No final da tarde de quinta-feira, 18 de dezembro de 2025, o espaço Lovers & Lollypops, no Porto, tornou-se o palco de encontro para duas propostas intensas do metal contemporâneo. HETTA, acompanhados pelos Idle Hand, apresentaram dois concertos que serviram não apenas como celebração da música ao vivo, mas sobretudo como o momento de apresentação em palco de Acetate, o mais recente álbum dos HETTA.

Num ambiente intimista, característico do espaço, o concerto desenrolou-se ao final da tarde. Esta proximidade refletiu-se não só na atenção concentrada da audiência, mas também na entrega das bandas, criando um contexto propício à audição ativa e à partilha. O cenário ideal para uma noite dedicada tanto à descoberta como à afirmação artística.
IDLE HAND
Eram 19h15 quando os portuenses Idle Hand subiram ao palco do Lovers & Lollypops, provando rapidamente que o rótulo de “banda de abertura” era curto para a magnitude do que estava prestes a acontecer. Perante um recinto já esgotado, o quarteto formado em 2022 não se limitou a preparar o terreno para os cabeças de cartaz. Eles dominaram o espaço por direito próprio. O que ouvimos foi um Doom/Sludge que bebe da tradição mais pesada, mas que se recusa a ficar estagnado no lodo, elevando a fasquia logo nos primeiros acordes com uma presença de palco autoritária.

O grande motor desta experiência foi, sem dúvida, a prestação vocal: uma voz rasgada e carregada de um desespero visceral que, em vez de se desgastar, parecia ganhar uma força renovada a cada tema. A expressividade e a rouquidão evocavam imediatamente a herança de projetos como Dawnbringer, mas com uma identidade própria que cortava o ar. Esta intensidade era sustentada por linhas de baixo monumentais, que serviam como a espinha dorsal de cada composição. O baixo não era apenas acompanhamento, era uma estrutura física, impossível de ignorar, que garantia que mesmo nos momentos de maior caos, a música mantinha uma coesão esmagadora.
No entanto, a verdadeira assinatura dos Idle Hand reside na sua imprevisibilidade composicional. Longe dos clichés do género, a banda revelou uma sofisticação rara ao fundir riffs lentos e melancólicos com solos épicos que remetem para o classicismo de Iron Maiden. A estrutura das canções desafia as regras, saltando com uma naturalidade desconcertante de passagens densas do stoner, para explosões rítmicas que chegam até a roçar o Punk ou o Black Metal.
No final, ficou a certeza de que a composição da banda é um organismo vivo, capaz de surpreender a cada mudança de tempo e de transformar uma noite de quinta-feira numa celebração de sombras e virtuosismo. Foi uma atuação irrepreensível e de uma entrega absoluta, que deixou claro que os Idle Hand são hoje uma das propostas mais vitais e impactantes do underground nacional.

HETTA
O concerto que se testemunhou a seguir é o que acontece quando a urgência criativa encontra o caos controlado (e por vezes, descontrolado). Com uma sala completamente esgotada, o ambiente era de eletricidade estática pura. O público, comprimido e fervilhante, entregou-se a um mosh constante que serviu de coreografia brutal para a apresentação de Acetate. Jogar em casa trouxe uma responsabilidade acrescida, mas os Hetta transformaram essa pressão num combustível volátil, provando que o novo álbum não é apenas um registo de estúdio, mas uma entidade viva que respira e grita melhor no meio do suor e da proximidade.

Em palco, a banda operou como uma unidade de alta voltagem. Os quatro membros viveram cada segundo com uma intensidade e adrenalina gigante, mas foi o vocalista quem roubou o fôlego da plateia. Com uma postura de um verdadeiro animal de palco, parecia possuído pelas próprias composições, movendo-se de forma errática e visceral. Acetate é uma descarga de energia crua e essa crueza foi personificada num frontman que não apenas cantava, mas exorcizava cada palavra, completamente dominado pela cadência frenética do post-hardcore da banda.
O som do grupo é definido por contrastes sonoros, onde a voz característica do vocalista, marcada por gritos rasgados e um timbre único, cortava o ar como uma lâmina. No entanto, a dinâmica vocal ganhou novas camadas ao vivo com o apoio constante do baixista e guitarrista. Os seus vocais, cortantes e desesperados, criavam um diálogo de agonia e urgência que elevava a tensão das novas faixas. Esta dualidade vocal reforça a ideia de que Acetate é um trabalho de caos meticuloso, onde o desespero não é apenas ruído, mas uma ferramenta narrativa usada para prender o ouvinte pelo pescoço.

No final, o concerto reafirmou os Hetta como uma das forças mais vitais da música pesada nacional contemporânea. A transição das texturas mais densas e experimentais de Acetate para o palco foi impecável, mantendo a honestidade brutal que a crítica já tinha antecipado. Quem saiu da sala, saiu exausto, não apenas pelo esforço físico do mosh, mas pelo desgaste emocional de assistir a uma banda que entrega tudo o que tem. Foi o regresso a casa perfeito e a confirmação de que, com este novo álbum, os Hetta já não estão apenas a subir degraus, estão a incendiar a escada.



