No passado dia 25 de outubro de 2025, a cidade invicta foi palco de um momento verdadeiramente único: a revolução da música progressiva invadiu o auditório CCOP, que se encheu por completo para uma noite de outono inesquecível.

A primeira edição do Porto Prog Night realizou-se no passado sábado, 25 de outubro, e superou todas as expectativas. A adesão do público foi impressionante, com a sala praticamente cheia desde cedo. O ambiente esteve vibrante do início ao fim, com uma constante interação entre o público e as bandas. Até a chuva persistente ao longo do dia deu tréguas durante o evento, como que em respeito pela ocasião.
Para além de tudo isso, o alinhamento de bandas foi simplesmente estrondoso. Poder-se-ia pensar que quatro grupos de rock progressivo num mesmo evento tornariam a noite repetitiva, mas nada mais longe da verdade. Embora Living Tales, Needle, Rei Bruxo e Phase Transition partilhem a essência do progressivo, cada uma apresentou uma identidade sonora distinta, única e marcante, tornando o Porto Prog Night uma celebração rica e inesquecível do género.
LIVING TALES
A noite começou com Living Tales, e dificilmente poderia haver melhor forma de dar o arranque à primeira edição do Porto Prog Night. Apesar de alguns problemas de som iniciais, sobretudo na voz, a banda rapidamente conquistou o público e transformou esses pequenos contratempos num detalhe irrelevante face à energia que se fez sentir em palco.

A vocalista Ana Isola demonstrou, mais uma vez, ser uma verdadeira performer. Vive cada canção como se habitasse no próprio universo que narra. Cada gesto, cada expressão e cada olhar transmitem a intensidade das histórias que a banda conta, e o público sente isso. Desde cedo, a plateia reagiu com entusiasmo, alimentada pela constante interação da vocalista e restantes membros, que nunca deixaram a energia abrandar.
O concerto iniciou-se com Hades, uma entrada poderosa e sombria, marcada por um ambiente denso e quase cinematográfico. A canção funciona como um verdadeiro portal para o mundo dos Living Tales com riffs robustos, teclas etéreas e uma performance vocal que equilibra força e vulnerabilidade. A atmosfera mitológica e a construção progressiva do tema prepararam o terreno para a jornada que se seguiria.
Seguiram-se Mirror Cage e Odyssey, que deram continuidade à viagem sonora da banda com dinamismo e contrastes emocionais, alternando momentos de introspeção e explosão instrumental. A coesão entre os músicos manteve-se irrepreensível, e o público acompanhou cada viragem com entusiasmo, totalmente rendido à intensidade da atuação.
A meio do concerto, um episódio inesperado trouxe um momento de humor à noite: o alarme de incêndio começou a tocar, provocado pelo fumo do palco. Longe de estragar o clima, o imprevisto transformou-se num momento divertido, recebido com gargalhadas do público e onde só se ouvia “vamos tomar um banho“. Um sinal de cumplicidade e descontração que reforçou ainda mais a ligação e ambiente que se viveu neste evento.
Antes de entrar na reta final com Labyrinth e Persephone, a vocalista aproveitou para agradecer ao festival e ao público, deixando um recado sincero: “Fiquem até ao fim, nós somos só os primeiros.” Mal sabiam eles que, apesar de abrirem o festival, os Living Tales deixariam a fasquia lá no alto, com uma atuação arrebatadora, repleta de emoção, técnica e carisma. Uma abertura estrondosa que deixou claro: o Porto Prog Night começou da melhor forma possível!
Setlist: 1. Hades 2. Mirror Cage 3. Odyssey 4. Labyrinth 5. Persephone.

NEEDLE
Se a noite começou em força com Living Tales, os Needle vieram confirmar que o Porto Prog Night nasceu para surpreender. A banda trouxe consigo uma energia brutal, com uma sonoridade que mistura a intensidade de Jinjer, a atmosfera moderna de Spiritbox e a sofisticação emocional de Leprous. Uma combinação que resultou numa atuação tão técnica quanto visceral.
Desde o primeiro tema, 12:14, a sala percebeu que estava perante algo especial. O som de Needle foi poderoso mas minuciosamente construído, alternando peso e melodia com uma fluidez impressionante. A presença de três vocalistas é um dos grandes trunfos da banda: a vocalista principal, Soraia Silva, brilha com uma voz profissional, segura e apaixonante, enquanto os dois guitarristas, Luís Costa e Tiago Sousa, acrescentam camadas masculinas mais contemplativas, sempre nos momentos certos, criando um equilíbrio dinâmico e expressivo.
Collision foi o quarto tema da noite e um dos pontos altos da mesma. Dedicada, nas palavras da vocalista, a “alguém muito especial que está aqui à frente”, o tema começou com uma melodia leve contemplativa, seguida de uma vibe mais nu metal, quase à Korn, impulsionada por riffs vigorosos. Foi uma verdadeira demonstração da versatilidade criativa do grupo, capaz de viajar entre estilos sem nunca perder a identidade.

A sintonia entre os membros da banda foi sempre notável. Cada olhar e cada gesto no palco refletem uma ligação genuína, traduzida numa performance coesa e contagiante. E , no centro de tudo, a vocalista Soraia, que, embora possa ser pequenina, não se deixem enganar, pois tem vozeirão colossal e domina o palco com carisma e energia inesgotável. Mesmo em constante movimento, sempre a saltar e a interagir com o público, mantém uma projeção vocal firme e poderosa, algo raro e digno de destaque.
Quando chegou a vez de Castles, o público já estava totalmente rendido. Os riffs poderosos tornaram impossível não abanar a cabeça ao ritmo da música, resultando um momento de comunhão total entre banda e plateia, onde se sentiu a força física e emocional do som dos Needle.
Com The Absconder e Greed, a banda encerrarou o concerto e os cinco músicos entregaram-se por completo à música, culminando num final explosivo que ficará gravado na memória de todos. A vocalista deixou o palco e saltou para o público, num gesto de pura entrega e conexão e um dos momentos mais marcantes de toda a noite.
Os Needle apresentaram-se com uma atuação arrebatadora, unindo técnica, emoção e presença cénica num equilíbrio perfeito. Saíram do palco ovacionados e adorados, deixando uma certeza: esta é uma banda com tudo para conquistar o Porto Prog Night e muito mais!

Setlist: 1. 12:14 2. Elude 3. Calliope 4. Collision 5. Castles 6. The Absconder 7. Greed.
REI BRUXO
Se havia uma banda capaz de desafiar rótulos e desconcertar o público, eram os Rei Bruxo. E foi exatamente isso que fizeram. A terceira atuação da noite revelou-se a grande surpresa do Porto Prog Night! Uma verdadeira viagem experimental onde noise, blues, jazz, rap, rock e mais uns quantos estilos se fundiram numa amálgama sonora inclassificável e absolutamente hipnótica.
Desde os primeiros acordes de Longe de Errado, ficou claro que estávamos perante algo diferente. A banda constrói o seu som a partir do caos controlado, alternando entre spoken word poético em alguns dos temas, riffs violentos e texturas sonoras inquietantes. É uma música que desafia convenções, mas que ao vivo ganha uma coerência surpreendente, uma espécie de avant-garde progressivo à portuguesa, tão provocador quanto cativante.

Em temas como Ultra-pan-óptico e Cela de Nada, os Rei Bruxo mostraram a sua versatilidade criativa, alternando momentos introspectivos com explosões de pura fúria rítmica. A vocalista Sofia Fernandes, com uma entrega intensa e teatral, canaliza uma energia à Rage Against The Machine, enquanto as letras disparam crítica social e existencialismo em doses equilibradas.
Foi em Cela de Nada que se atingiu o clímax da atuação. O tema concentra toda a identidade do grupo: explosivo, poético, desconcertante e deliciosamente estranho. Entre ruídos, gritos, sons inusitados e palavras dispersas, a música arranca e captura a atenção de todos. Ninguém consegue ficar indiferente! O público vibrou, ora em silêncio atento, ora em êxtase absoluto, absorvendo cada palavra e cada dissonância, mergulhado na atmosfera única que só os Rei Bruxo conseguem criar.

Seguiram-se faixas como O Quê Quando Palavras Idas?, E Marte?, Não Doeu e Entra Lucky, antes do tema final Lucky Sem Pozzo. Os Rei Bruxo deixaram o palco sob gritos e aplausos intermináveis, após uma atuação que foi tanto uma experiência musical como uma declaração artística de liberdade. Com a sua mistura imprevisível de géneros e uma performance crua e magnética, os Rei Bruxo provaram que o progresso não está apenas na técnica, está também na coragem de romper fronteiras e reinventar o que a música pode ser.
Para muitos, a grande surpresa da noite, e uma banda que nunca mais sairá do nosso radar.

Setlist: 1. Longe de Errado 2. Ultra-pan-óptico 3. Cela de Nada 4. O Quê Quando Palavras Idas? 5. E Marte? 6. Não Doeu 7. Entra Lucky 8. Lucky Sem Pozzo.
PHASE TRANSITION
A noite encerrou-se com os Phase Transition, que trouxeram uma combinação perfeita de técnica, emoção e presença ao Porto Prog Night.
O concerto começou com Your Guide, single de 2023, que imediatamente cativou o público com riffs precisos e atmosferas envolventes. No final desta primeira música, a vocalista Sofia anunciou: “É um concerto muito especial para nós”, explicando que tocariam, pela primeira vez, o seu novo álbum na íntegra, In Search of Being (2025). Este bloco demonstrou a coerência e maturidade do grupo, sempre acompanhado de uma energia contagiante que se espalhava pelo auditório. Cada tema evidenciou a versatilidade da banda, alternando momentos introspectivos com explosões de pura intensidade instrumental.

A interpretação do álbum começou com Dichotomy, que abriu a viagem sonora de forma poderosa, combinando riffs intensos e atmosferas envolventes para imediatamente capturar a atenção do público. Seguiu-se Becoming (R)evolution, um tema introspectivo e ao mesmo tempo explosivo, que explorou camadas subtis de melodia e ritmo, alternando momentos de tensão e energia pura, evidenciando a coesão e maturidade da banda. Este duo preparou perfeitamente o terreno para Veil of Illusions, um tema cuja profundidade lírica e musical tocou diretamente o coração de todos os presentes.
O ponto mais emocional da noite chegou com Shadows of Grief. Antes da música, a banda dedicou o tema à mãe do baterista, Fernando, que partiu muito cedo. O auditório rapidamente encheu-se de empatia e emoção, com aplausos e atenção total do público. A interpretação foi profundamente comovente, cada nota e cada letra transmitia intensidade e conexão, transformando o concerto numa experiência quase tangível de vínculo humano.
Antes do encerramento, houve espaço para agradecimentos especiais: a banda agradeceu ao público e à organização pela edição mega bem-sucedida do festival.

Para o desfecho, interpretaram The Other Side, onde Sofia chamou Ricardo (Moonshade e Firemage) ao palco, que a acompanhou vocalmente, criando um momento de comunhão única. A performance culminou num final memorável onde balões foram lançados sobre a plateia, e a energia era contagiante onde todos se divertiram enquanto a banda entregava a última música com paixão e intensidade totais.
A atuação dos Phase Transition revelou um grupo técnica e emocionalmente sólido, com uma presença de palco super envolvente e contagiante. Cada tema, desde os primeiros acordes de Your Guide até a explosão final de The Other Side, demonstrou como a música progressiva pode ser simultaneamente complexa, intensa e profundamente humana. Um encerramento perfeito para uma noite histórica, deixando o público com a certeza de que o Porto Prog Night não poderia ter terminado de melhor forma.

Setlist: 1. Your Guide 2. Dichotomy 3. Becoming, (R)evolution 4. Veil Of Illusions 5. Shadows Of Grief 6. The Other Side.
O Porto Prog Night resultou numa noite memorável, onde música, público e atmosfera se fundiram numa experiência única. Desde o início até ao encerramento, o festival manteve uma energia contagiante, com a plateia completamente envolvida e participativa em cada momento. A organização mostrou-se impecável, proporcionando um ambiente confortável e acolhedor, onde cada detalhe contribuiu para o sucesso do evento. Entre emoções, risos, surpresas e momentos de pura intensidade musical, ficou claro que esta primeira edição não apenas celebrou o rock progressivo, mas também criou uma experiência coletiva que ficará gravada na memória de todos os presentes.

Agradecimentos a todo o staff envolvido e às 4 bandas que entregaram o corpo e a alma em palco, marcando para sempre a memória dos presentes. Que seja a primeira de muitas edições!
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