A Amplificasom, mais uma vez, conseguiu um marco histórico para a música extrema em Portugal, e em particular, para a história do Music Station. A tempestade sonora de Blood Incantation inundou o recinto no passado sábado, dia 18 de Outubro de 2025, num regresso a Portugal absolutamente inesquecível.

Vários minutos antes da abertura oficial de portas, marcada para as 19h30, já uma longa serpente humana se estendia pela entrada do recinto. A fila, que parecia não ter fim, revelava bem a dimensão da antecipação.
Mas muito antes disso, ao longo da tarde, o Oriente transformara-se num verdadeiro ponto de convergência para devotos do death metal. T-shirts de Blood Incantation multiplicavam-se pelas ruas, esplanadas e transportes, criando uma atmosfera quase cerimonial. Não se tratava apenas de mais um concerto, era um acontecimento aguardado com fervor! Fãs viajaram de norte a sul do país, e até de além-fronteiras, para testemunhar uma das noites mais ansiosamente esperadas do ano para a música extrema.
AUTHOR & PUNISHER
Embora o nome mais sonante da noite fosse o dos norte-americanos Blood Incantation, a expectativa em torno de Author & Punisher era palpável. Havia no ar uma mistura de curiosidade e reverência, como se o público soubesse instintivamente que estava prestes a testemunhar algo singular. Para além disso, a atuação carregava um significado especial que poderia facilmente passar despercebido aos menos atentos: tratava-se do aniversário de Tristan Shone. Essa coincidência feliz acrescentou uma camada íntima a um espetáculo já de si intenso, transformando a noite lisboeta num momento gravado não só na memória do público, mas também (e talvez sobretudo) na alma do próprio artista.
Passando agora a falar da atuação: Escrever sobre a mesma terá tanto de fácil como de difícil. Fácil, porque foi uma apresentação arrebatadora, intensa, violenta e completamente absorvente. Difícil, porque nada do que se passou em palco era propriamente “normal”, no melhor sentido da palavra. Há concertos que se ouvem e há concertos que se vivem. Este foi daqueles que se sentiu na pele, nos ossos e no estômago.
Se os sintetizadores e a guitarra já eram expectáveis, tudo o resto foi uma verdadeira revelação, mesmo para quem já conhecia o projeto. Roldanas e manípulos de equipamentos industriais, rodas mecânicas e um conjunto de engenharias personalizadas compunham um arsenal que parecia saído de uma fábrica pós-apocalíptica. Cada peça tinha uma função sonora específica, transformando matéria bruta em som e som em catarse. Tristan Shone, mentor e único elemento do projeto, manipula cada componente com uma precisão quase cirúrgica, mas com a intensidade de alguém que está em transe criativo, acompanhado do guitarrista Doug Sabolick.

Entre faixas do mais recente álbum Nocturnal Birding (2025) e clássicos mais antigos, tudo foi executado com uma garra absolutamente visceral. Tristan estava possuído pela própria música, e isso não era apenas audível, era visível! O rosto contraía-se, o corpo movia-se em espasmos descontrolados, como se cada batida e cada ruído metálico lhe atravessasse a espinha. E, inevitavelmente, essa energia contaminou o público. A comunicação foi quase silenciosa, sem necessidade de grandes palavras ou gestos teatrais: bastou a intensidade pura e crua que emanava do palco para envolver a sala inteira.
No final, ficou a sensação de termos assistido a algo único, que desafia as formas tradicionais da performance ao vivo. Foi uma experiência sensorial total, uma colisão entre homem, máquina e emoção. E noites assim, Lisboa não esquece.

BLOOD INCANTATION
O momento mais aguardado da noite chegou envolto numa atmosfera densa, quase solene. Mas a verdade é que o espetáculo começou bem antes da primeira nota musical da banda. Arrancou em festa animada com Pocket Calculator (Kraftwerk) a tocar, e todos os presentes a dançar, sem exceção (digam agora que os metaleiros são mauzões…).
Assim que as luzes baixaram e as primeiras notas de Absolute Elsewhere (2024) ecoaram pelo recinto, a sensação coletiva foi de suspensão no tempo. O público, que até então fervilhava de expectativa, mergulhou num silêncio reverente, como quem assiste ao início de um ritual. Tocada na íntegra, a obra funcionou como um portal, de forma lenta, hipnótica, cósmica, e Lisboa foi engolida para dentro desse universo sonoro próprio de Blood Incantation: um lugar onde o death metal se estende para lá da brutalidade e se transforma em algo transcendental.
As aberturas atmosféricas e psicadélicas das faixas deste álbum mergulharam o público num vórtex cósmico, enquanto os riffs intrincados e progressivos teceram camadas de tensão e libertação. Passagens lentas e densas alternavam com explosões de velocidade e complexidade rítmica, com a bateria a pulsar como um coração sideral e o baixo a sustentar um peso tectónico que parecia abalar o chão. Os vocais cavernosos, ora sussurrados, ora guturais e rasgados, intensificaram a sensação de viagem intergaláctica. Cada transição e cada clímax musical foram recebidos com fascínio pelo público, que reagiu com silêncios de contemplação e, nos momentos de ápice, com aplausos estrondosos e vibração coletiva, demonstrando a perfeita sintonia entre banda e audiência.

No final dessa jornada inicial com Absolute Elsewhere, Paul Riedl (vocalista e guitarrista) partilhou uma memória com a audiência: “da última vez que estivemos aqui, foi algures num pavilhão no meio de nada”, referindo-se à sua atuação em 2017, em Almada. A reação foi imediata, com aplausos e um rugido de entusiasmo coletivo. Nesse instante, a ligação entre banda e público deixou de ser apenas musical e tornou-se humana, próxima, calorosa.
A seguir, mergulharam no passado com uma sequência de faixas mais antigas, resgatando a crueza e a intensidade que os tornou uma das bandas mais fascinantes do death metal moderno – The Giza Power Plant, The Vth Tablet (Of Enûma Eliš) e Obliquity of the Ecliptic foram as faixas escolhidas para esta viagem temporal. Os riffs, densos e labirínticos, pareciam dobrar o espaço, enquanto a bateria pulsava como um coração interestelar. Era impossível ficar indiferente. Os corpos moviam-se em uníssono, começaram a chover crowd surfings, cabeças abanavam num transe partilhado, e cada grito de guerra lançado pelo público era devolvido pelo palco com a mesma fúria cósmica.

Apesar de um tema planeado ter ficado de fora (um pequeno detalhe que deixou alguns fãs a suspirar por mais) a intensidade nunca perdeu força. Cada faixa parecia prolongar-se para além do tempo linear, num crescendo constante que oscilava entre o peso sufocante e momentos de pura contemplação sonora. Esta dualidade, entre brutalidade e beleza, é a marca de água da banda: conseguem fazer o death metal respirar, expandir e contar histórias.
À medida que a noite se aproximava do fim, ficou no ar aquela sensação rara e preciosa de ter assistido a algo maior do que um simples concerto. Foi uma experiência partilhada entre palco e plateia, entre gritos e silêncio, entre terra e cosmos. Blood Incantation não vieram apenas tocar, vieram rasgar o tecido da realidade, mesmo que por instantes, e Lisboa deixou-se levar de bom grado para esse outro lado.

Setlist: 1- Pocket Calculator (Kraftwerk song); 2- The Stargate [Tablet I]; 3- The Stargate [Tablet II]; 4- The Stargate [Tablet III]; 5- The Message [Tablet I]; 6- The Message [Tablet II]; 7- The Message [Tablet III]; 8- The Giza Power Plant; 9- The Vth Tablet (Of Enûma Eliš); 11- Obliquity of the Ecliptic; 12- Wind Of Change (Scorpions song).
O dia 18 de outubro de 2025 ficará gravado na memória coletiva de todos os que ali estiveram. Um dos concertos mais aguardados do ano deixou uma marca profunda e indelével, daquelas que não se explicam, apenas se sentem. Foi uma viagem transcendental, onde o tempo se diluiu e tudo o que restou foi som, energia e comunhão. Nenhuma regra, nenhum julgamento, nenhuma sombra de tristeza, apenas a experiência crua e libertadora de estar presente.

Um agradecimento sentido à Amplificasom por ter tornado possível esta noite inesquecível!
Podes consultar o álbum completo de fotos aqui:

