Há bandas que a gente descobre por causa de uma música e outras que acaba descobrindo por causa de uma fase da vida.
Com o Sonata Arctica, pode acontecer qualquer uma das duas coisas. No meu caso, foi por causa de uma fase da minha vida.
Talvez alguém tenha conhecido a banda por meio do álbum Ecliptica e tenha ficado fascinado por aquela combinação de guitarras velozes, teclados e melodias impossíveis de tirar da cabeça. Talvez tenha sido “Silence”, “Winterheart’s Guild” ou “Reckoning Night”. Ou talvez alguém os tenha conhecido muito mais tarde, quando a banda já havia mudado de som várias vezes e álbuns como “Unia”, “The Days of Grays” ou “The Ninth Hour” mostravam um grupo bem diferente daquele que havia irrompido no power metal europeu no final dos anos 90.
E é exatamente isso que torna a Sonata Arctica tão interessante: eles nunca permaneceram exatamente como os conhecemos.
A história começou em Kemi, na Finlândia, em 1996. Naquela época, a banda nem sequer se chamava Sonata Arctica. Era o Tricky Beans, um grupo que ainda buscava sua identidade e que mais tarde passou a se chamar Tricky Means. Naqueles primeiros anos, eles gravaram demos e foram se afastando progressivamente de suas raízes mais próximas do hard rock para se aproximarem do power metal melódico
Entre aquelas primeiras gravações surgiu “FullMoon”, uma música que acabaria se tornando muito mais importante do que os integrantes provavelmente podiam imaginar naquele momento. A música falava de um homem que se transforma durante a lua cheia e acaba matando acidentalmente a mulher que ama. Lá aparece o lobo, como uma espécie de maldição: algo que vive dentro do protagonista e que ele não consegue controlar.
E, sem ainda saber disso, o Sonata Arctica acabara de encontrar um de seus símbolos mais duradouros.
A banda conseguiu chamar a atenção da Spinefarm Records e, em 1999, lançou Ecliptica, seu primeiro álbum de estúdio. O álbum tinha tudo o que acabaria se tornando parte da identidade clássica do Sonata: velocidade, melodia, teclados, guitarras virtuosas e a voz de Tony Kakko oscilando entre registros que pareciam feitos para cantar sobre histórias grandiosas.
Mas “Ecliptica” também tinha algo que seria ainda mais importante para entender a trajetória da banda: personagens.
Ony Kakko não parecia particularmente interessado em escrever apenas músicas sobre “coisas”. Ele preferia contar histórias. Às vezes, essas histórias eram românticas. Às vezes, eram bastante distorcidas. E, em algumas ocasiões, havia diretamente um cadáver esperando no final.
Com Silence, lançado em 2001, o Sonata Arctica consolidou-se definitivamente no power metal melódico europeu. Wolf & Raven, Last Drop Falls, Replica e The End of This Chapter ampliaram consideravelmente o universo lírico de Tony. O lobo reapareceu, mas já não era exatamente o mesmo de FullMoon. Tony contou, anos depois, que, em algum momento, percebeu que praticamente todos os álbuns do Sonata Arctica tinham uma ou mais músicas relacionadas a lobos. Não tinha sido necessariamente um plano desde o início; a tradição se formou quase por acaso. Depois, ele começou a buscar deliberadamente esse refúgio criativo e a brincar com a imagem do animal. Por isso, o lobo foi mudando de significado.
Em FullMoon, era uma maldição. Em The Cage, de Winterheart’s Guild, podia ser interpretada como uma criatura aprisionada, privada de sua liberdade. Em Ain’t Your Fairytale, de Reckoning Night, a relação entre humanos e lobos se transforma em uma história muito mais próxima do conflito entre civilização e natureza. Mais adiante, “The Last Amazing Grays” utiliza novamente a imagem do lobo sob uma perspectiva muito mais melancólica, relacionada ao tempo e ao envelhecimento. E em “Pariah’s Child”, depois que “Stones Grow Her Name” rompeu com essa tradição, os lobos retornaram de forma bastante evidente com “The Wolves Die Young”.
Mas os lobos são apenas uma das muitas obsessões narrativas do Sonata Arctica.
Há outra muito mais complexa: seus personagens recorrentes.
Músicas como “The End of This Chapter”, “Don’t Say a Word”, “Caleb”, “Juliet” e “Till Death’s Done Us Apart” vêm sendo associadas há anos pelos fãs da banda. Tony reconheceu que elas pertencem a uma mesma espécie de família temática, embora tenha esclarecido algo importante: não devemos imaginá-las necessariamente como um romance perfeitamente ordenado, no qual uma música se segue exatamente à outra.
Mais do que uma saga convencional, são histórias distintas que abordam personagens, situações e obsessões semelhantes: amor, possessão, culpa, violência, perda e relacionamentos que provavelmente seria melhor ter deixado terminar.
E é aí que surge Caleb.
“Caleb”, incluída no álbum “Unia” de 2007, apresenta um dos personagens mais sombrios da discografia do Sonata Arctica. A música não nos oferece uma biografia completa nem uma explicação definitiva sobre quem ele é ou o que fez. Tony deixa apenas fragmentos: culpa, passado, violência, consequências. Depois, surge “Juliet” em “The Days of Grays” e, mais adiante, “Till Death’s Done Us Apart”, no álbum “The Ninth Hour”. Os fãs vêm tentando há anos reconstruir o que exatamente aconteceu entre esses personagens, mas talvez o encanto esteja justamente no fato de Tony nunca nos entregar um dossiê policial com todas as respostas.
Esse jogo entre as músicas também aparece de uma maneira completamente diferente em “White Pearl, Black Oceans…”, uma das histórias mais ambiciosas da carreira do Sonata Arctica.
A música, incluída no álbum Reckoning Night de 2004, conta uma história de amor, tragédia e oceanos que, ao longo dos anos, foi ganhando vida na imaginação dos fãs. Tony chegou a contar que os fãs haviam escrito histórias inspiradas nela, feito desenhos e até mesmo tatuagens relacionadas aos personagens. Então aconteceu algo bem típico do Tony Kakko: ele decidiu escrever uma segunda parte, mas o pequeno problema era que havia matado os protagonistas na primeira.
Assim, em 2016, surgiu “White Pearl, Black Oceans – Part II, By the Grace of the Ocean”, incluída no álbum The Ninth Hour. Tony teve que encontrar uma maneira de retomar a história e levá-la a um desfecho muito mais otimista. Ele mesmo contou a história com bastante humor, porque, bem… primeiro você tem que pensar na continuidade narrativa e depois lembrar que matou seus personagens.
Esse gosto por contar histórias também explica por que algumas músicas do Sonata Arctica parecem pequenos filmes.
Um dos melhores exemplos é “Deathaura”.
A música apareceu no álbum The Days of Grays e tem uma origem particularmente curiosa: Tony estava lendo sobre caças às bruxas e encontrou na National Geographic uma história que acabou por inspirá-lo. A premissa que ele desenvolveu era terrível justamente porque não precisava de nenhum elemento sobrenatural para funcionar: uma comunidade acredita que uma jovem é uma bruxa, mesmo que ela não seja, e acaba por condená-la. O que é realmente inquietante em “Deathaura” é que, no fundo, ela não fala tanto de bruxaria quanto da necessidade humana de encontrar um monstro para culpar pelas desgraças alheias.
É provavelmente um dos melhores exemplos de por que o Sonata Arctica deixou de ser, há muito tempo, simplesmente uma banda de power metal que fazia músicas rápidas. Tony começou a escrever sobre temas bem mais incômodos e a transformar seu som.
A mudança ficou particularmente evidente com *Unia*. O álbum de 2007 marcou uma evolução importante no som do Sonata Arctica: estruturas menos previsíveis, ambientes mais sombrios e uma abordagem muito mais experimental. Para alguns fãs, foi uma ruptura necessária; para outros, o momento em que a banda começou a se afastar demais daquele power metal dos primeiros álbuns. Tony havia começado a se interessar cada vez mais por emoções como a perda, a dor, a culpa e as relações humanas complicadas. Em uma entrevista, ele explicou que se sentia cada vez mais atraído pela dor como fonte de inspiração.
“I Have a Right”, do álbum “Stones Grow Her Name”, é um bom exemplo. Tony explicou que a música surgiu de sua preocupação com as gerações futuras e com a maneira como os adultos podem transmitir seus próprios problemas e feridas aos filhos.
A pergunta por trás da música é bastante simples e bastante provocativa: o que herdamos de nossos pais e o que decidimos não transmitir?
Anos depois, essa preocupação voltaria a surgir em Talviyö. Tony explicou a conexão lírica entre “I Have a Right” e “A Little Less Understanding”: agora o foco está na dificuldade de se tornar pai e tentar tomar as decisões certas ao criar outra pessoa.
E então o Sonata Arctica chegou a outro tipo de preocupação: o planeta. The Ninth Hour, lançado em 2016, é talvez um dos melhores exemplos de como Tony consegue pegar uma ideia aparentemente gigantesca e transformá-la em imagens muito simples.
É preciso fazer aqui uma precisão, pois o álbum costuma ser descrito como conceitual, e Tony afirmou que, estritamente falando, não é. No entanto, existe um núcleo temático muito claro em torno da relação entre humanidade, natureza e futuro. Em particular, “Closer to an Animal”, “We Are What We Are” e “Rise a Night” estão diretamente relacionadas a essa preocupação.
A capa praticamente conta a história por si só: temos um mundo onde convivem natureza, tecnologia e humanidade. E no centro aparece um mecanismo, como uma ampulheta, que representa uma decisão, pois há dois futuros possíveis.
- Em um cenário, nós, seres humanos, continuamos existindo, mas destruímos a natureza a ponto de transformar o planeta em algo irreconhecível.
- No outro, a natureza sobrevive justamente porque nós já não estamos mais aqui.
E é aí que entra Closer to an Animal, que levanta uma questão incômoda sobre nossa relação com as outras espécies. Depois, vem We Are What We Are, relacionado a essa preocupação com o mundo que deixaremos para nossos filhos.
E, finalmente, Rise a Night, que leva a ideia praticamente até a ficção científica: destruímos nosso planeta, buscamos outro lar, encontramos um novo mundo azul e acabamos fazendo exatamente a mesma coisa.
A pergunta é quase ridícula de tão simples: e se o problema não for o planeta? E se formos nós?
Depois de The Ninth Hour veio Talviyö, um álbum que mais uma vez mostrou uma banda à vontade com suas diferentes facetas; e, posteriormente, Clear Cold Beyond, lançado em 2024, representou um retorno muito mais evidente ao power metal. A própria banda apresentou o álbum como um retorno às suas raízes, embora sem apagar as experiências musicais acumuladas ao longo de todos esses anos.
E talvez essa seja a melhor maneira de entender a evolução do Sonata Arctica.
Não se trata de escolher entre o Sonata de Ecliptica e o Sonata de *Unia*. Ambos os Sonata existem. Um para uivar e gritar à luz da lua, e o outro para refletir sobre para onde estamos indo. Gosto de pensar para onde eles irão no futuro.

Enquanto isso, temos um encontro marcado com o público mexicano.
E depois de tantos anos, tantos álbuns, tantas mudanças no som e tantas histórias…
Já era hora de voltarmos a cantar tudo isso, juntos.
Sonata Arctica, nos vemos na CDMX.
14 de setembro
Circo Volador
Cidade do México
30 anos após o primeiro uivo do lobo


