No passado dia 4 de outubro de 2025, tivemos o privilégio de assistir à estreia de Eivør em Portugal, num concerto memorável que teve lugar no Hard Club, no coração do Porto, sob a organização da Free Music Events. Foi uma noite mágica, em que viajámos musicalmente até às Ilhas Faroé e à Islândia, guiados por Eivør, Ásgeir e Elinborg, que nos revelaram as paisagens gélidas, mas deslumbrantes, das suas terras de origem.

EIVØR, por @__thepennylane

Ainda faltavam alguns minutos para a abertura de portas, e já a entrada do Hard Club se via cheia de gente. A estreia de Eivør em Portugal era esperada por muitos e há muito tempo! Agora, neste fim de semana de Outono, seria possível concretizarmos o sonho de conhecer o prodígio das Ilhas Faroé, também conhecida pela sua participação na icónica série The Last Kingdom.

Mas Eivør não veio sozinha. Trouxe consigo a sua irmã Elinborg, também natural das Ilhas Faroé, e, das vizinhas terras da Islândia, o talentoso Ásgeir. Juntos, estes três artistas ofereceram-nos uma autêntica viagem sonora, onde se cruzaram harmoniosamente o neo-folk, a eletrónica, o alternativo, o jazz e o rock. Foi uma noite intensa e envolvente, daquelas que permanecem gravadas na memória e no coração de todos os que tiveram o privilégio de estar presentes.

Público, por @__thepennylane

ELINBORG

Eram exatamente 20h30 quando os dois músicos que acompanhariam Elinborg subiram ao palco, recebidos por uma onda de gritos e aplausos vindos do público. Poucos segundos depois, Elinborg entra em cena, completando o cenário que nos iria envolver nos próximos 30 minutos.

Antes mesmo de soar a primeira nota, a artista conseguiu instaurar uma atmosfera de serenidade e harmonia na sala apenas com a sua presença e movimentos leves. E, quando finalmente se ouviram as primeiras notas vocais, essa sensação intensificou-se, preenchendo o espaço com uma calma quase etérea. A sua voz é de uma pureza angelical, mas simultaneamente poderosa, capaz de prender todos os olhares e silenciar o murmúrio da multidão.

Elinborg, por @__thepennylane

Musicalmente, Elinborg revelou-se uma artista de enorme sensibilidade e maturidade, dominando o palco do Hard Club com uma elegância discreta mas profundamente cativante. O seu som, enraizado no folk nórdico e tingido de melancolia eletrónica, criou uma atmosfera íntima que contrastava de forma bela com a imponência do espaço. As suas canções, tecidas por camadas subtis de sintetizadores e batidas etéreas, conduziram o público por um universo sonoro onde a tradição faroesa se funde com uma produção moderna e refinada.

Um dos pontos altos da atuação surgiu logo com o segundo tema, Trøyst (em inglês, Comfort). Cantado na sua língua materna, esta faixa fala sobre encontrar conforto na ausência de quem amamos, e foi nesse contraste entre dor e ternura que Elinborg prendeu o público. A sua interpretação, intensa e sincera, envolveu a sala numa atmosfera melancólica onde cada palavra parecia ecoar de forma quase espiritual.

Ao longo do concerto, em algumas faixas, Elinborg pegava na sua guitarra, acrescentando pequenas nuances de rock ao seu característico neo-folk eletrónico. Esses momentos revelaram uma artista em plena exploração de novos horizontes sonoros, capaz de equilibrar delicadeza e força, sem perder a sua identidade.

Quando o último tema, mais intenso e de maior peso musical, chegou ao fim, o público respondeu com aplausos calorosos e prolongados. Foi o encerramento perfeito para uma estreia memorável em Portugal, onde Elinborg conquistou corações e deixou a promessa de um regresso ansiosamente aguardado.

No Porto, Elinborg mostrou que não precisa de grandes artifícios para comover profundamente. A sua voz delicada, mas firme, carrega uma verdade rara, daquelas que tocam sem pedir licença. Com uma presença serena e harmoniosa, e uma composição livre, criativa e instintiva, a artista ofereceu algo genuinamente único: uma música que transcende géneros e convenções, revelando uma beleza pura, quase hipnótica, capaz de envolver todos os que a ouviram.

Elinborg, por @__thepennylane
Setlist: 1(Unknown); 2- Trøyst; 3- Sjórok; 4- Kærleikin; 5- Blóð.

 

ÁSGEIR

O segundo nome a subir ao palco foi Ásgeir, que surgiu sozinho, acompanhado apenas pelos seus teclados, mesa de mistura e guitarra. Assim que entrou, dirigiu-se de imediato ao teclado, sem introduções, sem palavras, deixando que a música falasse por si. O início repentino apanhou de surpresa os mais distraídos, marcando o arranque de um momento intimista e hipnotizante, típico da sensibilidade do artista islandês.

Ásgeir, por @__thepennylane

O concerto foi uma verdadeira imersão nas paisagens sonoras da Islândia: frias, serenas e profundamente humanas. Desde a primeira nota, criou-se uma atmosfera gélida e ambiental, quase como se o público tivesse sido transportado para o coração das montanhas islandesas. Mesmo nos breves silêncios entre temas, essa aura de tranquilidade e harmonia permanecia intacta, sustentada pela delicadeza e precisão de cada nota.

A versatilidade instrumental de Ásgeir revelou-se ao longo de todo o espetáculo. Entre o neo-folk intimista e uma eletrónica minimalista que, por momentos, se aproximava do trap, o artista mostrou-se mestre em equilibrar contrastes entre o orgânico e o digital, entre o calor humano e a frieza das máquinas. Em muitos temas, as texturas eletrónicas criadas na sua mesa de mistura entrelaçavam-se com a suavidade do piano, formando um cenário sonoro etéreo, onde a voz frágil mas hipnótica de Ásgeir pairava como neblina sobre uma paisagem gelada.

Um dos momentos mais marcantes surgiu no terceiro tema, quando o artista se levantou e empunhou a sua guitarra acústica para interpretar Julia, uma canção nova que só será lançada em 2026. No Porto, tivemos o privilégio de ouvi-la em primeira mão, num instante de pura intimidade, em que apenas a sua voz e as cordas preenchiam o espaço. Logo de seguida, Ásgeir regressou às origens, presenteando o público com uma faixa do seu álbum de estreia, cantada em islandês, como uma ponte entre o passado e o futuro do seu percurso artístico. Seguiram-se mais 5 temas da sua carreira e discografia que nos deram um pouquinho de todas as suas fases artísticas.

Apesar da sua timidez evidente, Ásgeir irradiava uma simplicidade e gratidão genuínas. A sua presença em palco, discreta mas magnética, provou que não são precisas muitas palavras para estabelecer uma ligação profunda com o público: basta a sinceridade da música.

No final, ficou a sensação de termos assistido a algo raro: um concerto que não se ouviu apenas, mas que se sentiu, como o eco suave de uma montanha distante.

Ásgeir, por @__thepennylane
Setlist: 1- (Unknown); 2- Dreaming; 3- Julia; 4- Dýrð í dauðaþögn; 5- Ferris Wheel; 6- Sugar Clouds; 7- (Unknown); 8- Going Home.

EIVOR

A sala 2 do Hard Club encheu-se por completo para receber Eivør, naquela que foi a sua estreia em Portugal. Desde o momento em que subiu ao palco, sentiu-se uma energia diferente no ar, uma expectativa silenciosa, mas carregada de emoção. O público, atento e rendido, preparava-se para embarcar numa viagem musical pelas paisagens gélidas e poéticas das Ilhas Faroé.

Eivør, por @__thepennylane

O concerto abriu com Jarðartrá e Salt, faixas que estabeleceram de imediato o tom místico e atmosférico da noite, entre batidas tribais e camadas vocais hipnóticas. Ao longo da primeira parte, Eivør navegou entre temas novos e clássicos, misturando o folk nórdico ancestral com eletrónica moderna e guitarras etéreas, numa fusão que só ela consegue tornar orgânica. Quando chegaram as três canções de The Last Kingdom, incluindo a poderosa Lívstræðrir, o público vibrou. Muitos dos presentes eram fãs da série e reconheceram instantaneamente as melodias épicas que se tornaram inseparáveis da voz profunda e arrebatadora da artista. O Hard Club tornou-se, por momentos, um cenário cinematográfico onde a música e a emoção se fundiram.

Seguiram-se então vários temas da já extensa carreira e discografia de Eivør, que ao longo dos anos tem explorado diferentes sonoridades sem nunca perder a sua identidade. Cada canção foi recebida com entusiasmo e entrega pelo público. O concerto transformou-se numa viagem musical e emocional, e a diversidade do repertório mostrou não só a versatilidade artística de Eivør, mas também a sua capacidade de criar ligações profundas através da música, independentemente do idioma, do estilo ou do ritmo.

Um dos momentos altos da noite surgiu quando Ásgeir regressou ao palco para acompanhar Eivør numa interpretação sublime de Us and Them, dos Pink Floyd. A combinação das duas vozes criou uma atmosfera quase transcendental, uma leitura delicada, envolta em melancolia e harmonia, que se destacou como uma das mais belas surpresas da noite.

Eivør, por @__thepennylane

Pouco depois, foi a vez de Elinborg, irmã de Eivør, subir ao palco. Juntas, interpretaram Upp Úr Øskuni, num dos momentos mais emocionantes de todo o concerto. A cumplicidade entre as duas era palpável: olhares cúmplices, sorrisos subtis e uma energia que só laços de sangue e arte podem gerar. Foi um instante de pura comunhão, tanto entre as irmãs como com o público, que reagiu com comoção e entusiasmo.

A reta final deste concerto trouxe um tom mais intimista: dois dos músicos retiraram-se e ficou apenas Eivør, acompanhada pelo violinista/baixista e pelo seu característico bombo, num trecho que destacou a força da sua presença em palco e a intensidade das suas interpretações. Depois de Trøllabundin, o palco ficou vazio mas as palmas ecoaram com tanta força que o encore era inevitável. A artista voltou para encerrar com Falling Free, num final catártico e envolvente. O público, ainda em transe, respondeu com aplausos estrondosos, gritos e sorrisos.

Eivør, por @__thepennylane

No Porto, Eivør não apresentou apenas um concerto, ofereceu uma experiência sensorial e espiritual, numa noite em que o som, a emoção e o silêncio se tornaram uma só coisa. Foi um espetáculo de rara intensidade, onde cada nota parecia nascida do vento e do mar do norte, e que deixou todos os presentes com a sensação de terem vivido algo verdadeiramente único.

Setlist: 1- Jarðartrá ; 2- Salt; 3- Gullspunnin; 4- Í Tokuni; 5- Lívstræðrir; 6- The Last Kingdom; 7- Hymn 49; 8- Let It Come; 9- Boxes; 10- So Close to Being Free; 11- Us and Them (Pink Floyd cover with Ásgeir); 12- Enn; 13- Upp Úr Øskuni (with Elinborg); 14- Trøllabundin; Encore; 15- Falling Free.

 

Foi assim que se viveu este sábado de outono: três atuações de enorme talento que nos transportaram para as paisagens geladas, mas deslumbrantes, do norte da Europa. Entre sons etéreos, vozes arrepiantes e texturas que flutuavam entre o folk e a eletrónica, Eivør e companhia cativaram o público com performances intensas e emotivas, capazes de transformar cada nota num eco profundo de beleza, fragilidade e emoção pura.

Obrigada Free Music Events por terem tornado esta noite possível, e por terem colocado memórias inesquecíveis em todos os presentes!

Podes consultar todas as fotos do evento aqui: