Três dias podem parecer pouco tempo quando você vê em um cartaz, mas seu corpo sente como se estivesse em guerra interna. O Tattoo Music Fest voltou este ano não apenas maior, mas mais ambicioso, mais exaustivo, mais barulhento e mais perverso: a primeira edição de três dias, capaz de misturar tatuagens, metal, rap, skate, boxe e caos sob o mesmo teto, como se o objetivo fosse reunir todas as subculturas que sobreviveram à precariedade, ao tempo e aos algoritmos. Por 72 horas, o Pavilhão Cultural da Universidade se tornou uma cidade paralela feita de tinta, socos e riffs. Uma missa pagã de 72 horas onde todos fingimos que não tínhamos emprego na segunda-feira: e o primeiro dia, embora breve em relação à programação, deixou claro que o lema não era sobrevivência… mas rendição.

DIA 1 — A MISSA NEGRA QUE ABRIU O FESTIVAL

O Tattoo Music Fest começou este ano com uma premissa que parecia feita sob medida para nós, assalariados, vivendo sob a tirania do relógio: Sim, é sexta-feira, a vida te pega pelas bolas… mas vamos te dar uma chance de chegar lá. Por isso, o festival não começou com música, mas com lutas de boxe às 20h, como se a cidade precisasse de mais alguém para sangrar diante de nós.

Cheguei muito cedo, mais do que o razoável, mesmo para os meus próprios padrões de “quero um bom lugar”. O problema era outro completamente diferente: as barracas estavam fechadas. Nada de arte, nada de patches, nada de bijuterias baratas de aço com preço de prata 950, nem mesmo barracas de comida para aplacar a ansiedade. Só eu, em um local meio vazio, um vento cortante e a sensação de que alguém havia condenado a multidão a esperar como se fosse o prelúdio de um julgamento. A solução? Álcool, é claro. Como sempre, como se fosse parte do manual não escrito para o frequentador médio de festivais.

E então, depois das 22h, quando havia mais cerveja do que sangue nas minhas veias e o ar frio começava a ser substituído pelo cheiro de cerveja quente, maconha e o suor de uma multidão que crescia espontaneamente, o Mayhem surgiu na cena, os pais do caos, a banda que inventou um gênero através da tragédia: assassinatos, suicídios, incêndios, traições, misantropia elevada a uma religião… o tipo de mitologia que nenhuma banda contemporânea conseguiria criar sem parecer um bando de palhaços.

A celebração dos 40 años

O Mayhem chegou com tudo, sem seguir a fórmula clássica de misturar duas ou três músicas recentes com uma seleção de seus maiores sucessos. Em vez disso, fizeram um tour cirúrgico por toda a sua discografia. Uma demonstração de que, se quiserem, o tempo deixa de existir.

E então, o inevitável: o tributo ao Grateful Dead, o tributo ao Euronymous… Eles se apresentaram com respeito, mas sem a solenidade barata: trocas de figurino, interações divertidas com o público, a teatralidade que sempre os diferenciou das dezenas de imitadores que surgiram à sua sombra.

Eu sempre zombava dos meus amigos que choravam em shows, daquela masculinidade emocionalmente analfabeta que se vangloriava tanto de ignorar os próprios sentimentos. “Como você consegue chorar ouvindo música? Impossível.” E lá estava eu: diante de uma banda que nem está no meu top 100, com lágrimas nos olhos, tentando entender o que estava acontecendo.

Talvez fosse a história de 40 anos de uma banda que nunca deveria ter sobrevivido, talvez a ressonância de algo que eu nem sabia que vinha acumulando dentro de mim. Ou talvez fosse simplesmente a certeza de estar diante de um ícone da cultura extrema que marcou toda uma geração… e eu estava lá, vivo, respirando entre centenas de pessoas que também vieram para exorcizar algo, relembrando aqueles dias rebeldes da adolescência, quando assistia a documentários de Sam Dunn e me sentia o cara mais durão do bairro por ter descoberto o black metal, mesmo permanecendo tão tímido e pacifista como sempre.

Ver o Mayhem abrir um festival de três dias foi como começar uma festa com Jagger: tudo o que viesse depois seria mais nítido, mais alto, mais vibrante, mas sempre estaria impregnado por aquela explosão inicial. Eles ditaram o tom; o resto do festival teria que estar à altura daquela energia.

Depois do show, comecei a discutir com alguns metaleiros sobre por que nenhuma banda contemporânea consegue imitar o som das bandas originais de black metal sem soar vergonhosa. A conclusão geral foi que muitas bandas usam o “faça você mesmo”, a atitude “foda-se as academias” e a mentalidade de “música não se estuda, se sente” como desculpas para justificar sua mediocridade. É por isso que as bandas pioneiras de qualquer subgênero soam autênticas, enquanto suas sucessoras soam como cópias vis e pré-fabricadas. Sem perceber quanto tempo havia passado desde o fim do show, a segurança veio nos expulsar. Saí do local de madrugada, com a garganta irritada e o corpo se movendo sozinho, uma mistura de balanço, êxtase e uma ressaca precoce. O vento uivava. Pedi um Uber sem saber ao certo quando chegaria em casa. Nem troquei de roupa, levantei as cobertas ou olhei o celular: desabei na cama como um cadáver. Era apenas o primeiro dia; Mais dois longos, árduos e gloriosos dias nos aguardavam.

DÍA 2 — PROVA DE RESISTENCIA

O sábado, 29 de novembro, foi o dia em que o Tattoo Music Fest decidiu soltar as rédeas. Se a sexta-feira havia sido um ritual contido e cerimonial, o sábado amanheceu com a lógica oposta: desordem, mistura, atrito. O festival retornou à sua fórmula original, na qual os gêneros não são confinados a compartimentos estanques, mas se misturam como bêbados em um bar. A ideia era boa, a execução, irregular.

Desde as primeiras horas, ficou claro que algo não estava certo. Não havia acesso ao fosso dos fotógrafos; ninguém sabia explicar o porquê, quando abriria ou quem era o responsável. Segurança, equipe, voluntários: todos respondiam com o mesmo encolher de ombros. Esse tipo de desorganização não arruína um festival, mas certamente define o tom.

Começos estranhos e situações de sonolência.

As primeiras horas de sábado foram marcadas por uma energia estranha e dispersa. Bandas tocavam enquanto o público ainda chegava, outros procuravam tatuadores e outros ainda tentavam resolver a logística.

 Thrash metal, algoritmo e uma roda punk frustrada.

Speedfreak foi um dos primeiros shows de verdade do dia. Essa banda de thrash metal traz um detalhe curioso e bem típico de 2025: sua formação inclui Manny, um influenciador do metal com forte presença nas redes sociais — um fenômeno que os puristas ainda acham suspeito, enquanto outros simplesmente o veem como inevitável.

O som do Speedfreak foi rápido, preciso e impressionante, provando que o metal não perde credibilidade só porque existe na era digital.

Dread, Muñeki77a e Beta: boas fotos em terreno difícil.

Dread e Muñeki77a continuaram a enfrentar o mesmo problema: horários inconvenientes, público em trânsito e atenção fragmentada. Tocaram bem, com paixão, mas com aquela sensação frustrante de empurrar uma pedra morro acima.

Beta, com uma base de fãs mais consolidada, conseguiu atrair um pouco mais de atenção, embora também tenha pago o preço pelo início lento do dia. O mau começo de sábado não se deveu à falta de talento, mas sim à falta de conexão entre o festival e o público.

Liquits e Sekta Core: quando o festival começou a respirar

Conforme a tarde avançava, o Tattoo Music Fest começou a encontrar seu ritmo. O Liquits surgiu como aquela carta na manga da geração que nunca falha: irreverente, consciente de seu lugar na história e sem nada a provar. Um show leve, eficaz e essencial, com muita interação no palco, alternando entre figurinos e mascotes que acompanhavam a banda — uma pausa mental antes de voltarem a cerrar os dentes.

O Sekta Core chegou para encerrar o set. Ska-punk com garra, experiência e uma conexão natural com o público do festival. Aqui, a mistura de gêneros começou a fazer sentido: slam dancing e pulos dividindo o mesmo espaço sem conflitos.

Black Flag: o nome pesa mais do que os rostos

A presença do Black Flag foi um dos momentos mais comentados do sábado. Não pela performance em si, mas pelo conceito. Uma formação completamente nova carregando um dos nomes mais pesados ​​do punk não é algo que deva ser visto sem ceticismo.

O Black Flag fez o que sempre fez: uma banda controversa, perturbadora e que divide opiniões. Alguns se convenceram, outros não. Mas, fiéis ao seu legado.


Belphegor, Napalm Death e Crypta: o metal traz ordem

Ao cair da noite, o sábado encontrou seu palco principal definitivo. O Belphegor transformou o palco em um ritual blasfemo, denso e brutal. Iconografia, peso sonoro e uma atmosfera que não deixava espaço para a tibieza. Os óleos que eles usaram para criar a atmosfera me lembraram de quando eu acompanhava meus pais à missa, há mais de dez anos — irônico vindo de uma banda “satânica”.

O Napalm Death veio em seguida para nos lembrar por que o grindcore continua sendo um soco no estômago necessário. Músicas curtas, letras claras, intensidade sem enrolação. Não havia tempo para respirar, e nem era preciso.

E o Crypta encerrou com um dos shows mais sólidos do festival: habilidade técnica, presença de palco e um público completamente devotado. O caos do dia encontrou sua forma final aqui: ordem através da brutalidade.

O segundo dia não foi confortável, mas foi honesto. Misturou gêneros, teve alguns problemas logísticos, acertou em cheio com sua potência e deixou claro que o Tattoo Music Fest ainda está disposto a correr riscos. Foi um dia injusto para alguns que se apresentaram cedo e glorioso para aqueles que chegaram ao anoitecer, mas acima de tudo foi o momento em que o corpo compreendeu a verdade: não era um festival para ser apreciado sem pressa, mas sim para ser suportado.

DIA 3 — QUANDO O CORPO NÃO QUER MAIS, MAS O FESTIVAL CONTINUA

O domingo, 30 de novembro, amanheceu com uma verdade incômoda: o festival não estava terminando, mas nós sim. Três dias parecem diferentes quando você não tem mais vinte anos, quando seu corpo começa a sentir o impacto e seu entusiasmo precisa lidar com os joelhos, rins e sistema nervoso central. O Tattoo Music Fest continuava lá, imperturbável, mas os participantes já caminhavam com a dignidade abalada.

Este foi o dia em que o rap carregou o peso da programação, e isso ficou evidente desde o início. Para as bandas de rock e metal, o domingo foi particularmente injusto: a grande multidão chegaria tarde, ainda mais tarde do que no sábado. Mesmo assim, havia resiliência.


Chris Mendez e as primeiras fotos do dia

Chris Mendez abriu o dia com pop-punk; foi uma apresentação de abertura honesta e competente, mas, no fim das contas, fadada ao fracasso pelo horário e pelo contexto: uma plateia ainda meio sonolenta, sofrendo com a ressaca e mais focada no café do que na roda punk.

Depois vieram TDH, She No More e outros pesos-pesados ​​do rock e do metal, que entregaram shows sólidos para um público fragmentado. Eles tocaram bem, com convicção, mas o domingo é implacável: quem não é atração principal está lutando contra o relógio biológico do público.

O Sangue Arde: intensidade que não conhece horários.

Dentre as bandas, Arde La Sangre se destacou claramente. Metal alternativo argentino, denso, emotivo e bem executado. O show deles tinha aquele algo a mais que não depende da quantidade de pessoas na frente do palco, mas sim da energia que eles projetavam. Mesmo com a plateia reduzida, eles tocaram como se estivesse lotada. Puro profissionalismo.

As lacunas e a tinta

No domingo, os intervalos entre os shows eram maiores, algo que em outros dias seria irritante, mas ali servia como uma pausa necessária. Foi então que o festival me lembrou de algo essencial: isto também é uma convenção de tatuagem, não apenas uma série de shows.

Passei pelos estandes em um ritmo tranquilo, observando os artistas trabalharem na pele de outras pessoas com a concentração de um cirurgião e a liberdade de um grafiteiro. O zumbido das máquinas, o cheiro de antisséptico e tinta fresca contrastavam com o barulho do palco. Era um lembrete de que o Tattoo Music Fest é inseparável dessa mistura: música e corpo, som e cicatriz.

La Cuca e El Gran Silencio: Guadalajara é a casa deles

Dizem que todos deveriam ver La Cuca em Guadalajara pelo menos uma vez. Confirmei isso naquela noite. Embora sejam uma banda que claramente já passou do seu auge criativo, em sua cidade eles são tratados como lendas vivas. O público canta suas músicas, os celebra, os perdoa. Aqui eles não apenas tocam: eles retornam. El Gran Silencio trouxe o outro lado do DNA dos festivais de Monterrey: celebração, identidade, caos controlado. A essa altura, o corpo já estava no piloto automático, mas a música continuava a impulsionar.

O choque de realidade

 

Houve um momento constrangedor. Um que não fazia parte do show, mas definitivamente fez parte do dia. Pela primeira vez na vida, eu estava perto de um clube de motoqueiros 1%. Eles estavam lá, na plateia. Minha visão romântica — e ingênua, como sei agora — me fez correr para tirar fotos deles. Grande erro. Eles me pediram para apagá-las imediatamente e, assim que entendi o tom, obedeci sem discutir. É essa a mesma sensação que você tem quando encontra um verdadeiro chefão do tráfico?

Nada de grave aconteceu. Mas passei o resto da noite paranoico. Aprendi duas coisas: eu não sou Hunter S. Thompson e isso não é Sons of Anarchy; isso é a vida real, e às vezes o estilo gonzo é melhor deixar nos livros.

Meu corpo diz que já chega.

Por volta das 17h, meus rins finalmente começaram a sentir os efeitos de três dias à base de energéticos. Às 19h, minhas pernas imploravam por misericórdia. O festival ainda estava a horas de distância, mas meu corpo já negociava sua rendição.

E mesmo assim, eu fiquei, porque é disso que se trata um festival de três dias: não ir embora quando você se sente confortável, mas sim quando simplesmente não aguenta mais.

O Encerramento

O set de DJ do Prayers levou o encerramento para um território mais atmosférico. Não foi um final explosivo, mas gradual, como a cidade se fechando lentamente.

O Tattoo Music Fest 2025 terminou assim, sem fogos de artifício, mas com corpos exaustos,
mentes saturadas e a certeza de termos sobrevivido a algo.

Três dias, tinta, barulho, golpes, álcool e a sensação desconfortável — mas necessária —
de que não somos mais jovens, mas ainda estamos aqui… e continuaremos enquanto pudermos.