
Sempre que nos propomos a analisar uma obra, encaramos desafios que vão além da simples audição. Cada “review” é um desprendimento de pré-conceitos para a compreensão de um novo significado. Às vezes, transformar sentimentos puramente sonoros em palavras é uma missão desafiadora, pois, dependendo do estado de espírito de quem ouve, a mensagem captada pode divergir totalmente da intenção original da banda.
É exatamente o caso da missão (quase impossível) de escrever sobre o novo álbum do Serpents Rise, Self Preservation Principle. Lançado em agosto de 2025 pela Aspidities Records, o projeto liderado pelo fenomenal Derek Roddy (ex-Hate Eternal, ex-Malevolent Creation) nos coloca diante de um paradoxo: um Death Metal Técnico 100% instrumental. Mas esqueça os BPMs e as métricas frias; aqui, o foco são as nuances emocionais (sim, emocionais) que essa massa sonora desenvolve.

O mais espetacular em Self Preservation Principle é que, embora estejamos falando de metal extremo da Flórida, o álbum não se resume a violência, rapidez e escuridão. Temos músicos de verdade que renegam rótulos para mostrar versatilidade e leveza em meio à complexidade.
A abertura com “Unnecessary Art“ entrega a pancadaria tradicional, com blast beats furiosos que emendam na obscura “Whale Fall“. Nesta segunda, o baixo ganha uma pegada forte e a música se quebra em uma levada progressiva, onde os solos de guitarra flutuam sem perder o ar sombrio. Em “The Possibilist“, é impossível não lembrar do mestre Steve DiGiorgio; o baixo conduz a música de forma pulsante e o encerramento nos brinda com uma inesperada “brasilidade” na percussão — um toque de mestre.
A quarta faixa, “Viola“, reduz a marcha para envolver o ouvinte. Há uma “trevosidade” sutil aqui, onde o baixo desenha linhas de uma beleza rápida e delicada, destoando totalmente das próximas faixas “Luminous Beings We Were“ e “Luminous Beings We Are“ que apresentam um jogo verbal temporal instigante em seus títulos, destacando um diálogo fascinante entre as guitarras de Jose Hernandez e Glenn Connor, que parecem conversar através de seus solos.
Entretanto, particularmente, o coração do álbum, reside em “Phira“. A faixa mais lenta e bela do disco não é “romântica”, mas sim carregada de uma vulnerabilidade rara no metal extremo. Blast beats e distorções dão lugar a um cuidado emocional sutil, mostrando um universo pouco explorado por músicos desse calibre. É a prova de que a ousadia e a união de influências diversas são os elementos que realmente engrandecem a música.
Após o retorno progressivo em “Nod To The Elder“ e o tom saudoso de “Location 9“ — que soa como uma despedida melancólica —, chegamos à faixa-título. “Self Preservation Principle“ fecha o ciclo, retornando ao peso e às estruturas da primeira música, como se o princípio da autopreservação fosse, de fato, um retorno às origens após uma longa jornada de experimentação.
O Serpents Rise prova que o Death Metal Técnico não precisa ser um amontoado de notas velozes e sem alma. Derek Roddy e seus companheiros entregam uma obra onde o silêncio das vozes permite que o sentimento dos instrumentos grite mais alto. É um álbum corajoso, autêntico e, acima de tudo, humano. Um encerramento de ciclo magistral que coloca a técnica a serviço da emoção.
Serpents Rise:
Derek Roddy: bateria
Phill Willis: baixo
Jose Hernandez: guitarra
Glenn Connor: guitarra
Tracklist:
1.Unnecessary Art
2.Whale Fall
3.The Possibilist
4.Viola
5.Luminous Beings We Were
6.Luminous Beings We Are
7.Phira
8.Nod To The Elder
9.Location 9
10.Self Preservation Principle
Nota: 10/10
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