
Com um som que esmaga e ao mesmo tempo te faz querer banguear, a banda austríaca Nekrodeus em maio deste ano, lançou seu terceiro álbum de estúdio, Ruaß, pela FDA Records.
Vindos de Graz, eles tem uma combinação brutal de death/black metal com a intensidade crua do hardcore. Com onze faixas no total, o álbum se destaca não só pela fúria, mas por ter participações especiais de peso: os vocalistas L.G., Ellende e Michael Kogler, do Karg e Harakiri for the Sky, mostrando que a Nekrodeus se conecta com o melhor da cena austríaca.
Pode-se dizer que, para aqueles que não possuem fluência no idioma, é no instrumental que a banda realmente te capta: as linhas de baixo, marcantes e presentes, não são apenas melodiosas e pesadas; são o esqueleto do álbum, dando um peso monstruoso a cada riff. E sobre essa base, a bateria com uma precisão técnica e agressividade implacável, constrói uma parede sonora explosiva, fazendo de Ruaß um álbum extremamente envolvente e brutal.
Se o thrash metal é a voadora no peito, Ruaß, é um soco no estômago que te nocauteia.
Apelando mais uma vez para tradutores e dicionários, além da memória, com a finalidade de comprovar se o que senti ao ouvir, condiz com o tipo de mensagem transmitida, assim como as bandas da região, podemos dizer sem medo de errar e antes mesmo de ter traduzido: não são apenas palavras jogadas ao vento, são letras que certamente te levarão a reflexão e que casam perfeitamente com a sonoridade proposta.
O álbum já nos lança em um caos sonoro com “Abgrundmensch I” (Homem do Abismo, nome e a letra me reportaram a Nietzsche, obrigada faculdades de história e direito por me levarem a tamanha reflexão até em resenhas musicais). A bateria, com seu ritmo implacável de blast beats e viradas precisas, não apenas dita a velocidade, mas constrói a fundação para a parede sonora que está por vir. As linhas de baixo surgem em destaque, com um peso monstruoso, enquanto que os riffs dão o tom do caos, é como se fosse uma abertura avassaladora que prepara o ouvinte para o que está por vir, com a segunda parte mais adiante em “Abgrundmensch II” (a ‘minha favorita’), intensificando ainda mais essa sensação de queda no abismo e a brutalidade da existência, e faz isso com uma precisão musical assustadora.
O peso de “Sarg Aus Fleisch” (Caixão de Carne) é levado por uma levada na bateria que varia entre o blast beat e o bumbo duplo contínuo, dando um ritmo implacável e caótico, porém simétrico e agradavel de se ouvir. Já em “Frost” (Gelo), com a participação de L.G. da banda Ellende. A bateria mantém a fúria, mas em alguns momentos suaviza para dar espaço a uma melodia mais melancólica ” a la Ellende”. O vocal, por sua vez, navega com facilidade entre a brutalidade e momentos mais sombrios, uma combinação perfeita e natural com a atmosfera da música. É como se fosse um respiro no álbum, um “gelo” mesmo, mas sem deixar a intensidade de lado.

A faixa seguinte, “To Bite The Hand That Holds The Leash“, soa como um desabafo, raivoso, mas ainda sim, um desabafo. A pegada mais direta e com influências de hardcore traduz a fúria e o desejo de se libertar do controle.
Em “Volkscancer” (Câncer do Povo), a banda traduz em som a sua crítica social, um soco no estômago de fato. As linhas do baixo nesta música e a bateria que explode em bumbos e caixas soam como a letra: uma doença (câncer) que corrói a sociedade de dentro para fora. A música é um protesto percussivo, uma trilha sonora para o caos no mundo. Essa mesma fúria rítmica também aparece também em “Körperstrafe” (Punição Corporal), a faixa mais death metal do álbum, talvez. Onde a agressividade ‘baterística’ permanece do início ao fim, sem perder a técnica. Já nas linhas de baixo, criam toda uma camada de peso que torna o som único.
Quando saímos de Abgrundmensch II (comentada anteriormente), e entramos em “Astraldepression“, nos leva a um estado de melancolia, mas com peso e um instrumental criando uma atmosfera que transborda tristeza e dor. Aqui, o baixo traz essa sensação, mas ficou tão bem trabalhado, que ao fim da música, é possível sentir certa fúria, e já entra com tudo em Körperstrafe, também comentada antes.
Aliás em tempo, essa construção instrumental é bem interessante se analisar album como um todo: a condução do “sentir” de faixa a faixa, bem peculiar e cativa.
“Trümmerjugend” (Juventude em Ruínas) transmite o desespero de uma geração perdida. Os riffs juntamente com vocal um pouco mais rasgado, soam como a trilha sonora de uma rebelião, um grito de socorro em meio à destruição e é praticamente uma introdução, para a faixa “The Seeds Of Your Own Destruction” é um soco direto no estômago, musical que tem uma fúria e peso do black metal, além de uma reflexão brutal sobre como a humanidade constrói a própria ruína, e contra fatos, não há argumentos.
O álbum encerra de forma épica e inesperada com “Sternenleichen” (Cadáveres Estelares), onde o que antes era uma força da natureza (o instrumental no caso), agora soa com uma elegância que eleva a música a outro patamar, ao lado da colaboração de Michael Kogler, do Karg. A faixa é uma reflexão brutal e digamos que até poética sobre o quanto somos pequenos diante do universo, mostrando a beleza e a tristeza “Von oim wos ma uns g’wunschn hom/San nur sternenleichen bliebn” (em uma tradução literal para português, quer dizer “de tudo o que desejamos, só restaram corpos de estrelas“)
No fim, Ruaß é um álbum que prova a maestria do Nekrodeus. É pesado, é técnico e é brutal, mas também é inteligente, com letras que adicionam uma camada de profundidade. É um álbum que faz jus a toda a experiência da banda e que, com certeza, soará incrivelmente envolvente e brutal em qualquer fone de ouvido.
Nekrodeus:
Paul Färber: bateria
Stefan Rindler: vocal
Lukas Benedicic: baixo
Sebastian Lackner: guitarra
1.Abgrundmensch I
2.Sarg Aus Fleisch
3.Frost (feat. L.G., Ellende)
4.To Bite The Hand That Holds The Leash
5.Volkscancer
6.Abgrundmensch II
7.Astraldepression
8.Körperstrafe
9.Trümmerjugend
10.The Seeds Of Your Own Destruction
11.Sternenleichen (feat. Michael J.J. Kogler, Karg e Harakiri for the Sky)
Nota: 10/10

