O álbum The Arsonist, o décimo sétimo lançamento da banda alemã de thrash metal Sodom, que celebra mais de quarenta anos na indústria desde sua formação em 1982, demonstra uma evolução clássica, se é que possivel esse termo pois se apresenta crua porém com a maturidade e experiência notável do Sodom. Lançado mundialmente no dia 27 de junho de 2025, o álbum é uma colaboração da banda com a SPV Recordings/Steamhammer.
Foi revelado em entrevista que para alcançar uma autenticidade e personalidade sonora, a banda optou por uma abordagem “old-school” para a gravação. Funcionou! As partes de bateria em The Arsonist foram gravadas usando uma máquina de fita analógica de 24 pistas, sem truques de estúdio ou overdubs digitais. O frontman Thomas “Angelripper” Such descreveu essa abordagem como “Sem plástico!”, enfatizando que a diferença no som é “incrível” e teve um efeito positivo em todos os instrumentos, justificando o maior tempo, esforço e custos envolvidos para um resultado superior, já Toni Merkel, o baterista executa um compasso 4/4, com um andamento de 104 bpm em algumas das faixas com maestria absoluta no quesito brutalidade, simples mas efetivo, gosto disso. A composição do álbum também é diversa, com contribuições de todos os quatro membros da banda, Frank Blackfire (guitarra) que contribuiu com riffs típicos do Sodom e York Segatz (guitarra) favoreceu uma composição mais épica e monumental, vale ainda ressaltar que Toni Merkel, que também é um excelente guitarrista, contribuiu com várias músicas, tornando o álbum mais versátil e poético ao transformar horrores da guerra em poesia a la Giuseppe Ungaretti (L’Allegria), este que com certeza ficaria orgulhoso.
O álbum abre com a faixa-título “The Arsonist”, perfumando o ambiente com cheiro de pólvora e enchofre, e assim somos mergulhados no alagadiço e lamaçento Vietnã de 1965 mais precisamente na operação “Battle Of Harvest Moon”, a música que aborda a operação militar que ocorreu no Vale Quế Sơn durante a Guerra do Vietnã. A letra da música evoca o horror e a brutalidade do conflito, mencionando “o anel de fogo das metralhadoras”, “colinas infestadas pela guerra”, e a devastação de “ossos pálidos e túmulos profanados”. A música tem “riffs esmagadores e solos de guitarra perfurantes” que cobrem nossos ouvidos em napalm e reflete tamanha crueldade sonora da banda, já a faixa, “Twilight Void”, reforça a temática da guerra com a linha “Fui morto no Vietnã / Só não morri ainda”.
Essas canções não apenas narram eventos, mas, através da lírica vívida e agressiva, destacam a brutalidade e o desespero inerentes à guerra, funcionando como um comentário sobre o sofrimento humano e a futilidade do conflito. A faixa mais pesada ideologicamente fica por conta da “Trigger Discipline” na qual aprofunda-se na temática da guerra. Esta música é sobre um franco-atirador que perde completamente o controle e começa a atirar aleatoriamente nas pessoas, com o vocalista Tom Angelripper adotando uma performance intensa. As letras retratam a deterioração psicológica e a desumanização, com frases como “Não tenho disciplina no gatilho / Porque sou o escolhido para matar”, “A humanidade começa a cambalear / Toda a vida se torna tão sem sentido”, e “o ódio desenfreado se desdobrou”. A música, considerada a mais “pesada” no sentido mórbido mesmo, do álbum, oferece uma visão crua da mente de um soldado à beira do colapso, onde a violência se torna indiscriminada e a moralidade se desintegra.
O álbum inclui uma merecida homenagem ao falecido baterista da banda, Christian “Witchhunter” Dudek, na música “Witchhunter”, na qual inclusive ressalto que o atual baterista, Toni Merkel, é extremamente competente e considerado digno de seu predecessor com sua performance incrível. A faixa ganhou um videoclipe oficial criado pelo ex-guitarrista do Sodom, Andy Brings. As letras de “Witchhunter” descrevem o homenageado como “O orgulho de um leão”, “Amado por amigos que o adoravam” e “Odiado por aqueles que não conseguiam invejar”, além de “Um pioneiro, sem fronteiras” e “Uma figura alegre cheia de tristeza”. Essa canção celebra a vida e o legado de Dudek, ressaltando sua importância para a banda e seus fãs.
O tema dos horrores da guerra é recorrente em várias faixas do álbum. “Gun Without Groom” aborda a alienação e a inevitabilidade do destino violento com linhas como “Minha alma desapareceu deste mundo / Em um mar de vazio” e “Balas como chuva em uma condenação irreal”. Já a “Taphephobia”, disparada a melhor na minha opinião, se refere ao medo de ser enterrado vivo, descreve cenários de batalha com “A morte chove do céu estrondoso” e “Crateras de bombas, último local de descanso”… a faixa “Sane Insanity” pinta um quadro sombrio de um campo de batalha com “Entre as cruzes, fila após fila / Enquanto subiam para morrer” e “Onde o ódio palpita em dor sem fim / O flash revelou a chuva tóxica”, concluindo que “Esta guerra é justificada pela sanidade insana”. “Obliteration Of The Aeons” e “Return To God In Parts” também contribuem para essa atmosfera sombria, descrevendo “derramamento de sangue” e a “agonia” da batalha, com a desesperadora constatação de que “não é a guerra para acabar com todas as guerras”. Essas letras, combinadas com a sonoridade agressiva do Sodom, servem para submergir o ouvinte na brutalidade e nas consequências devastadoras dos conflitos.
The Arsonist é um álbum que reflete a experiência e a precisão do Sodom, entregando um thrash metal afiado e letal que explora profundamente os temas da guerra, da loucura e da perda, enquanto homenageia o passado da banda. Um deleite para os fãs.
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4 Caveiras 💀💀💀💀
Nota 9,0

