COSQUIN ROCK – Dia 2
O segundo dia começou com um clima diferente. Sem a ansiedade da estreia e com um pouco de cansaço do dia anterior, o domingo foi mais tranquilo, como quando você já sabe exatamente por onde andar e chegar a cada palco. A entrada foi constante, mas sem pressa: grupos se acomodando, muito fernet e cerveja nas mãos, camisetas pretas (e de outras cores) começando a ganhar espaço e aquela sensação de que o ritual já estava em andamento.


O clima acompanhou durante todo o festival. Temperatura ideal, céu limpo, sem lama devido à ausência de chuvas. Os patrocinadores e ativações fazendo seu trabalho, como já comentamos no resumo do dia 1. Veja o artigo no seguinte link: https://culturaempeso.com/cosquin-rock-dia-1-o-maior-festival-da-america-latina/
Os shows
A parte forte do dia começou no sul às 16h25 com Pappo por Juanse, uma homenagem necessária e cheia de misticismo. Clássicos inoxidáveis, guitarras à frente e aquela reivindicação do riff como espinha dorsal do rock argentino.

Quase simultaneamente, às 17h, Kapanga tomou conta do PGY e deu início à sua festa. Pogos selvagens com humor e um set que funcionou como uma ponte entre a tarde e a noite.

No sul, Plan de la Mariposa manteve esse espírito épico e coletivo, antes que, às 19h40, Divididos reafirmasse por que continua sendo uma das bandas mais sólidas do país. Set ajustado, potência sem concessões e, como marca registrada, a inevitável melancia chegando como oferenda do público. Ricardo Mollo e companhia tocaram com a autoridade de quem não precisa provar nada.

Enquanto isso, o PGY começou a construir uma das sequências mais interessantes do dia.
Às 19h30, DUM Chica apresentou uma proposta diferente, desconfortável, com uma estética que mistura crueza e provocação. Não é uma banda para todos, mas isso se torna necessário em uma programação como a do Cosquín e um palco alternativo como o PGY.
Às 20h30, o ritmo mudou com Marky Ramone. O último baterista clássico dos Ramones voltou a tocar em Cosquín aquele repertório que definiu o punk moderno: velocidade, músicas de dois minutos e uma estética que permanece intacta décadas depois. Mais do que nostalgia, o que ele fez foi uma reafirmação histórica. O legado dos Ramones voltou a ser ouvido com força em Punilla, demonstrando que o punk não envelhece e que sua linguagem continua sendo universal.

Imediatamente depois, às 21h35, David Ellefson subiu ao palco e trouxe o DNA do thrash em formato compacto, mas contundente. Cofundador do Megadeth e parte essencial da arquitetura do thrash metal dos anos 80 e 90, sua presença trouxe peso específico: baixo afiado, precisão cirúrgica e uma conexão direta com uma das escolas mais influentes do metal mundial. Os clássicos do Megadeth tocaram e até houve espaço para homenagear o príncipe das trevas Ozzy Osbourne, interpretando Paranoid no final de seu set.


A sequência foi clara: Marky + Ellefson como antecâmara geracional — punk fundacional e thrash histórico —, depois CTM às 22h35 mantendo a linha pesada com identidade própria, riffs densos e uma energia crua que consolidou a lembrança e a homenagem ao grande pai do heavy argentino: Ricado Iorio e Almafuerte.
Finalmente, o encerramento distópico de Six Sex às 23h35, levando o PGY para um território mais eletrônico. Uma progressão que, embora fragmentada, deixou uma conclusão evidente: o metal voltou ao Cosquín, mesmo que na forma de tributos legais, ex-integrantes e pequenas doses concentradas. Não foi dominante, mas esteve presente. E foi sentido.

No Norte, a massividade marcou o ritmo. Bandalos Chinos trouxe elegância pop, Fito Páez reafirmou seu peso histórico com um repertório inoxidável, e YSY A voltou a demonstrar o crescimento da cena urbana dentro do festival.

Um dos momentos mais intensos do segundo dia foi protagonizado pelo Airbag. Hoje eles são, sem dúvida, a banda do momento. É algo que se sente assim que eles sobem ao palco. O público os espera, canta seus nomes antes mesmo da primeira nota soar e transforma cada refrão em um hino coletivo. Os irmãos Sardelli entenderam como crescer
sem perder a identidade: riffs afiados, solos que remetem ao hard rock clássico e uma conexão emocional direta com uma geração que os adota como seus. Eles são os protagonistas do presente.

O Sul manteve uma linha forte com Guasones, Trueno — com sua marca geracional consolidada — e o encerramento explosivo de Louta às 0:50, já com chuva intermitente e o público dividido entre a retirada e a resistência.

No Montaña, a narrativa foi outra: Gustavo Cordera, Los Pericos, Silvestre y La Naranja, Las Pastillas del Abuelo e, já à meia-noite e começando em uníssono com a chuva, Peces Raros. O encerramento eletrônico ficou a cargo de Mariano Mellino e Franky Wah, estendendo a experiência até o amanhecer para aqueles que decidiram ficar.
Dentro de uma programação diversificada, houve um momento que confirmou o presente de Morat. A banda colombiana atravessa um dos pontos mais altos de sua carreira — com quatro shows anunciados para setembro no Movistar Arena Argentina — e essa dimensão foi sentida em Cosquín. Um fenômeno consolidado.

Destaque
A incorporação formal do “Escenario Sorpresa” (Palco Surpresa) foi uma decisão estratégica acertada: deu ao festival uma margem de surpresa que refresca a experiência e evita que tudo fique preso aos horários da programação. E em um festival marcado pela simultaneidade constante, também vale a pena destacar: a pontualidade foi quase inglesa. Os shows começaram no horário, as mudanças foram ágeis e, com raras exceções, a técnica respondeu com precisão. Em um evento dessa magnitude, esse detalhe não é menor: fala de organização, profissionalismo e respeito pelo público e pelos artistas.
Paralelamente, “La Casita del Blues” comemorou dez anos dentro do Cosquín. Em um festival que cresce, se diversifica e agrega novas tendências, este espaço continua funcionando como um refúgio de raízes: mais próximo, mais orgânico, menos espetacular e mais visceral. Uma década sustentando o blues como linguagem própria dentro de uma programação cada vez mais ampla não é coincidência. É uma decisão. E é também um sinal de que, mesmo em meio à expansão e à massificação, o festival não perde sua conexão com o ritmo mais clássico do rock.

O segundo dia confirmou que o Cosquín Rock é um festival que busca equilíbrio entre história, massificação e risco. O metal voltou a aparecer, embora ainda em formato contido. O pop e o urbano consolidaram seu lugar. As lendas sustentaram a estrutura e as novas propostas tensionaram os limites. Coexistiram improvisações, convidados inesperados e encontros que ninguém tinha no radar. Desde Eruca Sativa com Abel Pintos, Ricardo Mollo dividindo o palco com Ciro, La Vela Puerca cruzando com Las Pelotas, El Kuelgue convidando Litto Nebbia, León Gieco junto com Trueno, até encontros mais informais na La Casita del Blues entre Wayra Iglesias, Maxi Prietto e Piti Fernández e muitos outros.
E quando a chuva caiu à meia-noite, a cena foi quase simbólica: alguns foram embora, outros ficaram. Como sempre, cada um vive seu próprio Cosquín.
O que não muda é a sensação final: o festival continua sendo um território. Um espaço onde coexistem gerações, estilos e contradições. E enquanto houver montanha, haverá ritual.

Também é justo destacar o trabalho da produção: organização sólida, horários respeitados e um tratamento profissional que acompanhou durante todo o fim de semana. Em um festival dessa dimensão, esses detalhes não são menores. Será hasta el Cosquín 2027!

