
Os primeiros três dias de agosto iniciaram ao som do caos. Fomos contemplados com mais uma edição do Hellcife Extreme, um dos festivais Underground mais respeitados do Recife. O evento aconteceu no Darkside Studio, um dos principais points alternativos da grade Recife.

Conforme prometido previamente, o evento contou também com uma pequena feira de vendas de merchandising, incluindo discos, camisetas de bandas e comidas veganas. Os entusiastas da música tiveram a oportunidade de explorar uma variedade de produtos relacionados ao universo do rock e do metal, permitindo que os fãs adquirissem lembranças exclusivas das suas bandas favoritas. A presença da feira agregou ainda mais diversidade e experiências aos participantes do evento, oferecendo uma atmosfera completa e imersiva para os amantes da cultura alternativa.


Sexta-Feira, 01 de agosto
Iniciando a noite, às 18:00h abriu as portas e já se encontrava um pequeno público presente na casa, enquanto a equipe ainda realizava os últimos ajustes.

Apesar de um pequeno atraso, a primeira banda a subir ao palco foi a Desordem Absoluta, banda formada em Igarassu (PE) que fez uma apresentação muito bacana, trouxeram originalidade, presença de palco e intensidade no que estavam fazendo. Apesar de ser uma banda ainda um pouco recente, formada em 2023, já demonstraram atitude e personalidade.

Na sequência, os Alagoanos do EGOMORTE subiram ao palco às 19h10. Seu som extremo foi iniciado com “Templo da Maldição” aquecendo o público. A performance foi muito boa, liderada por Denisson Araújo, apresentando um gutural avassalador e agonizante. O público estava crescendo cada vez mais, muitos batendo cabeça ao som da banda, que teve uma boa performance.

Às 19h50, foi a vez do death metal old school do Podridão incendiar o Darkside Studio. Liderados por Putrid Dick, mandaram ver tocando um death metal extremamente rápido e direto, resgatando a essência brutal do gênero dos anos 90 e fazendo um dos melhores shows da noite. O público já estava consideravelmente maior e com muito mais energia, rolando muito headbanging e circle pits durante toda a apresentação.

Por conta de uma mudança na programação, o Mystifier subiu ao palco antes do previsto, antecedendo o Necrofilosophy. A banda clássica de death/black metal reuniu o maior público do evento até então, demonstrando sua importância no cenário nacional. Foi perceptível um público fiel, porém um pouco mais contido, admirando respeitosamente o som da banda que fez uma excelente apresentação. A performance contou, inclusive, com a participação especial do Tuca (Inflawed), organizador do evento, em uma das canções.
Tocaram alguns dos principais clássicos da banda, como “Osculum Obscenum”, “An Elizabethan Devil-Worshipper’s Prayer-Book” e “Caerimonia Sanguinolentus (Göetia)”, fechando a apresentação com o cover “Nightmare” do Sarcófago. Foi uma apresentação histórica que reafirmou o status lendário da banda no metal extremo brasileiro.

Diretamente de Fortaleza, Ceará, às 21h20, sobe ao palco pela primeira vez em Recife o Necrofilosophy, fazendo sua tão aguardada apresentação, exclusivamente baseada no primeiro álbum “Contemplations of the Seven Philosophical Foundations”. Com um death metal extremamente técnico e letras filosóficas, a banda recebeu um bom feedback do público presente, principalmente daqueles que ainda não conheciam o trabalho da banda. Durante a apresentação, rolaram vários circle pits, demonstrando como a energia do som foi transmitida efetivamente ao público.

Logo em seguida, a paraibana Sodoma incendiou o palco com seu death/black metal agressivo e atmosférico. O power trio já tem experiência tocando nas terras pernambucanas, tendo se apresentado na edição de 2024 do Abril Pro Rock, o que demonstrou na segurança e entrosamento durante a performance. Fizeram uma apresentação envolta em obscuridade, típica da filosofia sonora da banda, criando uma atmosfera densa e sombria que envolveu completamente o público presente.

Carrasco foi a penúltima banda da noite, trazendo uma das melhores performances do evento. A banda, já veterana do cenário nacional mostrou toda sua experiência e energia, elevando o nível da noite a outro patamar. Durante o show, foi perceptível o público mais animado até então, com vários stage dives e circle pits rolando durante praticamente toda a apresentação. A intensidade era tamanha que a área em frente ao palco virou uma verdadeira zona de guerra sonora. A banda trouxe um thrash/speed metal bastante rápido e agressivo, apresentando clássicos como “Armageddon” e “Heavy Metal del Diablo”. A performance foi marcada por uma excelente presença de palco dos músicos, que conseguiram manter o público em êxtase do início ao fim.

Já passava da meia-noite quando o Velho subiu ao palco do Darkside Studio para fechar a noite com chave de ouro. A banda trouxe um black metal cru e direto, apresentando um set pesado que manteve o público restante completamente envolvido mesmo na madrugada. A atmosfera sombria e densa criada pelos músicos foi o fechamento perfeito para uma noite de metal extremo. Mesmo com o horário avançado, os fãs mais resistentes se mantiveram firmes na frente do palco, demonstrando que a qualidade da apresentação compensava o cansaço acumulado. O som pesado e as composições intensas do Velho proporcionaram um encerramento à altura do evento, deixando uma impressão duradoura nos presentes. Foi uma excelente escolha para finalizar uma noite que celebrou o melhor do metal underground nacional, provando que o Hellcife Extreme continua sendo um festival importante para revelar e consolidar talentos da cena extrema.

Sábado, 02 de agosto
Marcado para iniciar às 16:30, o evento começou praticamente sem atraso, com o público aumentando gradualmente conforme as horas passavam. Essa segunda noite seria mais voltado ao Punk/Hardcore, apresentando bandas respeitadas na cena regional e nacional.

Responsável por dar início ao segundo dia, a banda Mente Podre abriu o show de forma extremamente agressiva. Seu power violence violento e direto já anunciava o que estaria por vir: muito hardcore, com diversos circle pits e stage dives rolando desde os primeiros minutos. A energia intensa da banda contagiou imediatamente o público, estabelecendo o tom pesado que marcaria toda a programação do dia.

O Subversivos trouxe uma apresentação carregada de energia e consciência política, com um hardcore/punk original e bem trabalhado. A clássica “A caminho do sol” abriu o set de forma impecável, seguida de “Produtos do ego”, “Anonimato de um herói” e “Siga adiante”, que agradaram profundamente os fãs da banda veterana. Destaque para a performance e declarações antifascistas durante todo o show, além da energia contagiante transmitida ao público, levando todos a pogarem e se divertirem de forma intensa.
Destaque para a performance e declarações antifascistas durante todo o show, além da energia contagiante transmitida ao público, levando todos a pogarem e se divertirem de forma intensa.

Diretamente de Belém do Pará, o Rancor trouxe toda a energia do seu fastcore pela primeira vez em Recife. A banda, conhecida por suas influências extremas que transitam entre grindcore, powerviolence e hardcore, fez uma apresentação intensa e carregada de ideologia. Com dois vocalistas alternando entre gritos e palavras de ordem, o grupo executou seu som na mais pura filosofia do “faça você mesmo”, característica marcante da cena underground. As letras com viés anarco-comunista, temperadas com uma pitada de humor ácido, ecoaram pelo ambiente enquanto o público, inicialmente mais contido, foi gradualmente sendo contagiado pela energia contagiante da banda.

Em uma reviravolta inesperada, a banda Síndrome se tornou a grande surpresa da noite ao substituir o Arquivo Morto, que não pôde se apresentar devido ao adoecimento de seu baterista. Mesmo tocando sem seu baixista e praticamente sem ensaio, os “funcionários da casa” se garantiram no palco e conseguiram uma performance surpreendentemente boa.
Durante o show, houve ainda a participação especial do vocalista Edinho, do próprio Arquivo Morto, demonstrando a união entre as bandas da cena local. Foi uma atitude que mostrou o verdadeiro espírito do underground, quando necessário, as bandas se ajudam para manter o evento rolando.

Logo depois, foi a vez dos brasilienses do NW77 detonarem o Darkside Studio com um crossover/thrash extremamente rápido e politizado. A banda, que já havia tocado anteriormente em Recife, atraiu um público um pouco maior e mais animado, demonstrando que já conquistaram seu espaço na cidade. O público não ficou parado nem por um segundo, durante todo o show. A apresentação foi digna do mais puro hardcore, com destaque para a participação especial de Edinho, do Arquivo Morto, e o cover “Farsa Nacionalista” do lendário Ratos de Porão, que arrancou gritos de resistência da galera.

Na sequência, quem assumiu o palco foi a Lepra, veterana do grindcore pernambucano com duas décadas de estrada. A banda veio de Moreno (PE) e entregou um show violento, rápido e técnico. Iniciaram com “O Ódio é a Minha Existência”, um dos seus últimos lançamentos, e tocaram alguns clássicos como “Sofrimento Dobrado” e “Deus Morto”.
A banda transmitia experiência e foco total na música, mantendo a intensidade da noite em alta. O público não se conteve, havendo circle pits em praticamente toda a apresentação do grupo. Destaque vai para a excelente performance do vocalista Ítalo, com seu gutural visceral, a bateria devastadora do Jonathas Pedro e a participação do Arthur (Imflawed), organizador do evento, em uma das músicas.

O Terror Revolucionário manteve a energia do evento com uma boa apresentação e um público um pouco maior. A banda entregou um dos melhores shows da noite, arrancando elogios do público que não conhecia o trabalho do grupo. Mais uma banda excelente da cena hardcore de Brasília, que é berço de uma das maiores cenas brasileiras do gênero.

Em uma mudança de última hora na programação, Os Replicantes trocaram de horário com o Catarro e subiram ao palco como penúltima banda da noite, fazendo uma das apresentações mais marcantes de todo o festival. A lendária banda punk gaúcha reuniu o maior público dos três dias de evento, confirmando sua importância no cenário nacional. Era apenas a segunda vez que tocavam em Recife depois de muitos anos, e a recepção foi calorosa, com uma quantidade significativa de punks presentes e um público visivelmente fiel. A banda iniciou tocando clássicos como “Chernobil” e “Hardcore”. O público cantou junto durante toda a apresentação, com stage dives e circle pits rolando praticamente o show inteiro – a vibe foi absurda. O ponto alto foi durante um dos clássicos da banda, “Quero uma Festa Punk”, que contou com a participação especial do Canibal (Devotos).
O público cantou junto durante toda a apresentação, com stage dives e circle pits rolando praticamente o show inteiro – a vibe foi absurda.

Cätärro fechou o segundo dia do festival. Apesar de uma parte do público ter ido embora após a apresentação dos Replicantes, a banda do interior do Rio Grande do Norte apresentou seu powerviolence extremo através de uma apresentação cheia de energia e excelente performance de palco. Mostraram ser muito queridos pelo público presente, que se manteve fiel até o fim do show, mesmo com a hora avançada da madrugada. Um encerramento com chave de ouro para um sábado intenso, que preparou o terreno para as emoções ainda mais variadas do domingo.
Domingo, 03 de agosto
O terceiro e último dia do festival Hellcife Extreme começou pontualmente às 16h no Darkside Studio, mantendo a tradição de organização dos dias anteriores. O domingo trouxe uma programação diversificada que misturou veteranos e nova geração do metal extremo nacional, culminando em apresentações que deixaram o público com gostinho de quero mais.

O domingo continuou a brutalidade dos dias anteriores. O terceiro dia do Hellcife Extreme 2025 teve uma abertura suja e agressiva com os paraenses do Mauagouro, trazendo sua proposta de “NoiseViolence”. O duo formado por CK no vocal e Felipe na bateria fez uma apresentação diferenciada diretamente de Belém do Pará, tocando apenas com baixo e bateria, mas mesmo assim conseguiu criar uma atmosfera caótica e intensa.
Com músicas de no máximo 15 segundos e um som que fugiu completamente do convencional, a dupla criou uma atmosfera noise que marcou o início do último dia. A apresentação ganhou um toque especial com a colaboração do guitarrista da banda Abissal, também belenense. Com essa adição, o Mauagouro se transformou temporariamente na própria Abissal, já que ambas as bandas compartilham os mesmos integrantes, diferindo apenas pela presença ou ausência do guitarrista.

Em seguida entrou Insânia, representando o groove metal de Pernambuco, a única banda dessa vertente no festival, e não ficou para trás em relação à brutalidade sonora dos outros dias. O Insânia chegou com a proposta de um metal muito inspirado no Lamb of God, Sylosis e Textures, além de influências brasileiras como Surra e Ratos de Porão. A banda fez uma apresentação extremamente potente, mostrando-se muito bem ensaiada, com riffs técnicos e uma presença de palco que agitou bastante o público presente.

O Sistema Brutal, da Paraíba, fez sua estreia no festival trazendo um hardcore crossover direto e sem rodeios. Com fortes influências do Suicidal Tendencies e Ratos de Porão, a banda surgiu em 2002 e mantém a mesma formação até hoje, com Cissão na bateria, Paulo Xampurro, Jarlain Costa e Dão. O grupo desenvolve um trabalho autoral que mescla as influências clássicas do crossover com a pegada das bandas brasileiras do gênero.

Na quarta entrada da noite, os maranhenses do Cranium Crushing fizeram sua estreia em solo pernambucano, vindos diretamente de São Luís do Maranhão. Embora o Maranhão faça parte do Nordeste, era a primeira vez que a banda se apresentava no litoral nordestino, e a performance se tornou o ápice da noite.
O Cranium Crushing elevou significativamente os decibéis com um death metal extremamente técnico e inspirado na escola da Bay Area, especialmente no Possessed. O death thrash executado pela banda foi de excelente qualidade, ganhando o respeito e admiração da platéia diante da intensidade e precisão musical.
Há rumores de que foi a melhor apresentação de todo o festival. Muitas pessoas que acompanharam os dois dias anteriores do evento comentaram que, após assistirem ao Cranium Crushing, consideraram aquela a performance mais marcante dos três dias de festival. A banda maranhense conseguiu se destacar em meio a uma programação já repleta de grandes nomes do metal extremo nacional. Dentre a sua setlist, estavam o “No Salvation”, “Sacrifice of Shadows” e “Your Life Is Torment”.

Às 19h50, o Rabujos manteve a tradição do grindcore pernambucano com uma performance poderosa que reafirmou sua posição de destaque no cenário nacional. O power trio formado por Jaque no vocal, Rodrigo Nery na guitarra e Renan na bateria é amplamente considerado um dos mais influentes do Nordeste e, possivelmente, uma das principais referências do gênero no Brasil. Durante a apresentação, a banda executou clássicos do álbum “Cuatro Mil Corpos” e faixas do split com a baiana Aphorism. A performance confirmou porque o Rabujos continua sendo uma referência obrigatória quando se fala de grindcore nacional, mantendo a agressividade e qualidade técnica que os consagraram na cena underground nacional.

Representando a nova geração do Death metal pernambucano, Fluids ov Agony trouxe sangue novo ao palco com seu Death metal bem executado e agressivo. A formação, composta por EddieHatred no vocal, Luza na bateria, Manny na guitarra e Erick no baixo, demonstrou que a cena local continua se renovando com qualidade e responsabilidade técnica. A banda não ficou pra trás das outras bandas que tocaram no festival, entregando um Death metal fiel às características do estilo e bastante agressivo. A performance dos músicos confirmou que o futuro do death metal pernambucano está em boas mãos, mantendo viva a tradição de excelência que caracteriza a cena extrema do estado.

Para encerrar o festival, Flagrvm, quarteto de death metal de São Luís do Maranhão, fez sua primeira apresentação na região. A banda trouxe um gore death metal bem executado para o palco do Darkside Studio, tocando um repertório que incluiu “O Homem Do Talho”, “Facada”, “Suicídio ou Vacilação” e “Vermes”, mantendo a coerência sonora durante todo o set. A performance combinou técnica musical sólida com presença de palco, características que definiram a apresentação dos maranhenses. A banda conseguiu manter o interesse do público até o final, encerrando o terceiro dia do Hellcife Extreme de forma consistente. Em uma breve conversa com o vocalista Léo Belfort, o mesmo informou que foi muito bacana ter participado do evento e mencionou o seu desejo de ser convidado novamente para tocar em Recife. O show final coroou três dias de programação diversificada que percorreu diferentes vertentes do metal e punk nacional.
Em uma breve conversa com o vocalista Léo Belfort, o mesmo informou que foi muito bacana ter participado do evento e mencionou o seu desejo de ser convidado novamente para tocar em Recife.

O terceiro dia do Hellcife Extreme conseguiu manter o alto nível dos dias anteriores, apresentando desde experimentações sonoras até o death metal mais técnico, consolidando o festival como um importante espaço para a música underground nacional. A programação diversificada cumpriu sua proposta de celebrar a qualidade e variedade da cena brasileira. Foi notado também um público vindo de outros estados brasileiros, com novas amizades sendo criadas durante todo o evento.
Durante os três dias de evento, o festival reuniu dezenas de bandas de diferentes regiões do país, demonstrando a vitalidade do cenário musical underground nacional. A infraestrutura do evento se mostrou adequada, com oferta de alimentação e bebidas a preços acessíveis, além de uma feira de produtos relacionados às bandas participantes.
Apesar de pequenos atrasos pontuais e algumas alterações na ordem do lineup, o Hellcife Extreme 2025 atingiu seus objetivos principais, que seria reunir um público fiel em torno da música extrema e oferecer um palco democrático para bandas de diferentes estilos e origens. O evento confirmou sua relevância no calendário da música underground brasileira, estabelecendo-se como uma referência para futuras edições.
Foi notado também um público vindo de outros estados brasileiros, com novas amizades sendo criadas durante todo o evento.

