
“The Same” é o novo trabalho do Vertebra, um álbum conceitual que mergulha nas fissuras da repetição social, na alienação do mundo moderno e na luta silenciosa por pensamento crítico e autonomia. Com 11 faixas gravadas nos estúdios Undercave (Florianópolis), Aleph (Porto Alegre) e finalizado no Tiago Studio, o disco foi produzido de forma totalmente independente, sem concessões. O resultado? Um registro extremamente técnico, visceral e, acima de tudo, bonito de se ouvir , no sentido mais brutal da palavra. Musicalmente, The Same é um passo firme na consolidação da identidade do Vertebra. A banda alcança aqui uma maturidade absurda, com arranjos bem estruturados, produção limpa, mas agressiva, e riffs que homenageiam sem imitar , é impossível não sentir a presença de Chuck Schuldiner em diversos momentos, principalmente nas escolhas melódicas e no entrosamento entre as guitarras. É Death Metal no espírito, mas com personalidade própria.

A coesão do Vertebra se reflete na entrega de cada integrante: Arildo Leal comanda as guitarras e vocais com precisão cortante, construindo riffs que são tanto agressivos quanto melódicos; Fernando Luzardo, nas guitarras, complementa com harmonia e peso, criando camadas densas e bem equilibradas; Tiago Vargas, no baixo e vocais, entrega linhas firmes, criativas e fundamentais para a força rítmica do álbum , sua presença é sentida em cada segundo; e Cristiano Hulk, na bateria, guia tudo com brutalidade técnica, mantendo o caos sempre sob controle. O entrosamento entre os quatro é evidente: não há excesso, não há ausência , só entrega total. A jornada começa com Oblivion, que já entrega uma abertura potente, sem firula. A linha de baixo se destaca de cara: encorpada, técnica e com dinâmica própria. É um som que chama atenção tanto pela execução quanto pelo sentimento. A faixa já deixa claro que o disco veio pra ser ouvido com atenção , não é barulho por barulho. É barulho com direção.
Behavior in the Eyes, que já havia sido apresentada como single, confirma tudo isso. O riff inicial é uma aula de precisão e agressividade. É impossível não lembrar dos tempos de Symbolic ou Individual Thought Patterns, tamanha a fluidez da palhetada e o bom gosto das variações. A faixa cresce, alterna bem entre momentos mais diretos e passagens mais intrincadas, sem perder coesão. E tudo soa natural. Na sequência, Humanity questiona não só no conteúdo lírico, mas também na construção sonora. Os vocais guturais ganham destaque aqui , secos, firmes, muito bem encaixados. Há uma tensão crescente que culmina num dos momentos mais marcantes do álbum: o coro “HU-MA-NA-TY” cantado em uníssono, que arrepia não só pela força, mas pela sinceridade da entrega. Behind the World acelera o disco com uma bateria violenta e precisa, sem exageros. Os blasts são bem colocados e deixam espaço para a respiração dos riffs. Aqui, o peso e a melodia se equilibram com habilidade. A sensação é de urgência , como se tudo estivesse prestes a desabar, mas ainda assim com ordem.
Overcoming the Void traz um dos momentos mais ousados do disco. É densa, trabalhada, com estruturas que se entrelaçam e desafiam o ouvinte, mas nunca confundem. Uma faixa “experimental” no bom sentido: as melodias parecem desconectadas em certos momentos, mas tudo se encaixa no final. É técnica servindo à emoção. O vazio, aqui, é superado com som , e que som. 10.000 and One Nights é uma joia instrumental. Os riffs brilham com elegância, em frases que lembram o lirismo técnico de Schuldiner, mas com assinatura própria. É daquelas faixas que poderiam durar o dobro sem cansar. Uma homenagem à guitarra bem feita, sem exagero nem exibicionismo.
The Same, a faixa-título, resume a proposta do álbum: é pesada, direta, com alternância entre passagens cadenciadas e momentos de ataque frontal. O clima opressivo é construído com detalhes , harmonias dissonantes, pausas bem posicionadas, e uma execução tão limpa que permite absorver cada nuance da composição. Architecture of Perspective traz novamente a banda brincando com estrutura e tempo, explorando contrastes sem perder a agressividade. É uma música que exige do ouvinte, mas recompensa com camadas ricas. A crítica à forma como vemos o mundo se traduz em riffs angulados, como se questionassem o ouvinte a cada nota. 95 Eyes é sombria, quase paranoica. Há um peso emocional aqui que transborda nos vocais, que soam cansados , no bom sentido. Cansados de olhar, de serem olhados. O instrumental acompanha, criando um clima de tensão crescente, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer.
Fanatic and Picturesque alterna brutalidade e ironia com maestria. Os riffs são secos, certeiros. A estrutura é mais reta, mais direta, e isso só reforça o conteúdo: por trás do “belo” pode estar o mais cruel. É uma faixa forte, com refrão marcante e riffs afiados como lâmina. Por fim, Blessed Are the Forgetful fecha o álbum com amargura e lucidez. É um encerramento melancólico, mas não derrotado. O instrumental é cadenciado, arrastado, como se carregasse o peso de tudo que veio antes. A mensagem final , que esquecer é um alívio, mas lembrar é necessário , fica martelando na cabeça. Não há exagero, só verdade.
The Same é um disco feito com cuidado, peso e propósito. É brutal sem ser gratuito. Técnico sem ser frio. Emocional sem ser melodramático. A produção independente não impediu o Vertebra de entregar um trabalho extremamente profissional, digno de figurar ao lado dos grandes nomes do gênero. E se há algo que esse disco prova, é que ainda há espaço para beleza dentro do caos , desde que você tenha ouvidos para ouvir.
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5 Caveiras 💀💀💀💀💀
Nota 10

