um concerto de impacto, que agarrou o público e definiu o ritmo do que estava para vir.
Apesar de ainda ser o início da tarde, o recinto encontrava-se já muito bem composto, com muita pedalada dentro e fora do palco, num reflexo direto da entrega da banda. As guitarras rápidas, a bateria imparável e os vocais rasgados, sem qualquer fragilidade, construíram um thrash metal puro e cru, daqueles que não precisa de artifícios para conquistar. Os WAROUT não abriram apenas o festival, abriram uma ferida sonora que ficou bem aberta até ao último acorde da noite.

DISHONOUR
Se os WAROUT abriram as hostilidades, os DISHONOUR aprofundaram imediatamente a escuridão. A banda portuguesa de blackened death metal, com temáticas profundamente luciferianas, misantrópicas e anticristãs, entregou uma atuação que foi uma autêntica aula de como se constrói um concerto extremo com identidade e propósito. Desde os primeiros instantes, ficou claro que não se tratava apenas de agressividade sonora, mas de uma experiência imersiva que nos puxava para as profundezas do negro, sem nunca se tornar monótona. Um blackened death metal que nunca cansa, porque oferece sempre algo novo a cada passagem.
Os vocais cavernosos de Marco Ferreira acrescentaram uma camada extra de brutalidade a um instrumental que já era, por si só, esmagador, criando uma atmosfera sufocante e hipnótica. A nível estético, a banda reforçou ainda mais esse buraco negro em que o público mergulhou ao longo de toda a atuação. As guitarras rápidas impunham um ritmo brutal e impiedoso, enquanto as passagens mais lentas ofereciam breves momentos para recuperar o fôlego, apenas o suficiente para preparar o impacto da violência que inevitavelmente se seguia.
Uma atuação que confirmou os Dishonour como uma das propostas mais sólidas e consistentes do underground nacional.

TONES OF ROCK
Se até então o ambiente era dominado pela escuridão extrema, os Tones of Rock trataram de o virar completamente do avesso, e fizeram-no com uma facilidade quase desconcertante. O seu glam/hard rock energético, contagiante e luminoso trouxe uma lufada de ar fresco ao festival, sem nunca quebrar a intensidade do evento. Esta é uma daquelas bandas que, concerto após concerto, consegue sempre apresentar algo novo, e isso é algo raro e digno de enorme reconhecimento. Energia e qualidade são dois elementos que estão sempre presentes no ADN do quarteto, e absolutamente nada lhes consegue roubar isso.
O momento mais alto da atuação surgiu a meio do concerto, quando o vocalista abandona o palco e regressa com uma roupa diferente e um teclado nas mãos, surpreendendo tudo e todos com uma entrada inesperada de teclados progressivos e sci fi, seguida de uma passagem de Star Wars protagonizada por uma icónica “espada de luz”. Entre o fator surpresa, a intensidade do tema e a resposta imediata do público, o resultado foi um momento absolutamente memorável, que manteve todos os olhos colados ao palco do primeiro ao último segundo. E quando parecia que as surpresas tinham terminado, surgiu ainda uma boneca insuflável, elevando a festa a outro nível.
Mais do que um concerto de hard rock, os Tones of Rock ofereceram uma verdadeira celebração da música, vivida com enorme alegria pelos quatro músicos em palco e recebida de braços totalmente abertos por um público para quem era simplesmente impossível não se render.

ELS FOCS NEGRES
Anunciados no final de dezembro como substitutos dos Tysondog por motivos de força maior, os Els Focs Negres entraram em palco com a missão ingrata de ocupar uma vaga de peso, e saíram de Mangualde como uma das atuações mais marcantes do dia. O que se seguiu foi uma autêntica manifestação daquilo que muitos ainda chamam de atitude trve: sem filtros, sem pudores, sem medo de ofender e sem concessões. Monsenyor Bthzr, o vocalista, revelou-se um verdadeiro animal de palco, completamente anárquico, comandando o espetáculo com uma presença dominante, crua e visceral, daquelas que não se ensaiam, nascem.
Musicalmente, o seu Blackened Speed/Heavy Metal soou feroz, direto e carregado de veneno, enquanto o facto de cantarem maioritariamente em catalão apenas reforçou a identidade singular da banda. Num dos momentos mais simbólicos da atuação, o guitarrista Hugo Conim, abandonou o palco para tocar no meio do público, dissolvendo por completo a barreira entre banda e audiência. Para fechar, a escolha foi tão óbvia quanto perfeita: um cover de “Rock ’n’ Roll“, dos Motörhead, hino maior do espírito que os Els Focs Negres personificaram do primeiro ao último segundo. Uma atuação sem amarras, sem regras e sem misericórdia, exatamente como o metal deve ser.

DOOMHERRE
Os Doomherre tiveram a honra de ser a primeira banda totalmente internacional a pisar o palco do Hardmetalfest 2026, trazendo diretamente de Estocolmo a sua abordagem pesada e hipnótica ao doom/stoner metal. O trio apresentou-se exatamente como se espera do género: estruturas sólidas, andamento arrastado e uma ênfase absoluta nos riffs, que dominaram a atuação do primeiro ao último tema, envolvendo o recinto numa nuvem densa de peso e groove.
O timbre característico do vocalista Victor Takala destacou-se como um dos elementos mais marcantes do concerto, acrescentando identidade e personalidade a uma sonoridade já muito bem definida. A sua voz, profunda e levemente rugosa, encaixava de forma perfeita sobre os riffs densos e arrastados, criando um ambiente quase ritualista, onde cada nota parecia pesar toneladas. O som dos Doomherre constrói-se numa combinação equilibrada entre o peso do doom tradicional e a fluidez hipnótica do stoner, com grooves lentos que se instalam no corpo e não largam, enquanto a secção rítmica sustenta tudo com uma precisão simples, mas absolutamente esmagadora. O resultado foi uma atuação que não procura velocidade nem impacto imediato, mas sim uma imersão gradual, sufocante e profundamente envolvente, daquelas que se sentem tanto no peito como na cabeça.
Em palco, era impossível não notar o entusiasmo dos 3 elementos, visivelmente tocados pela forma calorosa e acolhedora como a banda foi recebida em Portugal. Um momento de comunhão que reforçou ainda mais a ligação entre músicos e público. Os Doomherre vieram estabelecer território e provar que o espírito do Hardmetalfest atravessa fronteiras sem esforço.

DARKNESS
Já tínhamos vivido muitas horas de música quando os Darkness, veteranos do thrash metal alemão formados em 1984, fizeram a sua estreia absoluta em Portugal e mostraram imediatamente porque continuam relevantes décadas depois. Com riffs cortantes e bateria implacável, a banda não perdeu tempo e transformou o recinto num verdadeiro campo de batalha sonoro. O público respondeu à altura: durante todo o concerto, o mosh pit foi uma constante, um turbilhão de corpos a acompanhar a energia feroz da banda. Cada tema parecia arrancar mais suor e adrenalina da plateia, enquanto os músicos alternavam entre velocidade pura e momentos mais calculados, mantendo todos completamente cativos.
O thrash dos Darkness não se limitou a ser apenas rápido e agressivo. Havia também uma presença de palco sólida e comunicativa, que mantinha o público envolvido do primeiro ao último acorde. Embora esta fosse a primeira vez que a banda pisava solo português, rapidamente conquistaram o público com a sua técnica precisa, intensidade implacável e uma atitude que respirava a verdadeira essência do thrash clássico.
Foi uma atuação brutal e direta, que preparou o terreno na perfeição para os nomes que se seguiam, deixando a promessa de que os Darkness tinham, finalmente, chegado para ficar na memória dos fãs nacionais.

WARRANT
Coube a Asagraum a honra de serem os primeiros dos três headliners a pisar o palco do Hardmetalfest 2026, e desde muito antes da sua entrada já se sentia no ar que este seria um dos momentos mais aguardados do dia.
A banda é relativamente recente, formada em 2015, mas já conta com uma legião de fãs enorme por toda a Europa. Asagraum apresentaram-se finalmente em Portugal pela primeira vez, numa estreia que, para muitos dos presentes, justificava por si só a longa viagem até Mangualde. E não houve desilusões! Aquilo que se seguiu confirmou todas as expectativas e elevou ainda mais o estatuto da banda no panorama do black metal contemporâneo.
Fundada pela vocalista e guitarrista Obscura, a banda conquistou rapidamente reconhecimento na cena underground internacional graças à sua devoção absoluta ao verdadeiro espírito do black metal dos anos 90, bebendo diretamente de influências como Darkthrone, Mayhem e Watain. Embora seja conhecida como uma formação composta exclusivamente por mulheres, nesta atuação contou com um homem no baixo, sem que isso retirasse um único grama à força simbólica do projeto. Musicalmente, Asagraum são uma força bruta: riffs gélidos, andamento impiedoso e uma atmosfera sufocante que envolve o público como um ritual antigo e proibido.
Mas é em palco que a banda atinge a sua forma mais completa. A atuação foi marcada por uma presença intensa, hipnótica e carregada de simbolismo ocultista, refletindo uma rara fusão entre poder feminino e devoção total ao lado mais obscuro do metal extremo. Cada música parecia um feitiço lançado sobre o recinto, com o público completamente entregue desde os primeiros instantes até ao último acorde. Sendo a banda mais esperada por muitos dos presentes, Asagraum acabaram, sem qualquer dúvida, por protagonizar um dos pontos mais altos de toda a edição do Hardmetalfest 2026.

DESTROYER 666
Chegou finalmente o momento dos Australianos Destroyer 666, verdadeiros mestres do black/thrash metal, subirem ao palco como segundo headliner da noite. A entrada não podia ter sido mais direta: “We are Destroyer… Fuck you!”, gritou o vocalista Felipe Plaza Kutzbach, e a resposta do público foi imediata. O recinto estava completamente cheio, e o mosh pit arrancou nos primeiros segundos, mantendo-se inabalável durante toda a atuação, transformando o espaço num verdadeiro turbilhão de energia extrema.
A intensidade do concerto fez com que a sala atingisse o pico máximo de temperatura, tanto sonora como emocionalmente. A banda alternou com mestria entre thrash puro e temas mais lentos, carregados de atmosfera black, mostrando porque são considerados mestres na composição e na performance. Cada riff, cada batida e cada vocal rasgado parecia calculado para esmagar e envolver o público, numa demonstração de técnica e brutalidade que não dava espaço para distrações.
E, apesar da hora que já iam avançada, do cansaço acumulado e das doze horas de festival, ninguém parecia sentir fadiga. Todo o cansaço desaparecia automaticamente perante uma atuação tão avassaladora quanto esta. Foi impossível ficar indiferente ! Os Destroyer 666 dominaram o palco com autoridade, entregando um espetáculo extremo que ficará gravado na memória de todos os presentes, reafirmando o seu estatuto lendário dentro do metal extremo.

THE CROWN
Já perto do final da noite, subiu ao palco o terceiro e último headliner, os suecos The Crown, mestres do Melodic Death/Thrash Metal, formados em 1998. Mesmo sendo já bastante tarde e com o cansaço a começar a fazer efeito em alguns fãs, a grande maioria manteve-se firme, ansiosa por assistir a uma das atuações mais aguardadas desta edição do Hardmetalfest. A energia da banda, combinada com riffs afiados e vocais rasgados característicos, fez com que a noite atingisse um dos últimos ápices de intensidade.
Embora o recinto já não estivesse tão cheio como durante a passagem dos Destroyer 666, a entrega dos presentes que resistiram foi absoluta. Os moshes surgiam de forma pontual, mas cada tema era acompanhado com entusiasmo e respeito pelo que se estava a presenciar – uma banda veterana, sólida e intransigente no seu estilo, capaz de equilibrar melodic death metal com passagens de thrash velozes e brutais, mantendo o público colado ao palco do primeiro ao último acorde.
The Crown confirmou, sem margem para dúvidas, o porquê de ser um dos nomes mais ansiados desta edição. Cada riff cortante e cada mudança de ritmo mostrava a mestria da banda em fundir melodic death metal e thrash metal, equilibrando agressividade e melodia de forma impecável. Mesmo com o cansaço já presente no público, a energia em palco era contagiante, e muitos fãs resistiram até ao último acorde, cantando e fazendo headbanging com intensidade.
O setlist, cuidadosamente construído, alternava momentos de brutalidade extrema com passagens mais técnicas e melódicas, mantendo todos atentos e entregues. Ao longo da atuação, tornou-se claro que a banda veio para criar uma experiência memorável, provando que, mesmo no final de uma longa maratona de metal de doze horas, é possível entregar força, precisão e emoção. A sua performance foi intensa, meticulosa e carregada de técnica, deixando claro que, apesar do cansaço e da hora tardia, a paixão pelo metal extremo e melódico ainda é capaz de mover multidões e criar momentos inesquecíveis em Mangualde.

TVMVLO
Coube aos portugueses TVMVLO a tarefa de encerrar o Hardmetalfest 2026, um desafio nada fácil perante a magnitude do festival e o cansaço acumulado do público. Ainda assim, a banda mostrou-se à altura, entregando um death metal intenso e sem concessões, capaz de agarrar os últimos resistentes e manter a chama do festival acesa até aos derradeiros momentos. A responsabilidade era enorme: fechar um dia que contou com mais de doze horas de música extrema, headliners internacionais e um cartaz repleto de bandas de grande peso, mas os TVMVLO não recuaram.
Apesar da hora tardia e do público já fatigado, a banda conseguiu criar uma atmosfera pesada e envolvente, com riffs poderosos, bateria implacável e vocais que rasgavam o ar, reafirmando a força do metal nacional. Os TVMVLO conseguiram proporcionar um final à altura do festival, deixando a certeza de que, mesmo depois de um dia intenso, o espírito do metal extremo em Mangualde continua mais vivo do que nunca.
O Hardmetalfest 2026 voltou a provar o porquê de ser o festival de metal mais antigo da Península Ibérica, resistente ao longo de tantos anos. Desde os portugueses Warout e Dishonour, passando pelo hardrock contagiante dos Tones of Rock, a intensidade avassaladora de Els Focs Negres, o peso hipnótico dos suecos Doomherre, o thrash direto dos Darkness, o power/speed dos alemães Warrant, até às atuações de arrepiar dos 3 headliners Asagraum, Destroyer 666 e The Crown, terminando em grande com os nacionais TVMVLO, o dia 10 de janeiro transformou Mangualde num verdadeiro epicentro do metal extremo. Com mais de doze horas de música, um público incansável e um ambiente de comunhão única, a edição deste ano demonstrou que nem o frio de janeiro é capaz de conter a paixão dos fãs pelo metal em todas as suas vertentes.
Um agradecimento especial vai para Rocha Produções, organizador incansável e principal responsável por manter a chama do metal viva na região de Viseu, e todo o staff envolvido, cujo profissionalismo e dedicação tornaram possível este evento colossal. Sem eles, não seria possível criar um espaço seguro, intenso e vibrante onde dezenas de bandas e milhares de fãs se encontram todos os anos.



